sábado, 2 de agosto de 2014

As ameaças a Israel estão além do Hamas
Diante da matança em Gaza, Estado judeu vê cair apoio internacional e se afasta da solução ‘dois povos, dois Estados’, ainda a melhor opção
O Globo
A terceira guerra de Gaza já é a mais terrível delas. Entrou na quarta semana, enquanto as anteriores duraram três (2008/2009) e uma semana (2012). É também a mais mortífera: a primeira matou cerca de 1.400 palestinos e 13 israelenses, enquanto os números da atual já são de 1.500 e 66, respectivamente.
Embora os problemas envolvidos no conflito palestino-israelense pareçam os mesmos, o cenário no Oriente Médio mudou. Países como Síria, Iraque e Líbia estão sob forte ameaça de divisão de seus territórios. Em pedaços conquistados nos dois primeiros, o grupo sunita radical Estado Islâmico (antigo Isis) proclamou um califado. Os EUA, único país com cacife para mediar entre Israel e Palestina, parece ter a autoridade reduzida. A maior dificuldade é que a ala predominante hoje no Hamas é a militar. Nem os EUA, nem o Egito nem a ONU têm acesso a seus líderes.
Embora o Hamas lute pelo povo palestino, já não contaria mais com a simpatia de importantes países árabes, como Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos. Eles temem justamente o fortalecimento de grupos sunitas radicais, como o Estado Islâmico, parente do Hamas. Por isso, tem sido noticiado que, por trás do silêncio dessas nações diante da matança de palestinos em Gaza, haveria uma discreta torcida para que Israel quebre braços e pernas do Hamas.
Outra consequência do terceiro conflito é a perda de apoio internacional a Israel diante da ferocidade de sua ofensiva, que não tem poupado escolas da ONU cheia de refugiados palestinos — embora outra delas, desativada, tenha sido usada pelo Hamas para estocar armas.
A revista inglesa “The Economist” colheu dados preocupantes para o Estado judeu. Numa pesquisa publicada em junho (portanto, antes do início do atual conflito), perguntados sobre a boa ou má influência de determinados países, entrevistados de 23 nações deram a Israel a pontuação - 26%, abaixo da Rússia e acima apenas de Coreia do Norte, Paquistão e Irã. Mesmo nos EUA, onde uma sólida maioria apoia Israel, a parcela dos que acham que suas ações contra os palestinos são injustificáveis subiu cinco pontos percentuais, para 39%, desde 2002. E apenas 25% entre 18 e 29 anos apoiam o Estado judeu. O pior é que Israel parece estar se afastando cada vez mais da solução “dois povos, dois Estados”, que garantiria sua permanência como um Estado judeu democrático, com uma minoria árabe. As alternativas serão uma ocupação permanente e não democrática das terras palestinas, garantia de conflito também permanente; ou um país (democrático?) em que os judeus serão minoria. Isto será o fim do lar judaico com direitos iguais para todos que os fundadores de Israel imaginaram.
Por isso, seria muito positivo que os líderes israelenses dessem ouvidos, pelo menos desta vez, às críticas da comunidade internacional.

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