As ameaças a Israel estão além do Hamas
Diante da matança em Gaza, Estado judeu vê
cair apoio internacional e se afasta da solução ‘dois povos, dois
Estados’, ainda a melhor opção
O Globo
A terceira guerra de Gaza já é a mais terrível delas. Entrou na quarta
semana, enquanto as anteriores duraram três (2008/2009) e uma semana
(2012). É também a mais mortífera: a primeira matou cerca de 1.400
palestinos e 13 israelenses, enquanto os números da atual já são de
1.500 e 66, respectivamente.
Embora os problemas envolvidos no
conflito palestino-israelense pareçam os mesmos, o cenário no Oriente
Médio mudou. Países como Síria, Iraque e Líbia estão sob forte ameaça de
divisão de seus territórios. Em pedaços conquistados nos dois
primeiros, o grupo sunita radical Estado Islâmico (antigo Isis)
proclamou um califado. Os EUA, único país com cacife para mediar entre
Israel e Palestina, parece ter a autoridade reduzida. A maior
dificuldade é que a ala predominante hoje no Hamas é a militar. Nem os
EUA, nem o Egito nem a ONU têm acesso a seus líderes.
Embora o
Hamas lute pelo povo palestino, já não contaria mais com a simpatia de
importantes países árabes, como Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes
Unidos. Eles temem justamente o fortalecimento de grupos sunitas
radicais, como o Estado Islâmico, parente do Hamas. Por isso, tem sido
noticiado que, por trás do silêncio dessas nações diante da matança de
palestinos em Gaza, haveria uma discreta torcida para que Israel quebre
braços e pernas do Hamas.
Outra consequência do terceiro conflito
é a perda de apoio internacional a Israel diante da ferocidade de sua
ofensiva, que não tem poupado escolas da ONU cheia de refugiados
palestinos — embora outra delas, desativada, tenha sido usada pelo Hamas
para estocar armas.
A revista inglesa “The Economist” colheu
dados preocupantes para o Estado judeu. Numa pesquisa publicada em junho
(portanto, antes do início do atual conflito), perguntados sobre a boa
ou má influência de determinados países, entrevistados de 23 nações
deram a Israel a pontuação - 26%, abaixo da Rússia e acima apenas de
Coreia do Norte, Paquistão e Irã. Mesmo nos EUA, onde uma sólida maioria
apoia Israel, a parcela dos que acham que suas ações contra os
palestinos são injustificáveis subiu cinco pontos percentuais, para 39%,
desde 2002. E apenas 25% entre 18 e 29 anos apoiam o Estado judeu. O
pior é que Israel parece estar se afastando cada vez mais da solução
“dois povos, dois Estados”, que garantiria sua permanência como um
Estado judeu democrático, com uma minoria árabe. As alternativas serão
uma ocupação permanente e não democrática das terras palestinas,
garantia de conflito também permanente; ou um país (democrático?) em que
os judeus serão minoria. Isto será o fim do lar judaico com direitos
iguais para todos que os fundadores de Israel imaginaram.
Por
isso, seria muito positivo que os líderes israelenses dessem ouvidos,
pelo menos desta vez, às críticas da comunidade internacional.
Nenhum comentário:
Postar um comentário