O sofisma antissemita
O vírus antissemita sofreu uma mutação, recobrindo-se com a capa de proteína do antissionismo
DEMÉTRIO MAGNOLI - FSP
O
antissemitismo em estado cru, aquele dos Protocolos dos Sábios do Sião,
sobrevive nos subterrâneos, quase clandestino, mas seus axiomas formam o
texto oculto de uma versão repaginada, publicável, da aversão aos
judeus. "Israel é aberração; os judeus, não" --o título da coluna de
Ricardo Melo (28/7) sintetiza essa versão, que escolhe não dizer seu
nome.
O antissemita polido mobiliza um sofisma básico: a
distinção entre antissemitismo e antissionismo. Israel, o fruto do
sionismo, deve ser destruído, mas nada tenho contra os judeus --eis a
afirmação sofística. Israel, contudo, é o Estado judeu: a expressão
política de uma nação. A esmagadora maioria dos judeus, em Israel ou
fora dele, defende ativamente a existência do Estado de Israel. Um
século atrás, a distinção entre antissemitismo e antissionismo era um
argumento político admissível; desde pelo menos 1948, não passa de
camuflagem do ódio aos judeus.
O sofisma básico é protocolarmente
acompanhado por um sofisma auxiliar: Israel é uma criação artificial. O
antissemita polido imagina que existem Estados "naturais", um
qualificativo apropriado a rios, mares e montanhas, não a obras da
história humana. Todos os Estados-nações, esses produtos do
nacionalismo, são "artificiais" (a "França de 15 séculos", fundada em
499, na hora do batismo de Clóvis 1º, é um mito católico do século 19).
Israel é um Estado construído por colonos, que se estabeleceram em
terras previamente povoadas. Alguém sugere extinguir os Estados Unidos, a
Austrália ou... o Brasil?
Invariavelmente, junta-se ao sofisma
auxiliar a acusação de que Israel promove o "genocídio" dos palestinos.
Genocídio é o extermínio deliberado de um povo. A Alemanha de Hitler
praticou genocídio contra os judeus, enviando-os às câmaras da morte. O
uso abusivo do termo, escolhido por Marco Aurélio Garcia para condenar a
ofensiva em curso na faixa de Gaza, tem um propósito definido:
identificar Israel ao nazismo. O antissemita polido almeja apropriar-se
da tragédia que vitimou milhões de judeus para convertê-la em ferramenta
política de negação da legitimidade do Estado judeu.
O
"genocídio palestino" só existe no discurso utilitário dos antissemitas.
Na faixa de Gaza, tanto hoje quanto em 2008 e 2012, o governo
israelense faz "uso desproporcional da força" e também comete crimes de
guerra em área com estatuto de território ocupado, bombardeando cidades e
campos de refugiados. Essa segunda acusação, mais grave, não consta da
nota do Itamaraty, pois nossos "anões diplomáticos" preferem circundar a
implicação lógica de estendê-la ao Hamas, que lança foguetes
desgovernados sobre Israel e utiliza os civis palestinos como escudos
humanos para seus combatentes. A ira santa do antissemita polido é
sempre cuidadosamente seletiva.
A análise política diferencia as
nações de seus governos eventuais: os governos passam, a nação fica. O
antissemita polido decreta uma cláusula de exceção a essa regra quando
se trata de Israel. Ele não aponta o dedo para o governo israelense, mas
traça um círculo abrangente em torno do Estado judeu. Na sua peculiar
gramática discursiva, o complemento necessário da distinção entre
antissemitismo e antissionismo é a identificação do governo de Israel ao
Estado de Israel.
O ódio aos judeus nasceu nas profundezas da
Europa medieval e difundiu-se no mundo moderno, como reação ao
cosmopolitismo liberal, a partir das monarquias cristãs conservadoras.
"O antissemitismo é o socialismo dos idiotas." A frase, atribuída ao
socialista alemão August Bebel, evidencia que a moléstia já contaminava a
esquerda no outono do século 19. De lá para cá, sob o impacto do
Holocausto, o vírus antissemita sofreu uma mutação, recobrindo-se com a
capa de proteína do antissionismo, mas continuou a se multiplicar. Aí
está a verdadeira "aberração".
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