Rodrigo Constantino - VEJA
“Não é suficiente que homens honestos sejam apontados para juízes; todos conhecem a influência do interesse na mente do homem, e como inconscientemente seu julgamento é distorcido por essa influência.” (Thomas Jefferson)
Professores que, em vez de instruírem
seus alunos ou tentarem lhes ensinar a pensar por conta própria,
julgam-se “reformadores” da sociedade, representam uma grande ameaça ao
futuro do país. Fenômeno análogo ocorre quando juízes se julgam acima
das leis, e arrogam-se o poder e a sabedoria para reescrever a própria
Constituição. Ambos podem ter origem no mesmo sujeito: Gramsci.
A ideia de uma Constituição limitando os
poderes do governo, de forma clara, com pesos e contrapesos
estabelecidos, é uma ideia liberal e instigante. Os “pais fundadores”
dos Estados Unidos, munidos com os ideais iluministas, defensores da
liberdade individual, criaram a Constituição para amarrar as mãos dos
governantes, restringindo seu poder.
Um governo de leis, conhecidas ex ante por
todos, ao invés de um governo arbitrário e ilimitado de homens,
sujeitos às paixões humanas: uma meta e tanto. E tudo aquilo que os
arrogantes e autoritários rejeitam, pois pretendem se colocar acima de
todos e impor sua visão de mundo aos demais.
Digo tudo isso para chegar ao excelente artigo de Demétrio Magnoli publicado no GLOBO hoje, redimindo-se do anterior, que critiquei aqui.
Demétrio disseca o pensamento de Luiz Edson Fachin, indicado pela
presidente Dilma para o STF e que será sabatinado pelo Senado.
Fachin fez campanha aberta para Dilma, o
que não é crime e nem anula a priori sua capacidade de agir com
imparcialidade como ministro do STF. Mas o pior, como mostra Demétrio,
não é seu partidarismo, e sim sua visão da própria Justiça.
O jurista indicado por Dilma defende o
conceito de mudança social pelo Direito, ou seja, é daquela ala que
encara as leis como instrumentos de “justiça social”, substituto do
termo mais objetivo “justiça”, delegando enorme poder discricionário ao
próprio juiz. Retira-se a venda da estátua e adota-se o olhar “social”
do juiz, imbuido de sua profunda missão reformadora do mundo.
O STF deve ser o guardião da
Constituição, que só pode ser alterada pelo poder Legislativo. Mas
Fachin rejeita essa ideia, e não só é crítico da Constituição (legítimo,
ainda que sua crítica seja pela esquerda), como gostaria de dar
autonomia aos juízes para alterá-la (absurdo). O marxismo contra o
“livre mercado” deveria ser uma bandeira jurídica, o que é temível
quando vem de um defensor do MST, e assustador quando proferido por um
potencial ministro do STF.
Juízes e ministros do STF jamais deveriam
ser ativistas judiciais. Não combina com sua função. Esses militantes
querem, na verdade, escrever uma nova Constituição na marra, ignorando o
devido processo legislativo para tanto, substituindo a voz dos
representantes do povo pela suposta “voz das ruas”, que alegam escutar
como ninguém mais. Mas não foram eleitos, não tiveram votos. Demétrio
conclui:
Displicente,
o Senado aprovou o nome de Dias Toffoli, ao qual faltava o “notório
saber” para ocupar uma cadeira no STF. Agora, os senadores enfrentam um
desafio distinto: o nome escolhido por Dilma usa um indiscutível
“notório saber” para contestar a ordem constitucional e as prerrogativas
do Congresso. É hora de dizer “não”.
A credibilidade do STF já foi bastante
afetada com a entrada de Dias Toffoli, e também com a conduta de
Lewandowski durante o mensalão. Resgatar tal credibilidade daquele que é
o guardião de nossa Constituição deveria ser a meta de qualquer
brasileiro preocupado com nosso futuro e nossa liberdade. Permitir a
entrada de um ativista que se considera acima da própria Constituição
vai claramente à contramão desse caminho necessário. Que o Senado tenha o
bom senso de barrar essa indicação.
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