terça-feira, 19 de julho de 2016

Atentado reacende tensões religiosas em Nice
Élise Vincent - Le Monde
Valery Hache/AFP
Quando Hanane Charrihi desembarcou em Nice com seus grandes olhos negros, arrasada, para o funeral de sua mãe Fatima, 62, que morreu no dia 14 de julho sob as rodas de Mohamed Lahouaiej Bouhlel, ela temia ouvir uma série de "preconceitos". Se existe um lugar em que ela está habituada a ouvir palavras duras sobre sua religião, seu véu e de suas irmãs, esse lugar é Nice, infelizmente. Nunca em Paris ou Aulnay-sous-Bois (Seine-Saint-Denis), onde ela mora e trabalha, como técnica farmacêutica. "Corvos!", "Volte pro buraco de onde saiu!". Ela diz ter aprendido a rir dessas coisas. Mas nesse caso, após um atentado, o que ela poderia dizer?
No entanto, assim que chegou ao local, a jovem de 27 anos só recebeu mensagens de apoio. Desde os inesperados "sinto muito mesmo" do dono da mercearia, até as montanhas de "força!" postados por desconhecidos no Facebook. Fatima, sua mãe, era muçulmana praticante de origem marroquina, e o acaso quis que ela fosse a suposta primeira vítima do atentado reivindicado pelo EI (Estado Islâmico).
Com a emoção suscitada pelo atentado, Hanane começou a sonhar com uma revolução e tentou esquecer o horror da aterrissagem: por volta das 10h da sexta-feira (15), os aviões ainda sobrevoavam os cadáveres sob o sol.

Laboratório da extrema-direita

Aqueles que conhecem bem a situação das comunidades da Côte d'Azur reagiram como Hanane, acrescentando ainda mais cautela à análise. De fato seria difícil escolher um alvo melhor que a costa de Nice para atiçar o ódio. Seria impossível achar um lugar que causasse mais estragos que essa Riviera, joia do turismo mundial, laboratório da extrema-direita e reduto histórico da Frente Nacional.
Em um primeiro momento, no calor do atentado, Yasmina Touaibia, 40, se lembra de ter assistido, desamparada, à revolta de um velho nativo de Nice. Essa jurista de profissão, que trabalha em uma associação de combate à radicalização, a Entr'Autres, se viu impotente diante desse homem, com suas medalhas de guerra na lapela, gritando no meio da multidão: "Vou dar um jeito nesses árabes!" "Queria tanto que tivesse sido só um problema no freio...", disse, em alusão ao caminhão desgovernado de Mohamed Lahouaiej Bouhlel.
Na mesquita Al-Forquane, um dia após a tragédia, Boubekeur Bekri, o vice-presidente do conselho regional do culto muçulmano, era um dos raros que arriscavam um pouco de otimismo. O salafismo jihadista inspirou outros nos conjuntos habitacionais populares que o cercam, com vários jovens tendo partido para a Síria nesse bairro de Ariane. Só que nessa tarde de sexta-feira (15), esgotado pela falta de sono, ele sabia que muitos muçulmanos também haviam sido mortos na noite anterior. "É terrível, mas talvez esse seja o elemento que nos faltava para nos convencer que somos vulneráveis", ele arrisca. "Agora há vítimas dos dois lados."
Mas quem vai ouvi-lo? À medida que os anos foram trazendo misturas, culminando em 21% da população oriunda de imigração no último censo de 2013, as desconfianças em Nice foram crescendo. E as batalhas sempre foram essas, entre muçulmanos e habitantes de Nice de cultura mais católica, entre magrebinos pobres e multidões de aposentados, entre norte-africanos e pieds-noirs. Cada um olhava a partir de sua sacada o horizonte ou o balé dos aviões que fazem a ligação com o outro lado do Mediterrâneo, fantasiado de maneira radicalmente oposta.
Os motivos de tensão foram variando de acordo com os anos, mas alguns se tornaram o cerne simbólico do confronto: os centros de poder velados que são as mesquitas, que contabilizam cerca de quarenta salas de orações oficiais nos Alpes-Maritimes (15 em Nice), sem contar as cinco salas de orações fechadas desde o início do estado de urgência por suspeitas de ligação com um islamismo considerado radical demais, sendo uma delas no bairro de Ariane. Os metros quadrados acabam sendo habilmente divididos por tabelas -- são as áreas que determinam o número de delegados nas instâncias representativas--, de acordo com a população de fiéis, as doutrinas e as alianças municipais.
Apesar de nunca se dizer isso em voz alta, em Nice há uma organização, afiliada à União das Organizações Islâmicas da França (Uoif), o braço francês da Irmandade Muçulmana, que é de longe majoritária: a União dos Muçulmanos de Alpes-Maritimes (Umam). A Umam administra uma dezena de locais de culto, sendo uma interlocutora local obrigatória. Em segundo lugar vêm os marroquinos, de rito maliquita, com cinco mesquitas influentes. Além disso, há uma miríade de independentes, metade deles organizados em associações, a Federação da Côte d'Azur de Mesquitas Independentes.
É um jogo complicado, onde as alianças se fazem e desfazem de acordo com as eleições. Na região se assumiu o hábito de deixar o político dizer o que bem entende contanto que o diálogo aconteça nos bastidores. "A comunidade muçulmana se acostumou com esse jogo que não se vence", aponta Razak Fetnan, bom conhecedor e participante de todos esses enigmas. Próximo do Partido Socialista, ex-membro da oposição municipal, ele é também presidente de uma associação com a qual ele tenta "organizar" a comunidade muçulmana: a Alpes-Maritimes Diversité.
Fazer sem dizer nada, ou o mínimo possível, é a escolha que foi feita para criar uma nova quadra muçulmana em um dos principais cemitérios de Nice, entre 2015 e 2016, um imenso parque onde faltava espaço. Por fim encontraram um novo espaço no final de um corredor, além de dinheiro, com o apoio da prefeitura. Cerca de 1 milhão de euros, segundo Bekri, autor do projeto. A quadra muçulmana foi a primeira da cidade de fato virada para Meca.
Ainda que o atentado não vá reacender tensões em Nice, ele no mínimo desperta preocupações temporárias. Em várias mesquitas imãs contaram ao "Le Monde" que constataram uma queda de no mínimo um terço de seus fiéis após a tragédia. Na igreja do bairro de Saint-Roch, área neutra que separa o mar dos conjuntos habitacionais, o padre anuncia longo de cara, nesse domingo (17), no início da missa, "que nessas horas difíceis a prece será feita da forma mais sóbria possível". Os retardatários fazem menção de ficar de pé, perto da porta. Mas Jasmine, 42, voluntária da paróquia, faz com que eles se sentem. "Queremos ficar de olho em quem vem", ela alega.
Do lado de fora, em um banco da praça Véronique, 54, e sua mãe Maryse, 81, estão mais relaxadas, mas escondem só parte de seu mal-estar. "Precisamos nos manter unidos, precisa haver locais de culto para todo mundo, mas precisam ser mais firmes com a radicalização", elas acreditam. Mas Véronique acaba assumindo seu voto na Frente Nacional e considera que "de fato é preciso fazer algo quanto à imigração". Sua mãe se põe então a cantar o "Nissa la Bella", hino de Nice.
"Aos poucos as relações de forças vão mudando, mas pode-se dizer que as coisas não estão tão ruins assim", relativiza Nicolas, 39, um autônomo de short, chinelo e regata sentado no McDonald's do bairro vizinho de Riquier, que mistura comércio e prédios residenciais. Ele pede por mais "segurança" e menos "ociosidade". Muitos afirmam que na verdade os ressentimentos são discretos. Mas as tensões continuam sendo verbais. As pauladas se dão nas urnas, com votos para a Frente Nacional, sempre que preciso.

Coroas de flores

Tanto em Nice quanto em outros lugares, toda uma gama de autoridades muçulmanas pretende responder a esse atentado e à onda de terrorismo atual com mais religiosidade. "Precisamos de um islamismo que estruture, precisamos que as crianças participem de formações religiosas autênticas, para condenar os abusos é preciso estar acompanhado pela religiosidade", afirma Abdelkader Sadouni, 49, imã de uma sala de orações no bairro popular de Moulins, envolvido recentemente em uma polêmica com Marion Maréchal Le Pen por suas supostas afinidades com as ideias de Hani Ramadan, neto do fundador da Irmandade Muçulmana. "Querem menos religião, mas a que preço?", questiona, na livraria muçulmana que ele administra há 18 anos.
Na promenade des Anglais as coroas de flores vão se acumulando, contendo somente palavras de ternura e compaixão. Com algumas exceções. Como nesse sábado (16) à noite, pouco antes das 23h, quando uma Marselhesa foi entoada por quatro jovens vestidos de roupas escuras gritando "Estado Islâmico, vai tomar no cu!". Os transeuntes a princípio pensavam se tratar de parentes angustiados das vítimas e se aproximaram, para depois entenderem o mal-estar, quando os jovens começaram a entoar uma Marselhesa com o braço direito estendido diante do tapete de flores.

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