segunda-feira, 4 de junho de 2012

AIATOLÁ FICA DOIDÃO E DIZ BOBAGEM

Aiatolá lembra Khomeini e adverte Israel
Ali Khamenei diz que "um relâmpago se abaterá" sobre o Estado judaico caso cumpra as ameaças de atacar o Irã
Aviso é dado durante evento que marca o 23º aniversário da morte do fundador da República Islâmica, em 1979
SAMY ADGHIRNI - FSP
O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, advertiu ontem que um "relâmpago se abaterá sobre a cabeça de Israel" se o Estado judaico concretizar as ameaças de ataque.
O aviso foi lançado durante evento que marcou o 23º aniversário da morte do aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, em 1979, e antecessor de Khamenei no cargo de autoridade máxima do país.
Falando diante de dezenas de milhares de pessoas no santuário onde está enterrado Khomeini, ao sul de Teerã, o líder supremo afirmou que o Irã leva vantagem sobre os inimigos.
"Os sionistas se sentem vulneráveis e aterrorizados após a perda de Hosni Mubarak", disse Khamenei, numa referência ao ditador egípcio, aliado de Israel, que foi derrubado por uma revolta popular em 2011.
Embora seja a única potência atômica do Oriente Médio, Israel diz encarar o programa nuclear de Teerã como ameaça existencial e deixa no ar a possibilidade de bombardear alvos iranianos.
Khamenei voltou a qualificar de "mentira" a acusação de que seu regime tenta desenvolver a bomba atômica e insistiu que o Irã só enriquece urânio para fins energéticos e medicinais.
Num aparente recado às grandes potências com quem o país vem retomando conversas nucleares, o líder afirmou que não irá se curvar diante da ameaça de novas sanções econômicas.
PUNIR
"O único efeito das sanções foi aprofundar o ódio e a animosidade em relação ao Ocidente no coração do nosso povo", disse Khamenei, diante de vários diplomatas ocidentais convidados.
O líder afirmou que as punições não impediram grandes avanços tecnológicos e científicos e acusou as potências ocidentais de usarem o dossiê nuclear para desviar o foco dos seus próprios problemas sociais e econômicos.
"O que os inimigos do Irã mais temem, e devem temer, não é um Irã nuclear, mas um Irã islâmico."
O evento para lembrar a morte de Khomeini, evento crucial no calendário oficial, reuniu toda a cúpula do regime, do presidente Mahmoud Ahmadinejad ao recém-reeleito chefe do Parlamento, Ali Larijani, entre outros.
A televisão estatal exibiu à exaustão imagens dos políticos tentando mostrar união num momento de rixas e tensões internas.
O aniversário, acompanhado pela Folha, ocorreu sob forte esquema de segurança e com presença ostensiva da Guarda Revolucionária, força de elite. Boa parte das pessoas no evento foram trazidas do interior em ônibus fretados pelo governo.

EM DEFESA DA PM: SABE QUANTO GANHA UM "MIKE"? SABE QUE ELE TEM FAMÍLIA? SABE QUE QUALQUER MALACO DE FAVELA TEM UM .9 MM? SABE QUE ESSES VAGABUNDOS QUE RECLAMAM PELOS DIREITOS HUMANOS CHAMAM O "MIKE" QUANDO SÃO VÍTIMAS DOS MESMOS VAGABUNDOS QUE ELES DEFENDEM?

PM mata seis vezes mais que Polícia Civil em São Paulo
BBC-Brasil
A PM (Polícia Militar) matou seis vezes mais pessoas durante ações de combate ao crime do que seus pares da Polícia Civil em São Paulo no ano de 2011, segundo levantamento feito pela "BBC Brasil".
O grau de letalidade da polícia no Estado mais populoso do país se insere no debate sobre a recomendação da abolição do sistema separado de Polícia Militar - feita ao Brasil no Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU no último dia 25.
A questão também deve entrar em debate em junho na Câmara, a pedido do deputado federal Chico Lopes (PC do B-CE). O levantamento da "BBC Brasil" foi feito com base em estatísticas fornecidas pela SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo).
Ele levou em conta os efetivos da PM (100 mil) e da Polícia Civil (30 mil) e os homicídios cometidos em serviço por membros de cada entidade em 2011 - 437 pela PM e 23 pela Polícia Civil.
Proporcionalmente, para cada grupo de 10 mil policiais, a PM se envolveu em 43 mortes e a Polícia Civil em sete.
Militarismo
Esses homicídios são classificados pelo governo como "resistência seguida de morte". Isso significa que ocorreram durante o combate ao crime, em tese, quando os policiais se defendiam de supostas agressões dos suspeitos.
"A PM mata porque tem o mesmo treinamento do militar (das Forças Armadas), que combate inimigos externos. Isso é uma coisa que se deve discutir com a sociedade", disse o deputado Lopes, que defende a unificação das polícias no Brasil em uma entidade civil.
"Minha preocupação não é com o nome, mas com o conceito da polícia. Precisamos tirar o militarismo e depois discutir currículo de formação para que todos (os policiais) comecem (a carreira) em pé de igualdade", disse.
Funções distintas
Segundo a SSP-SP, a diferença nos níveis de letalidade das polícias se explica nas funções que cada uma exerce. À PM cabe o policiamento preventivo e ostensivo e à Polícia Civil a investigação.
"É natural, portanto, que a PM enfrente situações de confronto muito superiores aos da Polícia Civil. Em consequência, registram-se mais mortes na ação do policiamento ostensivo", afirmou a pasta em nota.
Segundo a SSP-SP, se as polícias militares fossem substituídas ou se seus nomes fossem mudados, a probabilidade de confrontos não seria reduzida.
"Matar não é direito nem de uma nem da outra, mas a questão principal é que as polícias não se entendem bem", disse Chico Lopes.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, em muitos Estados (inclusive São Paulo) existe uma disputa entre as polícias militares e civis.
Isso faz com que ambas possuam tanto órgãos destinados à inteligência e à investigação como equipes táticas usadas em patrulhamento ostensivo e confrontos de natureza tática com criminosos.
"O antagonismo (entre as polícias) surgiu das culturas diferentes. Há uma divisão por preconceito de longa data. Principalmente a PM tem procurado ocupar espaços de sua co-irmã. Isso é uma realidade em todo o país", afirmou o sociólogo Luís Flávio Sapori, ex-secretário da Defesa Social de Minas Gerais e hoje professor da PUC-MG.
Segundo ele, a desarticulação e a desintegração entre as duas polícias é hoje um problema mais grave do que a militarização da PM.
Rio de Janeiro
A BBC Brasil solicitou estatísticas sobre a letalidade das polícias militar e civil no Rio de Janeiro ao ISP (Instituto de Segurança Pública), autarquia que divulga as estatísticas policiais no Estado.
O ISP não forneceu os dados. Afirmou que essas estatísticas são divulgadas de forma genérica (sem distinção entre mortes envolvendo policiais civis e militares). Ao todo, foram 523 mortes em 2011 - 63 a mais que as ocorridas em São Paulo no mesmo período.
"O detalhamento desse tipo de solicitação demandaria tempo e dispêndio de recursos humanos", afirmou a autarquia. O ISP informou que "a transparência da informação é meta prioritária" em suas publicações.
Santa Catarina
Entre os demais Estados, o único que possuía a estatística de letalidade especificada em seu site na semana passada era Santa Catarina.
Lá, foram registradas 58 mortes em 2011, sendo que a Polícia Militar matou quatro vezes mais que a Polícia Civil.
O Secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, César Augusto Grubba, também afirmou que as diferenças de atribuições das polícias explicam a diferença nos índices de letalidade.
As atividades da Polícia Civil, segundo ele, expõem seus integrantes a ambientes mais controlados, "pois as ações geralmente são planejadas e previamente estudadas, resultando em menores possibilidades de confronto e resistência armada".
Nações Unidas
O debate sobre a extinção da PM foi levantado durante a Revisão Periódica Universal, uma sabatina à qual os países são submetidos periodicamente no Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Nela, um conjunto de enviados de 78 países fez perguntas e elaborou 170 recomendações ao Brasil na área de direitos humanos.
A recomendação para que o Brasil acabe com o sistema separado de Polícia Militar partiu da delegação da Dinamarca.
O país recomendou a desmilitarização da polícia com investimentos de Estado e observância de "medidas para reduzir a incidência de execuções extrajudiciais pela polícia".
Os homicídios cometidos por policiais classificados como "resistência seguida de morte" ou "autos de resistência" já haviam sido estudados pela ONU no Brasil.
Foram analisados 11 mil casos com essa classificação, ocorridos entre 2003 e 2009 em São Paulo e no Rio.
Em 2010, o enviado da ONU Philip Alston afirmou ter evidências de que parte dessas mortes eram na realidade execuções ilegais.
Na Revisão Periódica Universal de maio, a Alemanha e a Namíbia também recomendaram ao Brasil lutar contra homicídios arbitrários cometidos pelas polícias.
Reação
A SSP-SP afirmou que "considera absurda a sugestão de extinguir as polícias militares dos Estados brasileiros, presente no relatório".
"É uma proposta que carece de fundamentação e de conhecimento das realidades jurídica e cultural da sociedade brasileira", diz a nota da pasta.
"Soa até como piada pronta o fato de a ideia ter surgido da Dinamarca, um país que é quase seis vezes menor que o Estado de São Paulo e dono de situação socioeconômica bem diferente (e mais simples) da encontrada no Brasil".
A pasta também argumenta que a existência das duas polícias está prevista na Constituição Federal.
Esta é a segunda de uma série de reportagens da BBC Brasil sobre as deficiências do país na área de direitos humanos que serão publicadas ao longo deste mês.

MALACK OBAMA E A BICHOLÂNDIA

O apoio ao casamento gay pode fazer com que Obama perca o voto dos negros?
Marc Hujer - Der Spiegel
Ao apoiar abertamente o casamento gay, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofendeu muitos afro-americanos do país, que estão em grande número entre seus mais fiéis defensores. Vários líderes religiosos comunitários chegaram a pedir às suas congregações que retirassem o apoio que seria crucial para sua reeleição.
Em geral, são apenas 20 minutos de carro do lado sul de Chicago até o impressionante mundo financeiro da cidade, ou seja, da Igreja Trinity United até o centro. Mas, neste domingo, dia 21 de maio, com a reunião de cúpula da Otan no Centro McCormick na cidade, esses dois mundos estão a horas de distância. Os manifestantes fizeram o trânsito parar e barricadas da polícia bloqueiam muitas ruas. O presidente Barack Obama, que já esteve à vontade entre a grande igreja afro-americana da cidade, agora viaja com uma equipe de segurança.
Hoje, um conhecido do presidente está se dirigindo à congregação a qual Obama pertenceu. O reverendo Otis Moss 3º é pastor da Igreja Trinity United há quatro anos e conhecia Obama antes de ele se tornar presidente, quando sentava-se nesses bancos entre outros homens vestidos de preto e mulheres com chapéus coloridos e vestidos farfalhantes.
A missa dura três horas, a congregação ora unida e dança ao som de música gospel. O serviço deste domingo não é diferente daqueles do tempo em que Obama fazia parte dessa congregação --e era a grande esperança de muitos afro-americanos. Será que ainda é?
Por quatro anos, o reverendo Moss manteve silêncio quando perguntado sobre Obama, recusando-se a dar entrevistas e evitando debates controversos, sabendo que as mensagens nesses sermões só teriam causado mais problemas ao presidente. Para os eleitores brancos, parece muito radical quando os ministros afro-americanos lembram da culpa histórica dos brancos e do legado da escravidão. Mesmo o lema da igreja --“desavergonhadamente negra”-- pode facilmente deter brancos. Mas, neste domingo, quem está ameaçado não são mais os eleitores brancos. O perigo está nas congregações afro-americanas como a Trinity darem as costas ao presidente.
Traição
Obama, festejado como o “primeiro presidente negro”, agora foi chamado de “primeiro presidente gay” pela “Newsweek”. A capa da revista durante a reunião da Otan mostrou o presidente com um halo com as cores do arco-íris, símbolo do movimento dos direitos de gays, lésbicas e transgêneros. Os programas de televisão estão todos discutindo a atitude corajosa de Obama em falar em favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que até hoje só é legal em alguns Estados. O passo marca uma reinvenção da candidatura de Obama e trouxe nova vida à sua tentativa de reeleição. Mas, para muitos eleitores afro-americanos, a maioria dos quais são estritamente opostos ao casamento do mesmo sexo, a declaração de Obama pareceu uma traição.
Obama deve ter sabido do risco que estava correndo quando decidiu, há três semanas, assumir essa posição, rompendo com sua postura anterior de apoiar apenas uniões civis para casais do mesmo sexo. A homossexualidade continua um assunto tabu para comunidades afro-americanas, com 65% dos afro-americanos considerando o casamento do mesmo sexo errado, comparados com 48% dos brancos. Quando o Estado da Califórnia avaliou o casamento do mesmo sexo em 2008, cerca de 70% dos afro-americanos californianos foram a favor da proibição.
Quando Barack Obama assumiu a Casa Branca em janeiro de 2009, o mundo todo celebrou o primeiro presidente negro dos EUA. Mas a eleição de Obama teve maior significado para os afro-americanos. Um total de 96% dos eleitores negros apoiou Obama, muitos deles indo votar especificamente por entusiasmo com o candidato e muitos deles votando pela primeira vez.
Muitos continuam a apoiá-lo, apesar dos desapontamentos que seu mandato trouxe. O desemprego entre os afro-americanos permanece em 13%, consideravelmente maior do que a média nacional de 8%. Além disso, 11% dos afro-americanos perderam seus lares na crise financeira. Ainda assim, apenas agora Obama tem sérios motivos para temer a perda do apoio dos afro-americanos. E sem eles, o presidente não vai alcançar a reeleição em novembro.
Controle de danos
A declaração de Obama de apoio ao casamento de mesmo sexo fez as comunidades afro-americanas reagirem. Muitas vivem em uma cultura que valoriza figuras masculinas fortes e despreza o homossexualismo. “Aprendemos que a instituição da escravidão nos roubou nossa masculinidade e que temos que preservar o que restou”, escreveu o autor afro-americano Charles Stephens para o “Huffington Post” em março, após incidentes de violência contra gays dentro da comunidade.
E poucas coisas têm maior influência na sensibilidade afro-americana do que as igrejas, que servem de centros de vida comunitária. Entre os negros americanos, 22% frequentam a missa mais de uma vez por semana --o dobro dos americanos brancos. Muitos colocam sua fé naquilo que seus pastores dizem e no que está escrito na Bíblia, inclusive na declaração que o casamento só pode ser entre uma mulher e um homem.
Obama fez todo o possível para minimizar os danos que sua decisão causaria. Imediatamente após a declaração, ele ligou para oito pastores afro-americanos, inclusive Otis Moss Jr., pai de Otis Moss 3º e colega de Martin Luther King Jr. Ainda assim, Obama encontrou fortes críticas, até dos que o haviam apoiado anteriormente. O pastor Dwight McKissic, de Arlington, Texas, declarou: “Obama traiu a Bíblia”. O pastor William Owens, de Menphis, Tennessee, condenou o que ele descreveu como “o sequestro do movimento de direitos civis pela comunidade homossexual”, acrescentando, “não escolhi ser negro e você não escolheu ser branco --os homossexuais fazem uma escolha de serem homossexuais. Então por que comparar o que passamos com a sua situação? Não é a mesma coisa; não tem comparação.”
Owens agora está ameaçando sabotar a reeleição de Obama e ele e muitos outros ministros estão usando seus sermões de domingo para se oporem ao apoio de Obama ao casamento de mesmo sexo. Owens fundou um grupo de 13 pastores afro-americanos em Tennessee contra Obama. Eles estão determinados a negar seus votos a Obama, caso ele não desista.
O direito sagrado ao voto
Mas Otis Moss, pastor da antiga igreja de Obama, discorda. “Devemos apoiar o presidente e apoiar os direitos de todos em uma democracia pluralista que somos convidados a amar”, disse à “Spiegel” em recente entrevista. E em uma carta aberta, ele escreve: “A instituição do casamento não está sob ataque como resultado das palavras do presidente. O casamento estava sob ataque anos atrás, por homens que viam as mulheres como propriedade e os filhos como troféus de seus poderes sexuais”.
No domingo da reunião de cúpula da Otan, Moss leu a carta à sua congregação, depois citou seu pai: “Nossos ancestrais oraram por 389 anos para colocar uma pessoa de cor na Casa Branca. Eles lideraram mais de 200 revoltas de escravos, lutaram em 11 guerras, sendo uma guerra civil na qual de 600 mil pessoas morreram... não vou permitir a ministros de mente estreita ou a políticos retrógrados a satisfação de me afastarem do meu direito sagrado de votar para formatar o futuro para meus netos.”
Moss prosseguiu: “Achar que o presidente dos Estados Unidos deve ter a sua posição teológica é absurdo. Ele é o presidente dos Estados Unidos da América, não o presidente da convenção Batista ou da Igreja Sagrada. Ele é chamado a proteger os direitos de judeus e não judeus, homens e mulheres, jovens e velhos, homossexuais e heterossexuais, negros e brancos, ateus e agnósticos”.
Mais céticos desta vez
Moss soa um pouco como Obama na campanha de 2008, quando ele era o grande salvador, o homem que prometeu mudança e reconciliação a uma nação em briga consigo mesma, o político que declarou em seu famoso discurso de 2004 na Convenção Nacional Democrática: “Não existe uma América negra e uma América branca e latina e asiática; há apenas os Estados Unidos da América”.
A luta de Obama pelo casamento de mesmo sexo oferece novamente esse tipo de promessa grande, um rompimento claro na antiga guerra cultural dos EUA. Presumivelmente, Obama tomou essa decisão em parte na esperança de recapturar a mágica de 2008.
Ainda assim, há mais céticos desta vez do que na primeira eleição de Obama. Muitos eleitores veem esse passo como uma tentativa calculada de conquistar o apoio dos homossexuais ricos, que podem ser grandes doadores para a campanha. Após quase quatro anos de presidência, esses eleitores acham que a promessa de Obama --de construir um país aberto a todos-- soa vazia.
Muitos de seus antigos defensores, enquanto isso, parecem consideravelmente menos entusiasmados atualmente. O professor afro-americano Cornel West, por exemplo, foi fã total de Obama. “Quando você mobiliza o legado de Martin King e coloca um busto dele no Escritório Oval, as pessoas elevam suas esperanças. Martin King não é qualquer um”, disse ele ao “Financial Times no início do mês. “É como um romancista obcecado com Tolstói ou Proust que depois termina escrevendo contos que mal entram em uma revista inferior. Ei, você atiçou nossas esperanças, cara! Eu esperava Proust ou Tolstói, e isso daí mal entraria na 'Newsweek'”.
Tradutor: Deborah Weinberg

O APEDEUTA E SUAS UNIVERSIDADES

As universidades de Lula
O Estado de S.Paulo - Editorial
Nas centenas de discursos que o presidente Lula pronunciou nos últimos meses de seu mandato, em 2010, um dos temas mais recorrentes foi a educação. Em diversas oportunidades afirmou ter criado mais universidades que o presidente Juscelino Kubitschek. Em cinco anos de governo, JK criou 10 instituições, enquanto Lula, em seus dois mandatos, criou 14, sendo 10 voltadas para a interiorização da educação superior e 4 para promover a integração regional e internacional.
Um ano e meio depois de ter deixado o governo, algumas das universidades por ele inauguradas com muita pompa, circunstância e rojão funcionam em instalações emprestadas e prédios improvisados, sem água, refeitório, biblioteca e professores em número suficiente. O câmpus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Guarulhos é uma boa amostra do tipo de instituições de ensino erguidas pelo presidente "recordista" com a preocupação precípua de "mostrar serviço".
O acesso ao câmpus é difícil e não há ônibus suficientes. As salas de aula são abafadas. O refeitório funciona num galpão de madeira. Cerca de 30 mil livros destinados à biblioteca continuam encaixotados. A biblioteca tem 240 mil livros mas, como não há lugar onde colocá-los, só 70% do acervo pode ser consultado. Por falta de infraestrutura, o laboratório de informática não tem como ser ampliado. A demora para se tirar uma fotocópia é de 40 minutos, em média. E quando os 50 computadores são operados simultaneamente, a velocidade da internet cai.
Projetado originariamente pela prefeitura de Guarulhos para abrigar uma escola técnica, o câmpus funciona desde 2006, oferecendo cursos de ciências sociais, filosofia, história, letras e pedagogia a cerca de 3,1 mil alunos. Mas, como um edifício prometido desde 2007 jamais saiu do papel, os poucos prédios disponíveis estão superlotados e algumas aulas tiveram de ser transferidas para uma escola municipal que atende cerca de 700 crianças.
Nessa escola, os cursos da Unifesp são dados à tarde e à noite, mas o número de salas também é insuficiente. "Estamos discutindo Hegel e a molecada está no recreio, fazendo correria ao lado. Como não há ventilação e o prédio pega sol o dia inteiro, no verão é insuportável", diz o estudante Michael de Santana. Por causa da falta de salas climatizadas, a ilha de edição de vídeo financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo não pode ser usada. Além disso, há carência de professores em muitos cursos e o quadro administrativo tem menos da metade do número de servidores necessários.
Para exigir que o governo da presidente Dilma Rousseff terminasse o que Lula "inaugurou", os alunos deflagraram uma greve no final de março, que perdura até agora. Em maio, ocuparam a reitoria acadêmica por três dias. A direção do câmpus da Unifesp em Guarulhos alega que o uso das dependências da escola municipal do bairro dos Pimentas foi planejado de comum acordo com a prefeitura de Guarulhos, como contrapartida pela instalação do câmpus na cidade, em 2007. As salas serão devolvidas quando o prédio novo - cuja licitação só foi concluída este ano - for construído. Para amenizar os problemas, a Unifesp alugou um prédio em frente ao câmpus, para servir de sala de aula.
Outras universidades federais criadas por Lula enfrentam problemas semelhantes. Na própria Unifesp, um dos prédios da unidade da Baixada Santista está interditado desde o final de abril, por causa de uma forte chuva. Em Minas Gerais, o câmpus avançado da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha, também criada em 2007, só tem um quinto de suas instalações construídas. Na Universidade Federal do ABC, os problemas de gestão e logística desestimularam os alunos - em 2009, a instituição registrou uma taxa de evasão de 42%, uma das mais altas do País.
Esse é o cenário de muitas das universidades criadas por Lula. Suas primeiras turmas estão tendo fortes prejuízos em sua formação acadêmica, como reconhecem os professores e dirigentes dessas instituições.

domingo, 3 de junho de 2012

BILLIE HOLIDAY - I'M A FOOL TO WANT YOU



I'm a fool to want you
I'm a fool to want you
To want a love that can't be true
A love that's there for others too
I'm a fool to hold you
Such a fool to hold you
To seek a kiss not mine alone
To share a kiss the Devil has known
Time and time again I said I'd leave you
Time and time again I went away
But then would come the time when I would need you
And once again these words I'll have to say
"I'm a fool to want you
Pity me, I need you
I know it's wrong, it must be wrong
But right or wrong I can't get along
Without you"
I can't get along
Without you

NO BRASIL, ATÉ A SANTA IGREJA VIROU BAGUNÇA!

Missa de motociclistas tem padre roqueiro
Culto religioso acontece uma vez por mês na paróquia de San Gennaro e tem oração reconhecida pelo Vaticano
Padre, que pilota moto desde jovem, curte Nirvana, usa colete de couro e capacete em parte da celebração
RAFAEL ITALIANI - “AGORA”
Centenas de motociclistas com coletes de couro, tatuados, cabeludos e cheios de brincos e acessórios com imagens de caveiras. Não, não é uma reunião de gangues.
É uma missa.
Todos os últimos domingos do mês, a paróquia de San Gennaro, na Mooca (zona leste), faz a missa dos motociclistas, que tem como lema "Paz no Trânsito, Paz no Mundo" e até oração reconhecida pelo Vaticano.
O evento foi idealizado pelo padre Claudiomiro Bispo, 35, que também anda de moto e curte bandas como Nirvana e U2.
"Vai no bingo ou vai na missa, tia?", perguntava o comerciante Edgar Costa, 43 anos, a uma senhora que chegava de táxi à missa no último domingo.
Com 1,90 m, 110 kg e uma tatuagem da fabricante de motos Harley-Davidson em um dos braços, ele recepcionava os fiéis e organizava o trânsito em frente à igreja.
Na rua, cerca de 300 motocicletas estacionadas. Todas recebiam fitinhas brancas em sinal de paz.
Dentro da igreja, membros de motoclubes cantavam hinos de louvor e faziam suas orações. Os Desajustado's, por exemplo, ficaram em frente ao altar. Logo atrás, a aposentada Maria de Lourdes Domingues Santos, 67, via com clareza o escudo do grupo bordado nas costas de uma jaqueta: uma caveira pilotando uma motocicleta.
"Achei divertida essa caveira maluca. Na igreja tem espaço para todo mundo", afirmou a aposentada.
Também havia espaço para o Esquadrão Selvagem, os Templários e os membros do Boca Preta do Asfalto.
Como é voltada para os motociclistas, a missa tem algumas peculiaridades - capacetes sobre o altar, por exemplo. Ao final, todos fazem a oração dos motociclistas.
Logo depois, o padre Claudiomiro tira a batina e veste uma calça jeans, um colete de couro, capacete e óculos escuros para subir em um caminhão de som.
As motos dão partida e seguem em carreata por ruas da Mooca. Depois de 40 minutos, o padre abençoa as motos e os motociclistas, e todos se reúnem para comer uma macarronada e assistir a um show de rock em um galpão da igreja. Os hinos de louvor dão lugar aos Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin.
O padre que tem nome de Bispo anda de moto desde a adolescência. "Quem vem à missa sai daqui com outra ideia de como se comportar nas ruas. Muitos eram loucos no trânsito e mudaram completamente", diz.
De acordo com a Arquidiocese de São Paulo, a oração dos motociclistas tem autorização eclesiástica -ou seja, reconhecimento do papa Bento 16 - e São Paulo Apóstolo pode ser usado como patrono dos motociclistas.
Segurança, criminalidade e liberdade no Brasil
Fábio Ostermann - OL
É comum entre brasileiros que vivem ou passam uma temporada em algum país desenvolvido o choque que nos causam algumas peculiaridades brasileiras. Além do arroz-com-feijão e da celebrada alegria e cordialidade do povo (?), um traço característico à realidade brasileira que se torna gritante quando do retorno após um período fora é a quase permanente sensação de insegurança que permeia o dia-a-dia de todos.
Em especial nas grandes cidades e regiões metropolitanas, seja rico ou pobre, o brasileiro vive com medo. Tal sensação de insegurança não é injustificada: segundo o “Mapa da Violência 2012”, o Brasil tem uma média anual de mortes violentas superior à de boa parte dos conflitos armados mundo afora – alcançando a assustadora cifra de 1,09 milhão de homicídios entre 1980 e 2010. Segundo dados da ONU, em 2008 apenas 10 países tiveram taxas de homicídio (por 100 mil habitantes) mais altas que as brasileiras.
Apesar de terem apresentado reduções em alguns estados brasileiros (destaque para Rio de Janeiro e São Paulo), as taxas de homicídio no Brasil aumentaram em mais de 120% nos últimos 20 anos (gráfico abaixo).
Curiosamente, a população carcerária também apresentou um crescimento significativo. De 1990 a 2010, o número de detentos no Brasil cresceu 471% (de 90.000 presos para 513.802 – dados do DEPEN), sendo que a população brasileira cresceu pouco mais de 30% no mesmo período. Podemos creditar este crescimento acelerado à promulgação da Lei dos Crimes Hediondos, em 1990. Esta lei, aprovada e reformada em 1994 sob grande clamor popular, estabeleceu a impossibilidade de fiança, liberdade provisória e progressão de regime (até 2007, quando foi modificada) para quem cometesse os crimes elencados em seus artigos 1° e 2°.
Os crescentes casos de homicídio qualificado, latrocínio, estupro e sequestro que chocaram o país (como o sequestro do empresário Abílio Diniz e o assassinato da atriz Daniela Perez) na virada da década criaram o clima ideal para que houvesse uma mudança legislativa que tornasse mais severa e duradoura a punição a estes crimes tão execráveis.
Em teoria, o raciocínio do legislador brasileiro estava correto. Diversos estudos focados na análise econômica do crime afirmam que os criminosos respondem a incentivos, e o aumento da pena é inegavelmente um incentivo negativo à conduta criminosa. A conclusão traduzida por estudos empíricos na área, como EHRLICH (1973), LEVITT (1997) e SHIKIDA (2007), apontam claramente para um modelo de criminoso racional, que realiza análises de custos e benefícios (como qualquer pessoa, aliás).
O que boa parte da mídia e da opinião pública parecem ignorar, no entanto, é o fato (enfatizado pelos estudos citados acima) de que a ameaça penal perde todo o seu caráter preventivo e dissuasório se a punição passa a ser percebida como algo muito improvável. O Brasil é um caso tragicamente exemplar disso. Apenas cerca de 8% dos homicídios cometidos no Brasil (dados do Mapa da Violência-MJ) e 15% dos latrocínios (dados da SSP-SP) são solucionados.
Não é necessário ser um Gary Becker (Nobel de Economia em 1992, pioneiro da análise econômica do crime) para entender que a quase completa certeza da impunidade prevalente no Brasil é um convite à criminalidade (a despeito da crescente severidade das penas). O que pode explicar a vultosidade da população carcerária brasileira a despeito do fato de a impunidade ser a regra é o grande contingente de pessoas condenadas (ou presas aguardando julgamento) por tráfico de drogas. Estima-se que cerca da metade dos detentos brasileiros estejam presos por envolvimento com este, que é, essencialmente, um crime sem vítimas e, como tal, deveria ser abolido (assunto recentemente abordado aqui e aqui).
Faltam peritos, policiais civis (responsáveis pela parte investigativa) e militares (responsáveis pelo policiamento ostensivo) em quase todos os estados do Brasil. A precariedade da estrutura e de boa parte dos recursos fica evidente a qualquer pessoa que já tenha tido a experiência de ir a uma delegacia de polícia.
Além disso, o sistema penal brasileiro produz criminosos em larga escala. A maioria ingressa no sistema penal por meio do tráfico de drogas (pena de reclusão de 5 a 15 anos) e, na prisão, acabam fazendo contatos e adquirindo o know how, a frieza e a brutalidade necessárias para cometer os crimes bárbaros que fazem a alegria dos programas sensacionalistas. A reincidência é a regra absoluta (alcançando níveis de cerca de 80% em alguns estados) e as poucas iniciativas que buscam reformar esse cenário absurdo não recebem a devida divulgação, além de esbarrarem em conflitos políticos e preconceitos ideológicos descabidos (como o que impossibilitou recentemente a construção de uma penitenciária em regime de PPP no Rio Grande do Sul, estado dono do “pior presídio do Brasil”, segundo a CPI do sistema carcerário). As experiências de terceirização dos serviços penitenciários a organizações sociais ou empresas têm se mostrado um emprego muito mais racional do dinheiro dos pagadores de imposto do que as penitenciárias geridas pelo Estado.
Em meu artigo anterior, abordei a correlação entre o tamanho do Estado e o nível de corrupção, sugerindo uma relação causal entre as duas variáveis. Aqui, minha intenção é convidar o leitor a refletir sobre a atual capacidade do Estado brasileiro de prestar o seu serviço mais fundamental que o de garantir a vida, a liberdade e a integridade física das pessoas e do fruto do seu trabalho. O constante risco de ter um ente querido tornado vítima da violência e a necessidade de se viver e trabalhar “atrás das grades” são extremamente nocivas ao Estado de Direito como um todo. E aquilo que põe em risco o Estado de Direito nos coloca mais próximos da barbárie e de soluções extremadas (como as levadas a cabo por grupos de extermínio ou paramilitares) que só fazem aumentar o grau de insegurança.
Em sua concepção atual, o Estado brasileiro cobra escanteio e corre (arrasta-se, na verdade) até a área para cabecear. O governo federal conta hoje com 24 ministérios e 15 secretarias/órgãos com status ministerial encarregados das mais diversas incumbências, além de participação em quase 700 empresas Brasil afora focadas em atividades que passam bem longe mesmo do conceito mais generoso de “setor estratégico” (como é o caso da fábrica de preservativos Natex, no Acre).
Para manter tamanha estrutura, o governo federal expropria parte importante da riqueza dos brasileiros via tributos cuja destinação é incerta, inefetiva e pouco transparente. Deste total, repassa migalhas às unidades da federação que, imbuídas de lógica similar, não conseguem (ou não querem) distinguir entre o que faz diferença vital (literalmente) na vida das pessoas e o que é mero assistencialismo ou favorecimento a grupos de interesse bem organizados. Para se ter uma ideia, o governo do estado do Rio Grande do Sul conta com nada menos que 26 secretarias de estado, além de diversos órgãos e autarquias de relevância duvidosa. Teria o governador a capacidade gerencial de priorizar a segurança pública em meio a tantas pastas lidando com questões tão amplas?
A diminuição da criminalidade passa, necessariamente, por um reposicionamento das funções do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário). A insegurança e os altíssimos índices de criminalidade que destroem vidas e inibem investimentos são grandes obstáculos à liberdade, à prosperidade e à aspiração universal de viver sem medo. O desafio é imenso, mas quanto menos o Estado gastar suas energias e recursos em áreas que não lhes dizem respeito, maior será sua capacidade de focar esforços na diminuição da violência e da criminalidade no Brasil.
Sobre o Autor
Fábio Ostermann é bacharel em Direito (UFRGS), graduado em Liderança para a Competitivdade Global (Georgetown University) e mestrando em Ciência Política (PUCRS). É consultor, associado do IEE (Instituto de Estudos Empresariais) e gerente de relações institucionais do Ordem Livre.
Política de quotas também para empregos — e o mérito, onde fica?
Ricardo Setti - VEJA
O governo rumina a ideia de colar um adesivo na testa de cada brasileiro conforme sua “raça” — algo que, cientificamente, não existe, excetuada a raça humana — para também reservar quotas em empregos para determinados grupos populacionais.
Quer dizer, numa fase da história do mundo em que a competitividade é, mais do que nunca, fator crucial para que países se desenvolvam e se destaquem, abre-se uma brecha no único critério que deve medir o acesso de uma pessoa a qualquer cargo, posto ou posição: o conjunto de suas qualificações profissionais, sua bagagem, sua base educacional, os esforços desenvolidos ao longo do tempo para adquirir conhecimento, seu talento, sua experiência (quando for o caso).
Em uma palavra, o MÉRITO.
Que, como no caso das quotas para universidades, vai uma vez mais para a cucuia.

CARMEN MACRAE - MY FOOLISH HEART

GRÉCIA, BERÇO DA CIVILIZAÇÃO, ESTÁ INDO PARA O BURACO. É UMA PENA

Grécia: um legado milenar em perigo
No país onde a recessão é mais dramática, arqueólogos alertam: corte de orçamento e saques já ameaçam patrimônio mundial
Alexandra Lucas Coelho - O Globo

Partenon, o mais célebre monumento da colina da Acrópole: visitas terminando às 15h por falta de guardas
Foto: AFP
Partenon, o mais célebre monumento da colina da Acrópole: visitas terminando às 15h por falta de guardas
RIO - Em nenhum outro país da Europa a crise econômica é tão dramática, e em nenhum outro país do mundo a herança cultural é tão antiga e vasta: o que está em perigo na Grécia é patrimônio mundial. Para além das dificuldades que os novos criadores encaram (leia no quadro abaixo), o legado de milhares de anos está ameaçado, alerta a Associação Grega de Arqueólogos num apelo internacional contra a redução de orçamento, pessoal e condições.
"Em nome da crise econômica global e com o FMI a atuar como Cavalo de Troia, as medidas de austeridade têm minado os serviços públicos", diz o texto. "Nós, os 950 arqueólogos gregos, funcionários públicos ao serviço do Ministério Helênico da Cultura, lutamos contra a destruição tanto da nossa pátria como da nossa herança cultural, devido às políticas ditadas pelo FMI e pela Troika (formada pelo próprio fundo, pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu)."
Os arqueólogos dão exemplos de como a segurança tem sido afetada pelos cortes. Em janeiro, um Picasso e um Mondrian foram levados da Galeria Nacional de Atenas: os ladrões entraram pela varanda, durante uma greve de funcionários. Em fevereiro, dezenas de peças "de valor incalculável" foram roubadas de um museu em Olímpia, o lugar original dos Jogos Olímpicos: os ladrões destruíram o alarme e amarraram uma funcionária. Enquanto isso, dezenas de escavações ilegais multiplicaram-se por toda a Grécia, gente em busca de algo valioso para vender. E quem aproveita é o tráfico internacional de arte.
Como Iraque e Afeganistão
"Os povos da Europa partilham o mesmo destino", resumem os arqueólogos. "As mesmas medidas de austeridade que estão a desfazer a Grécia e os seus monumentos vão ser impostas pela Europa. A cultura é o nosso território comum e o nosso destino comum. Resistam!"
O apelo foi lançado em abril, conta ao GLOBO a presidente da associação, Despina Kutsumba, de 38 anos.
— Até agora não tivemos resposta do ministério (Helênico da Cultura e Turismo). Durante dois anos tentamos explicar ao governo que estes cortes levariam ao desastre, mas eles não entenderam nada e continuaram. Depois do roubo de Olímpia decidimos fazer o apelo internacional para os constranger.
Além de mensagens no Facebook, as reações estrangeiras incluem "uma carta de apoio de Jack Lang", ex-ministro francês da Cultura.
— Não pedimos dinheiro, pedimos que pressionem o nosso governo — explica Despina. — De acordo com a constituição, os monumentos são responsabilidade do governo. E agora até a Acrópole e o Museu Arqueológico de Atenas fecham às três da tarde porque não temos guardas. Há tantos turistas, e eles não podem ver as coisas, e não teremos o dinheiro desses bilhetes.
No horário de verão, como o que vigora atualmente museus e sítios arqueológicos na Grécia fechavam às 19h. Até essa hora, a qualquer dia da semana, havia sempre gente em volta do Partenon, o mais célebre monumento da colina da Acrópole.
Enquanto isso, milionários aproveitam a crise.
— Não é verdade que não estejamos a proteger os nossos monumentos, embora o governo diga que os funcionários não fazem o seu trabalho, mas nós, arqueólogos, não nos podemos proteger dos colecionadores ricos que encomendam coisas da Grécia — diz Despina. —Temos a certeza de que o roubo de Olímpia foi uma encomenda de um colecionador privado, porque são coisas muito conhecidas, que não podem ser postas à venda no mercado. Os colecionadores estão a pedir que roubem para eles, como aconteceu no Iraque e no Afeganistão. É um tráfico global. Essas pessoas preferem países com guerras, em profunda crise ou pobres. E agora encontrarão gente desesperada para fazer escavações ilegais para eles. São dezenas de buracos por toda a Grécia, todos os meses, feitos por profissionais e gente sem emprego.
O jornalista Nikolas Zirganos, 53 anos, que investigou o tráfico de antiguidades, confirma:
— Há um grande aumento de escavações ilegais. Depois das Olimpíadas (de 2004), isso diminuiu, mas agora mais e mais pessoas estão desesperadas para encontrar um tesouro.
Durante uma década não houve roubos, mas desde o começo do ano houve vários, incluindo a riquíssima Grécia bizantina.
— É alarmante — diz Nikolas. — Nos mosteiros e nas igrejas, especialmente no norte, estão a roubar o dinheiro que as pessoas doam, afrescos e ícones. Há um colapso dos mecanismos do Estado. E num cenário caótico, que é algo em que ainda assim não acredito, e ninguém quer, pergunto-me se há planos de emergência.
"Enterremos as nossas antiguidades para serem encontradas por arqueólogos no ano 10000, quando os gregos e seus políticos tiverem maior respeito pela História", ironizou recentemente o arqueólogo Michalis Tiverios, de Tessalônica, no norte do país.
Ex-responsável pelo restauro do Partenon, que está a ser feito há décadas com financiamentos internacionais, o perito Manolis Korres diz que a crise ainda não afetou os monumentos principais, e o trabalho dos investigadores prossegue.
— Mas muito disso vai depender da excepcional dedicação de arqueólogos e de todos os que trabalham com antiguidades na Grécia. Continuam a fazer o melhor que podem, apesar das reduções dramáticas no salário e de o trabalho de muitos ter passado a ser feito por poucos.
O GLOBO tentou contactar por e-mail e telefone o Ministério Helênico da Cultura e Turismo, que neste momento tem um responsável interino, mas não obteve resposta. O momento atual é de transição de poder: eleições gerais acontecem no próximo dia 17.

O MOLUSCO E O RATO

Em dupla com o Ratinho
O Estado de S.Paulo - Editorial
O narcisismo do ex-presidente Lula compensa com folga o fato de "algumas pessoas" não gostarem dele, como disse há dias, numa indireta ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal, que o acusou de querer "melar" o julgamento do mensalão. A exacerbada autoestima, combinada com o senso de onipotência, o levou a afirmar, como se fosse natural nas democracias, que "não pode permitir" que um tucano volte a ser presidente. Por isso, caso a sua sucessora Dilma Rousseff não queira disputar um segundo mandato em 2014, ele se declara desde já pronto para se recandidatar ao Planalto.
Isso e muito mais, como se diz em propaganda, Lula ofereceu a um público estimado em 1,4 milhão de espectadores na Grande São Paulo, durante os 44 minutos, divididos em dois blocos, que durou a sua aparição no Programa do Ratinho, do SBT, no horário nobre da quinta-feira. Foi a sua primeira ida à TV desde que se despiu da faixa presidencial e a sua primeira entrevista na TV desde o diagnóstico de câncer na laringe, cujo tratamento o deixou roufenho, entre outras sequelas. A rigor, o termo entrevista, no sentido convencional, não se aplica. Aquilo foi um espetáculo de endeusamento, em dupla com o apresentador.
Carlos Massa, o Ratinho, é uma das muitas pessoas que gostam de Lula - e a recíproca é verdadeira. "Já comi rabada na casa dele e ele na minha", disse o ex-presidente no ar, justificando a sua presença no programa de um dos animadores preferidos das classes pobres, que começou na mídia eletrônica batendo na mesa com um porrete para mostrar o que a polícia devia fazer com os "marginais". Lula se considera um campeão na defesa dos direitos humanos, mas amizades são amizades. Ainda mais quando o amigo, pouco importa o seu caráter, lhe proporciona uma inestimável oportunidade.
No caso, a de apresentar ao povo, cobrindo-o de louvações, o candidato de primeira viagem que impôs ao PT para disputar a Prefeitura da capital em outubro próximo, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad - chamado, na hora apropriada, a participar do show. A narrativa das atribulações por que o ex-presidente ainda passa em razão da enfermidade, com vídeos e fundo musical escolhidos para tocar os corações dos eleitores, não passou, portanto, de um açucarado aperitivo antes de serem servidos os vínculos entre o imensamente popular Lula e o candidato detentor, até aqui, de 3% das intenções de voto dos paulistanos.
A propaganda, diria o Ratinho, foi escrachada. Haddad, profetizou o seu patrono, "vai passar para a história como uma pessoa que colocou mais pessoas no ensino público", referindo-se ao ProUni. Como o script foi acertado de antemão, rolou um vídeo com a história da filha de um pedreiro que chegou à faculdade graças à iniciativa. A encenação continuou com o apresentador perguntando ao candidato o que um prefeito pode fazer pela saúde e este respondendo que terá um "programa de gestão" para o que seria "o problema número um de São Paulo".
Lula e Haddad começaram assim a fazer o que Lula e Dilma fizeram em 2010 - propaganda eleitoral antecipada. Pela lei, a campanha, nas ruas e na internet, só pode ter início a três meses da votação. Curiosa, a legislação brasileira. A partir de então, as emissoras de rádio e TV ficam proibidas, entre outras coisas, de "dar tratamento privilegiado" a candidatos. Antes, logicamente, podem, como o Ratinho se esbaldou de fazer anteontem - pela bizantina razão de que aqueles só passam a existir ao serem escolhidos em convenções partidárias. Estas, por sua vez, não podem se realizar antes de determinada data (10 de junho, no caso das eleições municipais deste ano).
Partidos são associações civis e, como tal, deviam ter o direito de escolher os seus candidatos quando bem entendessem - dentro de um prazo que levasse em conta o tempo necessário à inclusão dos respectivos nomes nas cédulas eletrônicas. A camisa de força, além do mais, é uma hipocrisia. Cria a ficção de que, por exemplo, Fernando Haddad poderá não ser o candidato do PT nem José Serra, do PSDB. Disso resulta esse ente dissimulado chamado "pré-candidato". É mais do que tempo de liberar o processo.

POLÔNIA II

Eurocopa na Polônia e na Ucrânia traz preocupações sobre racismo
Jere Longman - NYT
O evento esportivo mais importante no Leste Europeu desde a queda do Muro de Berlim começa dia 8 de junho, com a Eurocopa 2012 sendo sediada pela Polônia e Ucrânia.
Mas uma complicada questão racial surgiu quando as famílias de dois jogadores negros da Inglaterra disseram que provavelmente não estarão presentes no torneio de 16 equipes temendo abuso ou violência na Ucrânia, onde a seleção jogará suas primeiras três partidas. Um documentário da “BBC” descrevendo comportamento racista em jogos de futebol ali inflamou ainda mais as emoções.
Ao mesmo tempo, um dos principais jogadores da Inglaterra, o zagueiro John Terry, enfrentará um processo criminal após o torneio, por ter abusado racialmente de um adversário negro durante uma partida de clubes em outubro, pela Premier League inglesa. O processo fez com que Terry perdesse a posição de capitão da seleção inglesa.
Apesar do racismo no futebol ser um problema persistente na Inglaterra, na Itália e na Espanha, ele parece ainda mais virulento em partidas no Leste Europeu, com alguns torcedores fazendo sons de macacos e jogando bananas para os jogadores negros, enquanto outros fazem saudações nazistas e cantam “Sieg Heil”.
O governo britânico e o presidente da federação inglesa de futebol expressaram preocupação com a possibilidade de abuso racial contra os jogadores e torcedores em ambos os países-sede, particularmente na Ucrânia. Poucas famílias de jogadores ingleses planejam ir ao torneio, disse um porta-voz da federação inglesa.
Ashley Walcott, irmão do ponta Theo Walcott, disse recentemente no Twitter que a família evitará a Euro 2012 “por temor de possíveis ataques/confrontos racistas”. Ele acrescentou: “Algumas coisas não valem o risco.”
Um terço da seleção inglesa é negra. Mark Chamberlain, um ex-jogador e pai do atacante adolescente Alex Oxlade-Chamberlain, disse que não irá às partidas da fase de grupo na Ucrânia, mas poderá ir às fases posteriores da copa. A final será jogada em Kiev em 1º de julho.
“É uma grande preocupação”, disse Chamberlain em uma entrevista para a televisão britânica. “Eu acho que sua segurança é mais importante do que uma partida de futebol. É apenas prudente me manter distante disso.”
O Leste Europeu não realiza um evento esportivo da magnitude da Eurocopa 2012 desde os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980 e das Olimpíadas de Inverno de 1984 em Sarajevo. Como co-país sede, a Ucrânia espera se exibir 26 anos após o desastre nuclear de Chernobyl e duas décadas após ganhar a independência com a dissolução da União Soviética.
Mas a Eurocopa será jogada em meio a um boicote político planejado à Ucrânia por alguns líderes europeus, devido à prisão da ex-primeira-ministra, Yulia V. Tymoshenko, e acusações de retrocessos na democracia. E preocupações foram amplamente expressadas em torno do racismo, tráfico sexual, brutalidade policial, gastos de mais de US$ 13 bilhões para sediar o evento em meio a dificuldades econômicas e cobrança de preços de hotel exorbitantes.
“Quando a Ucrânia foi indicada, as pessoas diziam que seria uma vitrine para exibir sua democracia, seu crescimento econômico, que ela fazia parte da Europa”, disse Steven Pifer, um ex-embaixador americano na Ucrânia e que agora é membro sênior da Instituição Brookings. “Agora que ela chegou, o aumento de preços, a corrupção, a percepção de que a Ucrânia está retrocedendo na democracia e a decisão de alguns líderes europeus de manter distância colocarão uma nuvem de chuva sobre o desfile.”
A elite do futebol de clubes na Europa é cada vez mais inclusiva, com jogadores de diferentes países, raças e grupos étnicos se unindo para formar equipes altamente respeitadas no Barcelona, Chelsea, Bayern de Munique e Manchester United. As seleções na Inglaterra, França, Holanda e Alemanha também colocam em campo times multiculturais.
Mas as competições de futebol envolvendo seleções tendem a estimular estereótipos e tensões chauvinistas, disse Andrei Markovits, um professor de estudos alemães da Universidade de Michigan, que escreveu extensamente sobre o futebol e já assistiu pessoalmente a quatro Eurocopas. “Eu estou certo que haverá todo tipo de provocações desagradáveis contra os jogadores de pele escura por todas as partes”, disse Markovits sobre a Eurocopa 2012.
Mas ele acrescentou: “Eu não vejo isso como exclusivo do Leste Europeu, exceto em grau. Isso é ubíquo na Europa. De alguma forma, o estádio de futebol permaneceu o último reduto de masculinidade completa. Você pode se comportar mal e se orgulhar disso, de um modo que não pode virtualmente em qualquer outro espaço na Europa.”
Max Tucker, um especialista em Ucrânia da Anistia Internacional, disse de Kiev que a polícia pode representar um problema maior para os visitantes do que os hooligans. Ele acusou a polícia ucraniana de ser altamente corrupta e intolerante. Ele descreveu o caso de um homem de etnia azeri que foi recentemente parado pela polícia, espancado e chamado de “negro bastardo”. “A postura aqui é de que as pessoas de cor não são iguais”, disse Tucker.
A Uefa, a federação europeia de futebol, disse que concedeu o torneio à Polônia e à Ucrânia para disseminar a influência do esporte e confrontar questões sociais. Os árbitros terão tolerância zero com o racismo durante a Eurocopa 2012, disse a Uefa, e terão poder para interromper a partida em caso de incidentes.
Causou comoção na Ucrânia e na Polônia o documentário da “BBC” mostrando torcedores de ambos os países dando saudações nazistas, fazendo sons de macacos e exibindo comportamento antissemita nas partidas. Ele também mostrou fãs em Kharkiv, Ucrânia --uma das cidades-sede da Eurocopa 2012-- atacando um grupo de estudantes asiáticos.
Sol Campbell, um ex-capitão da Inglaterra, pediu aos torcedores que evitem o torneio “porque vocês podem terminar voltando em um caixão”.
Autoridades na Polônia e na Ucrânia chamaram o documentário e os comentários de Campbell de insultantes e injustos, dizendo que o mau comportamento de um pequeno número de torcedores ocorre em todos os países europeus e assegurando que os visitantes estariam seguros durante a Eurocopa 2012.
Oleh Voloshyn, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores ucraniano, acusou o programa da “BBC” de xenofobia, segundo a agência de notícias “The Associated Press”, dizendo que os símbolos nazistas podem ser vistos em “qualquer partida na Inglaterra, então isso significa que os torcedores não devem ir a Londres para as Olimpíadas?”
O futebol inglês foi sacudido por dois incidentes raciais proeminentes durante o recém-concluído campeonato inglês. Terry, que joga pelo Chelsea, será julgado em julho por supostamente ter feito um insulto racial durante uma partida em outubro. Ele nega a acusação. Mas Terry é aparentemente a primeira pessoa a ser processada por comentários feitos em campo.
Luis Suarez, um atacante uruguaio que joga pelo Liverpool, foi suspenso por oito jogos por fazer comentários abusivos contra Patrice Evra, um zagueiro francês negro que joga pelo Manchester United.
Em uma audiência parlamentar em meados de maio, o presidente do sindicato dos jogadores de futebol da Inglaterra disse que os jogadores negros temem “uma torrente de abusos” caso se queixem de racismo após os incidentes de Terry e Suarez.
Gordon Taylor, o presidente do sindicato, disse que sente que “o sentimento entre os jogadores negros jovens ainda é ‘Hmm, eu poderia prestar uma queixa, mas...’”
A diferença com o racismo no futebol no Leste Europeu é uma questão de escala, disse lorde Herman Ouseley, presidente da organização antidiscriminação chamado Kick It Out, com sede em Londres. “Nesses países, eles tendem a usar a desculpa de que há pouca familiaridade com negros e asiáticos, um temor do desconhecido”, disse Ouseley. “Pode ser o caso, mas é inaceitável. Se as pessoas querem ir [à Eurocopa 2012], elas devem ser alertadas sobre o que podem esperar.”
Tradutor: George El Khouri Andolfato

POLÔNIA

Apesar do avanço econômico do país, alguns poloneses vão ficando para trás
Stefan Kaiser - Der Spiegel
A Polônia, um dos países que vão receber o Campeonato Europeu de Futebol, vem prosperando graças a um rigoroso programa de modernização. Mas nem todos estão se beneficiando do sucesso econômico. Com os aluguéis subindo e os idosos reclamando de aposentadorias menores, o ressentimento cresce.
Apesar das centenas de rugas em seu rosto, Barbara Przybyz não parece uma mulher pobre. Com 83 anos, ela está com o cabelo arrumado, uma blusa cor de lavanda e uma bolsa preta pendurada no braço. Ela explica que foi funcionária de um grande banco em Wroclaw, no oeste da Polônia. Ela não tem muito em sua velhice. Agora recebe uma aposentadoria de $ 1.000 zlotys (em torno de R$ 600).
“Eu não sobreviveria sem o apoio financeiro da minha filha”, diz ela.
É um dia quente de maio, e Przybyz fez a viagem de Wroclaw para Varsóvia de ônibus para protestar em frente ao Parlamento. A viagem foi organizada pelo Solidarnosc --ou Solidariedade. A organização de trabalhadores lendária que promoveu a queda do regime comunista reuniu algumas centenas de pessoas de toda a Polônia para o protesto. Elas estavam se manifestando contra um projeto de reforma da aposentadoria, que a câmara baixa do parlamento, a Sejm, em breve votará.
O governo do primeiro-ministro Donald Tusk quer aumentar a idade de aposentadoria --que hoje é de 65 anos para homens e de 60 anos para mulheres-- para 67. A medida faz parte de um programa de modernização econômica desenvolvido há anos pelos líderes liberais do país e que conquistou elogios internacionais ao país.
A Polônia atravessou a crise financeira em melhor forma do que qualquer outro país na Europa. A economia vem crescendo e produzindo uma classe média razoavelmente próspera. O Campeonato Europeu de Futebol, que vai começar em Varsóvia no dia 8 de junho, dará ao país mais um impulso.
Mas nem todos vem usufruindo do milagre econômico. Muitos saíram perdendo --inclusive os que são dependentes do Estado, como idosos e enfermeiras, cujos salários não acompanharam o crescimento econômico.
A Polônia está se tornando cada vez mais ocidentalizada, especialmente nas grandes cidades, e está ficando mais rica. Ainda assim, há um vão entre as pessoas que se beneficiam da modernização e as que estão ficando de fora. “O segmento da população que está ficando para trás está crescendo”, diz Cornelius Ochmann, especialista em Polônia do Bertelsmann Stiftung.
Como resultado, atualmente o Solidarnosc não combate mais o comunismo e sim os efeitos colaterais do capitalismo.
"Deus, Honra, Nação"
Barbara Przybyz diz que entrou para o movimento do Solidariedade em 1980, logo após sua criação. “Esperava que seria possível expulsar os comunistas e levar uma vida digna”, diz ela. Em vez disso, em sua opinião, o atual regime econômico liberal é como o comunista: despreza as pessoas comuns.
Ainda restam muitas diferenças entre o movimento do Solidarnosc e os similares europeus. Muitos membros dos sindicato polonês são eleitores conservadores. No comício em frente ao Parlamento, muitos manifestantes pararam para rezar. Um homem carregava uma cruz de madeira com a imagem do falecido papa polonês, João Paulo 2º. Nela, as palavras: “Deus, Honra, Nação”. O sindicato dos metalúrgicos alemão, IG Metall, consideraria tal gesto fútil.
“O papa nos mostra o caminho”, diz outro homem, que acredita que a Polônia precisa recuperar os valores tradicionais, como a honestidade, que ele acredita que foram perdidos na nova Polônia. O homem não quis ser identificado, mas revela que trabalha em uma fábrica em Wroclaw que produz refrigeradores para uma empresa norte-americana. “Tenho que esperar outros dois anos para poder me aposentar”, diz ele. Depois, deve receber uma aposentadoria de 800 zlotys por mês. “Não vejo por que eu tenho que receber tão pouco só porque os comunistas arruinaram a economia”, diz ele, fazendo um gesto no ar com as mãos. Ele está usando um boné bege e um colete branco do Solidariedade sobre sua jaqueta.
E, para piorar as coisas, diz ele, o governo liberal agora quer que seus filhos trabalhem mais tempo --para que, algum dia, possam receber uma aposentadoria reduzida como a dele. “As pessoas comuns são as perdedoras”, diz ele. “A liberalização da política deixou-as em pior situação”.
Luta pelos direitos dos inquilinos
A revolta é maior entre os que se consideram deixados para trás --e há muitos deles. O índice de desemprego caiu durante o boom econômico dos últimos anos, para 10%, mas ainda é comparativamente alto.
De acordo com os números mais recentes do Eurostat, que fornece estatísticas em nome da Comissão Europeia, em 2010, mais de 17% dos poloneses corriam o risco de cair na pobreza. Na vizinha República Tcheca, enquanto isso, esse número era de 9%.
O vão social é particularmente notável no bairro de Warsaw, em Praga. Por muito tempo, a modernização esqueceu esta parte da cidade, que fica próxima ao novo estádio de futebol. Até três anos atrás, as pessoas mais pobres podiam morar ali de forma barata, em casas depredadas. “Em 2009, houve um aumento muito grande dos alugueis”, diz Jakub Gawlikowski, de um grupo local que defende os direitos dos inquilinos. “Subitamente, os apartamentos ficaram de 200% a 300% mais caros. Muitos dos moradores mais antigos não puderam pagar e foram despejados."
Na época, Gawlikowski --e outros em sua comunidade-- fundou o comitê dos inquilinos. Eles queriam fazer alguma coisa diante daquela injustiça. Agora, eles organizam atos de resistência durante os despejos forçados e aconselham os moradores desalojados.
Sua sede é uma pequena sala no porão de um prédio dilapidado. O reboco está caindo da fachada do prédio. Dentro da sala, há dois sofás rasgados, uma poltrona florida, uma mesa de madeira e duas cadeiras. Os cartazes na parede trazem retratos de pessoas com os pulsos levantados aos céus e duas fotografias de uma mulher. “Era uma moradora”, diz Gawlikowski. “Ela foi a última na casa e resistiu quando os novos proprietários tentaram retirá-la”. No ano passado, o corpo queimado dela foi encontrado na floresta. As autoridades disseram que foi suicídio, mas Gawlikowski e seus companheiros não acreditaram
Gawlikowski, jovem com cabelos castanhos cacheados e um casaco de capuz, está sentado em um dos dois sofás na sede minúscula. Ao lado dele está Marek Jasinki, outro membro do comitê. Juntos, eles aconselham muitos inquilinos desesperados, ameaçados de despejo. “O número continua crescendo”, diz Jasiski. Atualmente, eles recebem cerca de 200 pessoas por mês, pedindo ajuda.
Um forte contraste
Em breve, poderá haver mais. O governo está planejando uma nova lei que tornará mais fácil retirar inquilinos à força de prédios que eram do Estado, uma vez transferidos para seus proprietários originais.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Estado polonês desapropriou muitos imóveis e instalou moradias comunitárias em seu lugar. Por anos, muitos dos proprietários originais vinham pedindo seus imóveis de volta. A política da cidade de Varsóvia é transferi-los aos donos originais assim como a investidores privados. “Se o novo proprietário aumentar o aluguel, os inquilinos antigos vão ficar sem teto”, diz Jasinki. Ele diz que a cidade só oferece outro apartamento aos mais pobres, e o resto tem que considerar se deve ficar. Uma razão, diz ele, é que a prefeitura não fornece habitações sociais há anos. “A ideia de habitação social foi pervertida”, diz, irritadamente.
Aqui em Praga, os conflitos gerados pela mudança social do país já são aparentes. Entre os prédios velhos e dilapidados, novos apartamentos estão surgindo para a classe média abastada. Enquanto isso, exatamente na frente do prédio depredado do comitê dos inquilinos, um palácio de vidro está sendo erguido. O prédio será a sede de um jornal empresarial chamado “Puls Biznesu” --ou “o pulso dos negócios”.
Tradutor: Deborah Weinberg

DÓRICAS

Efeito colateral
DORA KRAMER - O Estado de S.Paulo
Mesmo entre os inicialmente mais entusiasmados no PT com o plano do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, já começa a subir às gargantas o gosto amargo do arrependimento e a tomar conta dos espíritos a certeza de que amigo foi quem avisou.
O PMDB alertou, os senadores petistas Delcídio Amaral e Jorge Viana ponderaram: uma comissão parlamentar de inquérito não é arma que se manipule impunemente nem instrumento de maioria, muito menos de governo bem avaliado sem grandes problemas políticos no horizonte, apesar do acúmulo de contenciosos a serem resolvidos na base de sustentação.
Em vez de dar ouvidos aos prudentes, Lula deu corda e o PT embarcou numa aventura que por ora tem rendido mais possibilidades de malefícios que a produção de benefícios ao partido.
Na CPMI criada com objetivo primeiro implícito e depois tornado explícito de "desmascarar" os autores "da farsa do mensalão", o inesperado vem proporcionando reiteradas surpresas ao partido.
Nada tem saído de acordo com o roteiro original.
A previsão era desqualificar o trabalho investigativo da imprensa (revista Veja em particular), embaraçar o Supremo Tribunal Federal à proximidade do julgamento do processo qualificado como farsesco, levar ao patíbulo o procurador-geral da República, que em suas alegações finais acrescentou veemência à denúncia feita pelo antecessor.
Pretendia-se também potencializar a repercussão do envolvimento do senador Demóstenes Torres com a máfia Cachoeira e promover um revide ao governador Marconi Perillo (GO) por ter tornado público o aviso dado ao então presidente Lula sobre a existência de um esquema de cooptação de parlamentares em troca de dinheiro.
A ideia era manter as investigações sobre os negócios da construtora Delta restritas a governos da Região Centro-Oeste de forma que a CPMI assumisse um caráter "periférico".
A "garantia" de sucesso seria a fidelidade dos aliados, cujos interesses avaliavam-se convergentes, e no limite, se tudo o mais desse errado, um acordo com a oposição a fim de que a soma dos fatores resultasse em zero.
E o que PT conseguiu até agora? Da meta, só a convocação do governador de Goiás, mas ao preço de ver um governador do partido (Agnelo Queiroz, do DF) também chamado à CPMI para dar explicações.
O procurador saiu do foco por força do impedimento legal de conjugar o papel de testemunha à função de investigador. A imprensa deixou de ser alvo quando os delegados responsáveis pelos inquéritos que originaram a comissão atestaram a natureza estritamente profissional das conversas entre a Veja e Carlos Augusto Ramos, o Cachoeira.
O intuito de constranger o Judiciário, se de um lado feriu a imagem do Supremo, de outro levou os magistrados a se manifestarem em defesa da máxima celeridade possível ao julgamento do mensalão.
As parcerias não se mostraram firmes como o pretendido - ao contrário, movimentaram-se ao ritmo de cada um por si conforme as circunstâncias - e acabou sendo requerida a quebra dos sigilos da Delta em âmbito nacional.
Resultado: está aberto o espaço para a entrada do governo federal na dança, uma vez que a Delta é a principal empreiteira das obras do PAC, e em tese criadas as condições para que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, maior contratante regional da empresa, venha a ser chamado caso a documentação revele favorecimentos indevidos à construtora comandada pelo amigo Fernando Cavendish até a eclosão do escândalo.
Na relação de perdas por enquanto sem ganhos, podem-se incluir ainda dois desgastes: a explicitação da aliança com Fernando Collor e o flagrante da mensagem enviada pelo deputado Cândido Vaccarezza ao governador Cabral, sugerindo a oferta (na realidade, sem lastro) de salvaguardas.
Um passivo considerável a ser administrado pelo PT na tentativa de recomposição da maioria, cujo saldo para o partido por enquanto é negativo. Não obstante, por isso mesmo, possa vir a ser extremamente positivo para aquilo que no papel se propôs a fazer a CPMI.

ELIÂNICAS

Abaixo o voto secreto
Eliane Catanhêde - FSP
BRASÍLIA - Lula deu a largada na eleição de São Paulo no programa do Ratinho, a CPI saiu da tumba com a quebra do acordão PT-PSDB e aumenta a pressão para o fim do voto secreto já no julgamento de Demóstenes Torres em plenário.
Na eleição, começam o resgate de Fernando Haddad, dos irreais 3% para os tradicionais 30% do PT em São Paulo, e o trajeto para o segundo turno entre PT e PSDB. Chalita fortalece o PMDB na negociação.
Na CPI, Marconi Perillo afunda e respinga no PSDB em ano eleitoral. A cúpula e os candidatos não devem estar nada felizes com os voos do tucano ao Cachoeira.
Mas as maiores emoções ficam por conta da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do titanic Delta, grande contratante do PAC e a maior recebedora de recursos do governo federal desde 2007 -além de queridinha de nove entre dez governos estaduais. Vem coisa.
E, enfim, é tempo de acabar com essa excrescência do voto secreto para a cassação de mandatos. Eu, tu, ele e todos nós eleitores temos o direito de saber como nossos eleitos vão votar no caso Demóstenes, ainda mais sob os ventos da lei de acesso às informações públicas.
As evidências das ligações do ainda senador com Cachoeira são flagrantes e o destino dele no Conselho de Ética parece selado. O problema é o plenário, com o voto secreto e suas excelências votando corporativamente. Afinal, quantos Demóstenes e Cachoeiras há entre eles?
O projeto que enterra o voto secreto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça em junho de 2010 e depende de um único fator para ser votado: vontade.
Pela pressão, quebrou-se o acordão PT-PSDB na CPI. Pela pressão, o Senado será compelido a votar o projeto e evitar o vexame da Câmara, que absolveu a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), apesar de provas, fotos, fitas e ficha corrida familiar.
A hora é agora.

GOVERNO PETISTA TENTA CENSURAR TV

Dilma quer acabar com aluguel de horário na TV
Projeto fecha brechas da lei que fizeram surgir 'mercado paralelo' no setor
Governo sinaliza para o avanço da TV interativa e abre espaço para emissoras cobrarem pela conexão à internet
JULIO WIZIACK - FSP
O governo federal prepara um pacote de medidas para fechar brechas da legislação de rádio e TV que permitiram o surgimento de um "mercado paralelo" ligado às concessões no país.
A Folha teve acesso à última versão da minuta do decreto, que foi batizado pelo setor de "novo marco regulatório da radiodifusão".
Uma das mudanças de maior impacto é a proibição expressa do aluguel de canais e de horários da programação de rádio e TV.
A lei atual não proíbe a prática de forma explícita, o que permitiu o aumento de programas religiosos e exclusivamente comerciais, principais clientes desses horários.
No fim de 2011, a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R. Soares, por exemplo, alugava duas horas e cinco minutos semanais na Bandeirantes.
Na Rede TV!, o apóstolo Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, comprava cerca de dez horas e meia semanais. A rede de farmácias Ultrafarma ocupava quatro horas e meia com propagandas.
Na TV Gazeta, o Polishop detinha dez horas semanais para anunciar seus produtos.
Os dados são do mais recente levantamento do Intervozes, organização que monitora a programação no país. Segundo a entidade, poucas são as emissoras que não entraram nesse negócio. Globo e SBT estão entre elas.
A Record é um caso isolado porque seu fundador, Edir Macedo, também é o responsável pela Igreja Universal do Reino de Deus.
Segundo o Intervozes, a Record diz não ceder seu espaço a terceiros, mas não explica se paga pelos programas religiosos veiculados, uma forma de se enquadrar à legislação. Na TV Gazeta, são 26 horas semanais destinadas aos cultos da igreja.
INVERSÃO
O Ministério das Comunicações não quis comentar as mudanças e informou que o "novo marco" ainda será colocado em consulta pública.
Caso o decreto seja sancionado como está, obrigará as emissoras a comprar os programas produzidos por terceiros -ao invés de receber pelo aluguel, como hoje.
Consultadas, as principais redes não se pronunciaram.
Apesar dos avanços, o governo não define os mecanismos que serão criados para fiscalizar a prática de eventuais irregularidades.
CONTRAPARTIDA
Ao acabar com o "mercado paralelo", o governo cortará uma importante fonte de receita, mas, em troca, permitirá que as emissoras prestem serviços de dados -atividade restrita às empresas de telecomunicações.
Hoje, as emissoras só podem fazer caixa com a venda de espaço publicitário -que pode ocupar, no máximo, 25% da programação.
Ao permitir a comercialização do serviço de dados, o governo sinaliza para a expansão da TV digital no país e do sistema de interatividade que conecta a TV à internet.
Esse serviço permitirá ao telespectador comprar produtos anunciados durante a programação clicando diretamente na TV. É essa conexão que poderá ser cobrada.
Política e meios de comunicação
Fernando Henrique Cardoso - O Estado de S.Paulo
Escrevo esta crônica às vésperas de partir para o Japão e a China, de onde só regressarei depois de publicado o texto, daqui a duas semanas. É sempre arriscado, nessas condições, falar sobre a agenda política. Será mesmo? O marasmo é tão grande que possivelmente, ao voltar e reler os jornais, encontrarei os mesmos temas: a CPI, a corrupção com suas teias enredadas, os candidatos às prefeituras já conhecidos e suas previsíveis alianças, o PIB que cresce pouco, os juros que finalmente começam a cair, a inadimplência dos devedores, as demandas por reformas tributárias, as soluções caso a caso para diminuir os estoques das empresas (principalmente automobilísticas), e assim por diante. Dá até preguiça passar os olhos pelas colunas e notícias da mídia, sem falar das TVs que repetem tudo isso com sabor de press release, emitido seja pelo governo, seja por empresas.
Ainda recentemente, um sociólogo mexicano, falando na Fundação iFHC e se referindo a outro aspecto da mesma questão, disse que o resultado das eleições em seu país independe das campanhas eleitorais. Isso porque, quando a propaganda partidária tem vez na mídia, a "opinião" já está enraizada nos eleitores, pois nos anos anteriores se elegeram os heróis e os vilões cujas virtudes e defeitos foram repetidos todo o tempo, sem contestação crítica. Será muito diferente entre nós? É dessa maneira que se exerce nas modernas sociedades de massa o controle ideológico da opinião, seja pelos governos, seja pelos grupos dominantes na sociedade, econômicos ou políticos.
A sensação do já visto que alimenta a modorra e leva ao tédio e ao descaso com a política é, entretanto, enganadora e perigosa. A despeito de tudo, nem só de manipulação da opinião vive uma sociedade. De repente, quando menos se espera, não são as "forças do mercado" nem o "pensamento único" (que em nosso caso, menos do que neoliberal, é de esquerda desenvolvimentista-autoritária) que comandam a vontade popular. É o que vemos agora na Grécia e na França, onde a vitória de Hollande, a despeito do irrealismo de algumas de suas promessas, ecoa até na alma de Obama e o rígido dogmatismo tedesco, fantasiado de racionalidade de mercado, se vê cerceado por aspirações de outra natureza. Convém, portanto, não sobre-estimar a força das verdades preestabelecidas. Mormente em nossos dias, quando a internet permite que um sem-número de opiniões divergentes circule sem que os leitores ou ouvintes da grande mídia se deem conta.
Não digo isso para aceitar o conformismo vigente em muitos meios de comunicação, até porque, para fazer frente a ele, o desconcerto causado pela variabilidade de opiniões das mídias sociais, e mesmo pela mistura entre lixo eletrônico e real opinião, é insuficiente. Digo-o para alertar: a despeito de parecer que a política, principalmente a partidária, é mais enganação do que afirmação de interesses e valores que podem enfrentar a luz do sol, no final das contas o que decide a nossa vida em sociedade é a política mesmo. Portanto, sensaborona ou não, repetitiva ou não, controlada pelos que mandam ou não, dependemos dela. Nos dias que correm, sobretudo nos regimes democráticos, não há política sem comunicação; logo, é melhor tomar coragem para ler e ouvir tudo o que se diz, mesmo quando partindo de fontes suspeitas.
A precondição para que haja alternativas ao que aí está é manter a liberdade de expressão, mesmo que haja distorções. Isso não exclui uma luta constante contra estas, não para censurá-las, mas para confrontá-las com outras versões. Afastando por inaceitável qualquer tentativa de "controle social da mídia", o acesso de opiniões divergentes aos meios de comunicação poderia criar um ambiente mais favorável à veracidade das informações.
Por exemplo: será que é democrático deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos? E que dizer do tom invariavelmente otimista das declarações sobre a superação da crise financeira global oriundas de setores empresariais interessados ou, em nosso caso, da marcha contínua para o êxito econômico reiterada pelos governos? O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único impera sem contraponto.
A autenticidade das informações escapa das deformações advindas da influência das forças estatais (inclusive do setor produtivo estatal) e das empresas privadas precisamente pela voz crítica dos setores da mídia independente, por meio de seus repórteres, editorialistas e mesmo dos proprietários que têm coragem de expor opiniões. Não por acaso, é contra estes que os donos do poder político e os partidos que os sustentam se movem: denunciam que é a imprensa que faz o papel da oposição. Até certo ponto isso é verdade. Mais por deficiência dos partidos de oposição, cujas vozes se perdem nos corredores dos Parlamentos, do que por desejo de protagonismo da mídia crítica. Nos países europeus ou nos Estados Unidos, por mais que haja partidarismo nos meios de comunicação ou que por lá prevaleça o mesmismo das notícias que refletem o statu quo, sempre há espaço para o outro lado, para o contraponto. Mal termina de falar o primeiro-ministro da Inglaterra e já a voz da oposição, como tal, é transmitida. O mesmo ocorre quando o presidente dos Estados Unidos faz sua apresentação anual ao Congresso.
Obviamente, não basta haver uma mudança na oferta de espaço pela mídia, é preciso que haja vozes de oposição com peso suficiente para serem ouvidas e se fazerem respeitar. Sem esquecer que nas democracias a voz que pesa politicamente é a de quem busca o voto para se tornar poder.
SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

sábado, 2 de junho de 2012

WAGNER - DIE WALKÜRE (HOJOTOHO! HOJOTOHO! HEIAHA! HEIAHA!)

QUADRILHA REUNIDA NA BOLÍVIA DECIDE SOBRE A VIDA DOS JORNALISTAS NA AMÉRICA LATRINA


Com Chavez e Correa
Merval Pereira - O Globo
Depois de ter bloqueado na UNESCO o Plano de Ação das Nações Unidas para proteção de jornalistas e contra a impunidade nos crimes contra esses profisionais, em companhia de Índia e Paquistão, o Brasil tende a apoiar na assembleia da Organização dos Estados Americanos (OEA) que começa amanhã na Bolívia um plano urdido por Equador e Venezuela para tirar a autonomia da Relatoria de Liberdade de Expressão daquele organismo, afetando grandemente o sistema interamericano de direitos humanos que, segundo os especialistas, é exemplo invejado por outras regiões do mundo.
Tudo indica que a presidente Dilma ficou furiosa com a interferência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) a favor dos indígenas, exigindo através de medida cautelar a interrupção da construção da hidrelétrica de Belomonte, e estaria dando o troco agora, ao lado de Chavez e Corrêa nesta manobra.
A Relatoria Especial foi criada para promover a consciência pelo pleno respeito à liberdade de expressão e informação no hemisfério, para o fortalecimento do sistema democrático.
Segundo JoséMiguel Vivanco, da Human Rights Watch, ela agora corre o risco de perder sua independência e funcionalidade com recomendações apresentadas nos últimos meses por países como Equador, Venezuela e Nicarágua,que lideram este processo, motivados pelos pronunciamentos da CIDH contra agressões aos direitos humanos.
O governo brasileiro apoia o movimento, pois considerou as solicitações da OEA com relação a Belomonte "precipitadas e injustificáveis". A Relatoria Especial de Direitos Humanos é a única do CIDH que faz relatórios separados sobre temas específicos, e os especialistas em direitos humanos afirmam que com o recurso às medidas cautelares, centenas de vidas foram protegidas de grupos violentos e dos próprios governos.
Vivanco ressalta que através do sistema de informes sobre países, a Relatoria Especial denunciou abusos cometidos na Venezuela contra a liberdade de expressão, assim como a falta de independência judicial e os graves problemas de violência no país.
A Relatoria Especial, segundo o representante da Human Rights Watch, tem apoiado processos a favor da liberdade de expressão em vários países da região, redigido manifestos contra as graves violações a esse direito, assessorado jornalistas e organizações da sociedade civil, lutado ao lado de jornalistas condenados no cumprimento da profissão e defendido pessoas cujo único delito foi manifestar seu pensamento crítico.
Esses mecanismosde atuação autônoma é que alguns países querem abolir para, na definição de Vivanco, “ter um sistema interamericano à imagem e semelhança do que fizeram em seus próprios países”.
Com o apoio desses países, incomodados com a supervisão internacional, o Conselho Permanente da OEA aprovou uma série de “recomendações” à CIDH, a maioria das quais se destina a debilitar o mecanismo de medidas cautelares, a capacidade da Comissão de fazer informes especiais de países, como os que já foram feitos sobre Venezuela, Colômbia, Honduras ou Cuba, e principalmente a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão.
Há, por exemplo,a recomendação de que o investimento em todas as relatorias da CIDH seja o mesmo, o que prejudicaria a atuação da Relatoria para a Liberdade de Expressão,que recebe mais do triplo dos recursos de todas as outras devido a financiamento externo, que seria proibido.
Além disso, as ugestão de implantação de um código de conduta na prática impedirá apublicação de seus tradicionais comunicados, muitos com críticas às atitudes de países como o Equador e a Venezuela contra a livre expressão.
As alterações preveem também que o informe anual da relatoria seja breve e sobre toda a região, e não separado por país.
Por enquanto são apenas “recomendações”, e países como os Estados Unidos, Chile, Canadá, México e Costa Rica defendem a tese de que a CIDH é autônoma e independente para decidir se as adota ou não.
O Equador, no entanto, propôs que se levasse o assunto para a Assembleia Geral da OEA que começa amanhã em Cochabamba, na Bolívia, e apresentou um projeto de resolução segundo o qual a Assembleia assume como suas as recomendações e exige que a CIDH as cumpra.
O presidente do Equador, Rafael Correa, considera que OEA “está totalmente dominada pela influência dos Estados Unidos e serve aos interesses da política exterior desse país”.
E classificou de “parcial” a atuação do CIDH, que é presidida pelos Estados Unidos. Para Correa,“o poder midiático na América Latina supera o poder do Estado e muitas vezes governos progressistas são perseguidos por este poder”.
A Assembleia se reunirá a partir de amanhã para analisar três alternativas: se as recomendações devem ser adotadas de maneira obrigatória, como quer o Equador com o apoio de vários países, inclusive o Brasil; se a própria Assembleia Geral assume a tarefa de reformar as normas que regulam a Comissão de Direitos Humanos, como quer o secretário-geral da OEA José Miguel Insulza, ou se as reformas da CIDH devem ser estudadas com a participação de vários organismos representativos de diversos setores, a fim de que, com a autonomia que tem, decida se é realmente preciso fazer alguma mudança nos atuais métodos.
Segundo José Miguel Vivanco, da Human Rights Watch, a única chance de salvar o CIDH e sua Relatoria Especial do claro processo de enfraquecimento a que está sendo submetida é que o grupo de países que já se manifestou pela autonomia da Comissão reitere sua posição contra a proposta do Equador.
O Brasil não está entre esses países.