segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Fatalismo do islã é desculpa para negligência humana em tragédias
Mustafa Akyol - TINYT
Guindaste cai na Mesquita de Meca e mata dezenas de pessoas
11.set.2015 - Um guindaste caiu nesta sexta-feira (11) na Grande Mesquita de Meca, na Arábia Saudita. Pelo menos 107 pessoas morreram. Milhares de pessoas de várias partes do mundo se dirigem para a cidade sagrada na Arábia Saudita, a poucos dias para o começo da peregrinação anual, o Hajj - AFP
No início deste mês, na sexta-feira sagrada dos muçulmanos, um acidente horrível aconteceu em Meca, próximo ao local mais sagrado para o Islã – a Caaba. Uma enorme guindaste caiu sobre a mesquita que fica em torno do santuário em forma de cubo, matando 118 peregrinos e ferindo quase 400.
Esta tragédia foi a queda de guindaste mais letal da história moderna, e, portanto, exige uma investigação. No entanto, num país altamente religioso, os técnicos que operam o guindaste, da construtora Saudi BinLadin Group, tiveram uma saída mais fácil. Um deles falou à imprensa e disse simplesmente: "o que aconteceu está além do poder dos seres humanos. Foi um ato de Deus."
Felizmente, as autoridades sauditas não compraram esse argumento. O rei Salman bin Abdulaziz Al Saud suspendeu imediatamente o trabalho da construtora, ordenou uma investigação e ofereceu indenização às famílias das vítimas. Os investigadores logo concluíram que a empresa foi responsável pelo acidente porque não "respeitou as regras de segurança" e violou as instruções de uso dos fabricantes.
Embora esta investigação factual seja um passo adiante, ainda devemos nos perguntar por que os técnicos se absolveram da responsabilidade em público, e provavelmente em sua própria consciência, evocando o "destino".
Esta não é a primeira vez que esta desculpa metafísica surgiu em tais circunstâncias. Acidentes piores já aconteceram perto da Caaba, durante a temporada movimentada de peregrinação, chamada de Hajj, e a culpa foi atribuída automaticamente ao divino. Em 1990, 1.426 peregrinos morreram em um tumulto causado principalmente pela falta de ventilação. No entanto, o rei na época, Fahd bin Abdulaziz Al Saud, argumentou: "foi a vontade de Deus, que está acima de tudo". "Foi o destino", acrescentou.
Este não é um problema exclusivo da Arábia Saudita; é um problema muçulmano em geral. O fatalismo é constantemente usado como uma desculpa para a negligência e os erros humanos. Até na Turquia, que é muito mais moderna e secular do que a Arábia Saudita, o "destino" tem sido invocado com frequência por várias autoridades, inclusive pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, para explicar acidentes colossais em linhas de trem, minas de carvão e canteiros de obras.
Em quase todos os casos, no entanto, um exame mais minucioso revelou que a causa foram as normas precárias de segurança do trabalho da Turquia e a demora do governo em melhorá-las. Só em fevereiro de 2015, depois de centenas de acidentes trágicos que mataram mais de 13 mil trabalhadores em 12 anos, a Turquia passou a ser signatária das convenções de segurança do trabalho da Organização Internacional do Trabalho, elaboradas mais de duas décadas atrás e adotadas há muito tempo por muitos outras nações.
Acidentes, é claro, acontecem em todos os lugares. No entanto, no mundo muçulmano, o fatalismo muitas vezes serve para encobrir medidas de segurança inadequadas ou patrões gananciosos que não estão dispostos a pagar por elas. Foi por isso que o mais alto clérigo da Turquia, Mehmet Görmez, um teólogo erudito, sentiu necessidade de alertar seus compatriotas turcos de que "produzir desculpas envolvendo o 'poder divino' para a culpa e a responsabilidade humanas é errado", depois que um incêndio devido a condições precárias numa mina matou 301 trabalhadores em 2014.
"As leis da natureza são as leis de Deus. Deus nos deu a capacidade de compreender essas leis e pediu para agirmos de acordo com elas", declarou Görmez. "O que é adequado para a vontade de Deus é tomar as precauções necessárias contra as causas físicas dos desastres."
Esta declaração importante está inequivocamente baseada em certas escolas medievais do pensamento islâmico, como a Maturidis e a Mutazilites, que acreditavam que os seres humanos possuíam livre-arbítrio e podiam ser "os criadores de seus próprios atos". Elas também acreditavam que os seres humanos podiam usar a razão para interpretar as Escrituras e estabelecer verdades morais.
Mas essas escolas muçulmanas racionalistas tinham rivais poderosos, como os asharitas e os hanbalis, ainda mais rígidos, precursores dos salafistas de hoje. Estes dogmáticos reduziram a importância do livre-arbítrio humano, enfatizando a predestinação de Deus, e desacreditando a razão humana. Eles também negaram a existência de leis naturais, assumindo que a causalidade é uma violação à onipotência de Deus.
Hoje a maioria dos muçulmanos não têm muito conhecimento sobre esses debates antigos, mas vivem dentro de códigos culturais em grande parte definidos pelos dogmáticos, que ganharam vantagem na guerra de ideias no início do islã. Nestes códigos, o livre-arbítrio humano é facilmente sacrificado em prol do fatalismo, a ciência e a razão são menosprezadas, e a filosofia é desaprovada.
Consequentemente, "a vontade de Deus" se torna uma desculpa fácil para a preguiça intelectual, a falta de planejamento e a irresponsabilidade. Muçulmanos em posições de poder muitas vezes se referem ao "destino" para explicar seus fracassos, embora nunca hesitem em se orgulhar de seus sucessos.
Acidentes colossais em Meca e em outros lugares devem ser vistos como sinais de alarme para os muçulmanos purgarem de nossas sociedades essa mentalidade problemática e buscarem o grande renascimento intelectual de que precisamos. Usar o dinheiro do petróleo para importar tecnologia ocidental (ou do Extremo Oriente) não é uma solução. O importante é desenvolvermos a capacidade de usar essa tecnologia com proficiência, com todas as precauções necessárias – e talvez um dia até mesmo inventarmos essa tecnologia.
Ironicamente, houve uma época em que os muçulmanos eram os maiores inventores do mundo, com grandes matemáticos como Al Khwarizmi (cujo nome deu origem ao termo "algoritmo"), médicos como Avicena (o pai da medicina moderna), ou filósofos como Averroes (que introduziu a Europa a Aristóteles e à teologia racional). Orgulharmo-nos deles hoje, como às vezes fazemos, já é um começo.
Mas a verdadeira questão é: por que as ideias desses pensadores tiveram um impacto maior sobre a cultura ocidental do que sobre o pensamento islâmico? E por que eles têm sido marginalizados ou rotulados de heréticos em suas terras de origem? Essas heresias do passado podem ser exatamente do que precisamos para abrir nossas mentes hoje.
Tradução: Eloise De Vylder

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