segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Menos próspera, mais generosa: Grécia deu melhor resposta à crise de imigração
Roger Cohen - TNYT
Iakovos Hatzistavrou/AFP
23.set.2015 - Voluntária consola um refugiado na praia de Sykamia, na ilha grega de Lesbos, depois de ele atravessar o mar Egeu
23.set.2015 - Voluntária consola um refugiado na praia de Sykamia, na ilha grega de Lesbos, depois de ele atravessar o mar Egeu
Eis um guia rápido para o mundo moderno: mais eficiência, menos humanidade. A tecnologia está principalmente a serviço da produtividade. Ações irracionais de benevolência não são seu forte. Elas não têm um algoritmo.
A Grécia me fez pensar em tudo o que as estatísticas não dizem. Nenhum país europeu tem sido tão maltratado nos últimos anos. Nenhum país europeu tem respondido com tanta humanidade, de forma constante, à crise dos refugiados.
Mais prosperidade equivale a menos generosidade. A distração dos dispositivos equivale à incapacidade de doar seu tempo. A modernidade promove as transações acima do relacionamento humano. As regras não são absolutas, mas são indicadores úteis.
Mais de 200 mil refugiados, principalmente da Síria, chegaram a uma Grécia à beira do colapso este ano. Quase metade deles desembarcou na ilha de Lesbos, que fica a menos de 10 km da Turquia. Eles entraram num país onde um quarto da população está desempregada. Eles se depararam com um Estado onde a renda per capita caiu quase 23% desde o início da crise, com um sistema bancário frágil e uma política instável. A Grécia poderia ser um exemplo clássico de uma nação com potencial para violência contra um fluxo gigantesco de estrangeiros.
Em geral, os refugiados têm sido bem recebidos. Houve confrontos, inclusive em Lesbos, mas quase nada do fanatismo miserável, dos cálculos mesquinhos, da petulância de jardim da infância e do egoísmo amnésico que emana dos países da União Europeia mais ao norte, particularmente a Hungria.
Durante várias horas, viajei por Lesbos com um motorista, Michalis Papagrigoriou, que se voluntariara para ajudar a transportar refugiados de Molyvos, no norte da ilha, para o porto de Mitilene, a cerca de 70 km de distância. Seu ônibus, normalmente usado para transportar turistas pálidos do norte da Europa em busca do sol do Mediterrâneo, tinha sido arrendado pelo Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) para ajudar os mais de 2.000 refugiados que chegam em botes infláveis todos os dias.
Papagrigoriou, assediado por pedidos para levar seu ônibus para cá e para lá, estava com um bom humor inabalável. A cada curva da estrada que serpenteava pelas colinas entre Kalloni, no meio da ilha, e Molyvos, ao norte, avistava-se refugiados: crianças, velhos, mulheres grávidas caminhando entre os bosques de pinheiros.
Eles levantavam os braços. Eles imploravam. Deitavam no chão encostados em mochilas. Garrafas de água descartadas traçavam seu caminho. Papagrigoriou, com horário marcado para pegar um ônibus cheio em Molyvos, não podia ajudar imediatamente, mas cada grupo fazia um monólogo apaixonado sobre a injustiça e a condição humana. No caminho de volta, embora cheio, ele burlaria as regras para espremer mais uma mulher e uma criança. Ele também concordaria em atender a um apelo de seu vilarejo, Mantamados, para buscar refugiados lá, embora isso significasse ter de trabalhar até tarde da noite.
Em Molyvos, refugiados estavam em fila à beira da estrada. Papagrigoriu era o penúltimo ônibus da noite. A grande esfera dourada do sol já estava a meio caminho de seu mergulho espetacular abaixo do horizonte. Funcionários do IRC explicavam como tentam impedir os refugiados de partir a pé para Mytilene, mas alguns são impacientes demais para esperar.
Pude conversar no ônibus com Hosein Taleb, um refugiado afegão. Ele estava na estrada há bastante tempo, quanto exatamente ele não sabia dizer. O pior tinha sido uma caminhada de vários dias sem comida do Irã até a Turquia. Ele parecia muito jovem. Eu perguntei quantos anos ele tinha. Ele não sabia. No Afeganistão, ele disse, é comum não haver registro de nascimento. "Acho que tenho cerca de 17 ou 18", disse. Para onde estava indo? "Quero um lugar seguro, não me importa onde, mas preferiria ir para a Inglaterra, porque estudo inglês."
Um dentista sírio de 26 anos de idade, de Damasco, que estava nos ouvindo, disse que tinha se casado havia duas semanas. Sua esposa estava dormindo, com a cabeça em seu ombro. "Esta é a nossa lua de mel", disse ele.
A noite tinha caído. Os grupos de refugiados a pé seguravam lanternas fracas. Muitos tinham parado, decididos a dormir à beira da estrada. Um jovem ficou na frente do ônibus até o último momento. Papagrigoriu, negociando lentamente com os ziguezagues da estrada, falou sobre como certas situações exigem que os seres humanos ajudem uns aos outros, que se danem outras considerações.
Um silêncio exausto envolveu o ônibus. Hosein e os outros afegãos desembarcaram num acampamento cercado por arame farpado. O acampamento transitório sírio é menos proibitivo; as autoridades gregas logo entregam um visto de permanência por seis meses. A maioria dos refugiados quer ir para o norte, para a Alemanha, onde acreditam que vão encontrar emprego.
Eles terão sorte se encontrarem a humanidade de Papagrigoriu. O mundo endurece em torno da tecnologia. A produtividade da generosidade não pode ser medida.
Perguntei a Alexis Papahelas, editor executivo do jornal grego Kathimerini, o que a Grécia poderia ensinar ao mundo: "essa dignidade e decência podem ser preservadas, mesmo nos tempos mais difíceis."
É uma lição importante e poderosa que Alexis Tsipras, reeleito como primeiro-ministro de esquerda da Grécia, deve levar adiante.
Tradução: Eloise De Vylder

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