Convidado pela oposição, procurador do Tribunal de Contas da União Júlio Marcelo de Oliveira afirmou que a presidente Dilma Rousseff cometeu crimes para vencer as eleições de 2014
Por Laryssa Borges - VEJA.com:
Na quinta sessão da comissão especial do
impeachment no Senado, o procurador do Ministério Público junto ao
Tribunal de Contas da União (TCU) Júlio Marcelo de Oliveira disse nesta
segunda-feira que o governo praticou uma verdadeira “contabilidade
destrutiva” ao maquiar contas públicas e omitir a situação de penúria do
Erário. Oliveira, responsável por pareceres técnicos do TCU sobre as
pedaladas fiscais, fez um histórico das práticas fiscais irregulares do
governo aos senadores e disse que o Executivo fraudou leis e cometeu
crimes para vencer as eleições de 2014. “O Brasil foi vítima de
estelionato eleitoral”, afirmou.
Mesmo depois da vitória nas urnas,
avaliou o procurador, o governo cometeu uma espécie de crime continuado,
rolando passivos e atrasando repasses a instituições financeiras de
forma a comprometer seriamente o erário. A liberação de crédito
suplementar sem aval do Congresso por meio de decretos não numerados e
atrasos no pagamento de subsídios do Plano Safra são os dois argumentos
utilizados pela Câmara dos Deputados para dar seguimento ao processo que
pode levar a presidente Dilma Rousseff a perder o cargo.
“O nome adequado deveria ser
contabilidade destrutiva, porque os efeitos que nós tivemos, na economia
brasileira, de destruição do ambiente econômico brasileiro, de
destruição da qualidade das contas públicas brasileiras levaram à perda
do grau de investimento, levaram a um crescimento explosivo da dívida,
levaram a um ambiente de desconfiança no futuro, em que empresários não
investem, investidores não se arriscam, pessoas físicas não consomem,
preferem guardar porque têm medo do amanhã, têm medo do desemprego.
Então, todo esse ambiente é resultado de práticas de contabilidade
destrutiva e de fraudes fiscais”, afirmou Júlio Marcelo.
Aos senadores, o procurador disse que
ainda que órgãos de controle, como o TCU, eventualmente emitam alertas
sobre irregularidades cometidas pelo governo, o Executivo não pode se
eximir de responsabilidade nas pedaladas fiscais. Se intervir a cada
episódio, disse, “o TCU vai se transformar na babá do governo federal”.
“A ausência de alerta não é justificativa para o descumprimento do
ordenamento jurídico brasileiro. Os órgãos de controle estão em
constante evolução. É obrigação do governo cumprir a legislação,
independentemente do que diz ou não diz o TCU”, criticou. Embora tenha
sido cobrado por senadores governistas de falta de alertas do TCU sobre
as pedaladas, Júlio Marcelo rebateu: “Uma falha do TCU não é
justificativa para falhas dessa magnitude do governo”.
Ele ainda citou a recente liminar
concedida pelo ministro Gilmar Mendes, que determinou a suspensão de
crédito extra de 100 milhões de reais para a presidência da República
gastar com publicidade, e alfinetou: “Há uma dificuldade da presidência e
dos órgãos do governo de entender as limitações ao seu poder de editar
medidas provisórias e créditos”.
O presidente do Instituto Internacional
de Estudos de Direito do Estado, Fábio Medina Osório, também declarou
que a presidente Dilma cometeu crime de responsabilidade e condenou a
estratégia da petista de utilizar o discurso de golpe, tanto no Brasil
quanto em países vizinhos, para tentar desqualificar a legitimidade do
processo de impeachment. “Esse discurso do golpe bradado lá atrás no
processo de impeachment de Fernando Collor hoje é trazido à baila. É um
crime de responsabilidade cometido para acobertar outro crime de
responsabilidade. Consiste crime de responsabilidade da presidente da
República ir ao cenário interna para dizer que há uma conspiração”,
disse.
Em sua manifestação na comissão do
impeachment, o procurador no TCU destacou a importância da
responsabilidade fiscal e disse que a legislação tem por objetivo conter
“práticas condenáveis” de governantes, em especial em anos eleitorais.
“A Lei de Responsabilidade Fiscal vem para disciplinar os governos,
especialmente em ano eleitoral. É de nossa história recente o uso de
práticas condenáveis de irresponsabilidade fiscal, em vários níveis de
governo, nos anos eleitorais, seja para que o governante pudesse criar
aquele ambiente de grandes realizações e euforia para eleger seu
sucessor, (…) seja para inviabilizar a gestão posterior”, comentou. No
caso específico da presidente Dilma Rousseff, Júlio Marcelo resumiu a
postura do governo como uma “fraude engendrada para fazer um gasto
público insustentável em ano eleitoral com o objetivo de vencer as
eleições”.
“São denúncias muito graves, abalaram
pilares da responsabilidade fiscal, que usurparam competências do
Congresso Nacional e deram ensejo à emissão de um parecer de rejeição
das contas de 2014. O que verificamos em 2015? A continuidade de algumas
dessas graves irregularidades. O governo entra o ano devendo o Banco do
Brasil e o BNDES e se mantém nessa irregularidade durante todo o
exercício de 2015″, disse.
O professor da Universidade de São Paulo
(USP) José Maurício Conti, especialista em Direito Econômico, também
foi ouvido nesta segunda-feira na comissão especial do impeachment e
disse não faltarem evidências de que a presidente Dilma cometeu crime de
responsabilidade. Ele centrou boa parte de sua argumentação na
ilegalidade da liberação de crédito suplementar em 2015 por meio de
decretos não aprovados pelo Congresso. Segundo ele, o governo já tinha
conhecimento de que as contas públicas estavam em situação de penúria e
somente meses depois alterou a meta fiscal, o que, de acordo com ele, é
irregular. Em dezembro de 2015, o Congresso aprovou a mudança da meta
fiscal, permitindo que o governo central fechasse as contas do ano com
déficit de 119,9 bilhões de reais. Em julho e agosto, porém, o governo
editou os decretos liberando recursos.
Conforme o professor, mesmo com a
alteração posterior da meta, o governo, para não violar a lei, deveria
considerar a situação fiscal no momento da edição dos decretos. “Isso
configura uma manobra que, inequivocamente, teve a clara função apenas
de tentar afastar formalmente a ilegalidade dos decretos, que, embora
editados sem observar os requisitos legais à época da sua publicação, ao
final do exercício, passaram a estar de acordo com as metas que foram
fixadas posteriormente, às vésperas do final do exercício”, afirmou
Conti.
“Essas condutas reprováveis praticadas
nos últimos anos não podem prevalecer. É preciso não deixar dúvidas de
que as normas de finanças públicas estão aí para serem cumpridas, e as
consequências de suas violações são graves. E esta é uma oportunidade
que não se pode perder para recuperar a credibilidade, segurança
jurídica e responsabilidade fiscal, sem as quais não é possível
governar”, resumiu.
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