Supremo avaliza rito
Merval Pereira - O Globo
A decisão de ontem do ministro Teori
Zavascki de recusar mais uma ação da Advocacia-Geral da União para
anular o processo devido a uma suposta “vingança” do então presidente da
Câmara, Eduardo Cunha, é exemplar nesse sentido.
O ministro José
Eduardo Cardozo pedia que, se não fosse anulado todo o processo, pelo
menos fossem considerados inválidos todos os atos de Cunha a partir de 3
de março, quando ele foi considerado réu pelo STF. O truque estava
exatamente aí, pois a comissão do impeachment, pela regras que o Supremo
definiu, foi eleita no dia 17 de março.
Tudo estaria anulado a
partir daí, com o processo tendo que recomeçar. O objetivo, que já havia
sido tentado anteriormente numa ADPF que não tinha essa intenção
explícita, mas poderia, segundo alguns juristas, levar a uma ação nessa
direção, depois se revelou resultado de uma verdadeira conspiração que
usou o presidente interino da Câmara, Waldyr Maranhão para anular a
sessão da Câmara, com o conhecimento da própria presidente Dilma.
Na
noite do domingo anterior, uma Hilux branca chegou às 23h30m ao Palácio
da Alvorada levando a bordo o Advogado-Geral da União José Eduardo
Cardozo, o deputado federal Silvio Costa, o governador do Maranhão
Flavio Dino e o próprio Maranhão, que no dia seguinte pela manhã
apresentaria sua espantosa decisão.
O ministro Teori Zavascki
aproveitou sua decisão para firmar uma posição sobre a possibilidade de o
STF analisar a validade do mérito das acusações à presidente da
República, que o presidente do Supremo Ricardo Lewandowski insiste em
dizer que pode ser analisada. Disse Teori Zavascki: “(...) não há base
constitucional para qualquer intervenção do Poder Judiciário que, direta
ou indiretamente, importe juízo de mérito sobre a ocorrência ou não dos
fatos ou sobre a procedência ou não da acusação. O juiz constitucional
dessa matéria é o Senado Federal, que, previamente autorizado pela
Câmara dos Deputados, assume o papel de tribunal de instância
definitiva, cuja decisão de mérito é insuscetível de reexame, mesmo pelo
Supremo Tribunal Federal”.
Como já fora dito em outras
decisões de ministros do STF, Zavascki volta a explicar o papel dos
deputados e senadores no julgamento do impeachment: “(...) é preciso
compreender também que o julgamento, em tais casos, é feito por juízes
investidos da condição de políticos, que produzem, nessa condição, votos
imantados por visões de natureza política, que, consequentemente, podem
eventualmente estar inspirados em valores ou motivações diferentes dos
que seriam adotados por membros do Poder Judiciário”.
Ele
ressalta que os atos do Presidente da Câmara “foram subsequentemente
referendados em diversas instâncias da Câmara dos Deputados, com
votações de acolhimento numericamente expressivas, o que qualifica – e
muito – a presunção de legitimidade do ato final de autorização de
instauração do processo de impeachment, que não é de competência
solitária do Presidente daquela Casa Legislativa, mas do seu Plenário”.
Fica
impossível, portanto, sustentar que o processo de impeachment é um
golpe parlamentar, pois todos os passos estão sendo acompanhados pelo
Supremo Tribunal Federal, que, por sinal, teve sua maioria – 9 dos 11
ministros - inclusive o ministro Teori Zavascki, indicados pelos
presidentes Lula e Dilma.
Paralelo
A escolha, depois
abortada, do deputado federal Newton Cardoso Jr., de 36 anos, para o
Ministério da Defesa, além de causar estupefação entre os militares, fez
lembrar a nomeação pelo ex-presidente Fernando Collor de Pedro Paulo
Leoni Ramos, seu amigo então com 30 anos, para chefiar a Secretaria de
Assuntos Estratégicos (SAE) que substituiu naquela ocasião o Serviço
Nacional de Informações (SNI).
Leoni Ramos saiu do governo
Collor sob acusações de corrupção e está hoje novamente envolvido em
denúncias da Operação Lava-Jato, como associado ao senador Collor.
A
diferença é que Collor tinha na ocasião 42 anos e um perfil arrojado
como marketing político, enquanto Michel Temer é um político experiente
que não costuma agir impensadamente. No caso do ministério da Defesa, no
entanto, o bom-senso não tem predominado nas decisões de Temer.
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