Sejamos modestos e exijamos o impossível, diz, de novo a esquerda francesa; mas tudo fica cada vez mais sem graça
Vilma Gryzinski - VEJA
E no caso, a maioria da sociedade francesa apoiou Hollande quando ele
prometeu gastar mais do que todos teriam e agora o condena por tentar
aproximar a realidade das promessas irrealizáveis. Tal como aconteceu
com a Grécia, a única resposta possível seria: virem-se.
A França, evidentemente, não é a Grécia, não tem uma dívida catastroficamente impagável e não criou o olimpo absoluto em que todos podiam se servir de ambrosia, mesmo que não houvesse mais o manjar dos deuses sequer para alguns poucos. Mas as reformas trabalhistas que colocaram os sindicatos franceses, antigos aliados de Hollande, nas ruas apenas atenuam levemente o constrangimento da gaiola de ferro que amarra a criação de mais empregos.
Quando foi eleito presidente, uma das primeiras iniciativas de Hollande, além de beijar a mulher sob o olhar da amante – depois, a segunda tomou o lugar da primeira -, foi anular uma lei aprovada por seu antecessor, o impopular Nicolas Sarkozy, e restaurar o limiar de 60 anos como idade para aposentadoria para aqueles que estavam entrando no mercado de trabalho.
Como Hollande, agora, tem estofo moral para propor as mudanças milimétricas que abriram os portões para a atual onda de greves? O foco dos protestos da CGT, a eterna confederação sindical com mais privilégios do que barões medievais, é o artigo 2 dos novos regulamentos, que transfere para empresas e funcionários as negociações sobre o percentual de pagamento adicional por horas extras.
A opinião pública apóia os protestos na faixa de quase 60%, 56 deputados já pediram que o pacote seja alterado para “apaziguar” os ânimos e até Manuel Vals, o primeiro-ministro durão – pelos padrões franceses – já falou em “aperfeiçoar” a proposta. É difícil imaginar Hollande resistindo heroicamente, em nome das futuras gerações que pagarão uma conta insustentável sob a forma de benefícios em expansão e contribuintes em contração.
Os pontos em debate soam parecidos porque todos os países do mundo que têm um sistema de seguridade social enfrentam exatamente o mesmo problema. Encontrar um equilíbrio entre o dinheiro que entra e o que sai para bancar aquilo em que todos concordam – pensões para idosos e inválidos, sistema de saúde abrangente e demais quesitos obrigatórios -, sem criar uma casta de beneficiários indevidamente eternos nem obrigações que sufoquem a fonte de onde deveriam vir os empregos desejados por todos, é praticamente o fulcro dos debates políticos das últimas décadas.
Quando Otto von Bismarck, o prodigioso unificador da Alemanha, com todos os seus defeitos (Prússia: militarismo), criou o primeiro sistema de seguridade social de alcance nacional, obedecia à lógica do tempo. A industrialização, com toda a riqueza que criava, deixava nas margens acidentados, viúvas e órfãos, e a comuna de Paris, no estrondoso ano de 1871, dava uma ideia de como o sistema podia ser abalado.
A comuna estabeleceu uma tradição com muito passado e mais futuro ainda: as explosões periódicas de ira popular dos franceses. Ainda hoje soa tão obrigatório quanto usar uma pashmina displicente no pescoço demonstrar solidariedade às “ruas de Paris”, mesmo que os benefícios usados para aplacar les misérables – os desafortunados rebeldes de 1848 – tenham evoluído para margens suicidas.
De país fabuloso, centro de atração para as mentes mais brilhantes do mundo, a França, mesmo mantendo todas as suas privilegiadas condições, se transformou em exportadora de talentos. Os novos misérables, vindos predominantemente da África, fazem fila para entrar, enquanto jovens franceses altamente qualificados vão buscar a realização de suas ambições em outros países.
Pior ainda, não aparecem alternativas e a eleição presidencial do próximo ano é de dar calafrios. Vals, o catalão que foi um dos responsáveis pela “guinada à direita” do governo socialista e poderia ser uma opção viável de político de une firmeza de ação a propostas remotamente realistas, afundou na impopularidade e talvez seja engolido pela onda atual de greves.
Hollande só seria reeleito, na hipótese hoje inexistente de que chegasse ao segundo turno, por milagre ou união de todas as forças atuais contra Marine Le Pen. Esta reúne todos os defeitos da direita ultra-nacionalista e nem uma única qualidade da direita liberal, cujos princípios ignora. O nome mais razoável, hoje, é o de Alain Juppé, da nada entusiasmante direita convencional.
Com qualquer um deles, a casta sindical continuará defendendo “nossos direitos” e que se dane quem vai pagar a conta. Ou talvez proponha a semana de 28 horas ou 100% de imposto de renda para les patrons. O estado, acreditam ou querem acreditar, a todos proverá.
A França, evidentemente, não é a Grécia, não tem uma dívida catastroficamente impagável e não criou o olimpo absoluto em que todos podiam se servir de ambrosia, mesmo que não houvesse mais o manjar dos deuses sequer para alguns poucos. Mas as reformas trabalhistas que colocaram os sindicatos franceses, antigos aliados de Hollande, nas ruas apenas atenuam levemente o constrangimento da gaiola de ferro que amarra a criação de mais empregos.
Quando foi eleito presidente, uma das primeiras iniciativas de Hollande, além de beijar a mulher sob o olhar da amante – depois, a segunda tomou o lugar da primeira -, foi anular uma lei aprovada por seu antecessor, o impopular Nicolas Sarkozy, e restaurar o limiar de 60 anos como idade para aposentadoria para aqueles que estavam entrando no mercado de trabalho.
Como Hollande, agora, tem estofo moral para propor as mudanças milimétricas que abriram os portões para a atual onda de greves? O foco dos protestos da CGT, a eterna confederação sindical com mais privilégios do que barões medievais, é o artigo 2 dos novos regulamentos, que transfere para empresas e funcionários as negociações sobre o percentual de pagamento adicional por horas extras.
A opinião pública apóia os protestos na faixa de quase 60%, 56 deputados já pediram que o pacote seja alterado para “apaziguar” os ânimos e até Manuel Vals, o primeiro-ministro durão – pelos padrões franceses – já falou em “aperfeiçoar” a proposta. É difícil imaginar Hollande resistindo heroicamente, em nome das futuras gerações que pagarão uma conta insustentável sob a forma de benefícios em expansão e contribuintes em contração.
Os pontos em debate soam parecidos porque todos os países do mundo que têm um sistema de seguridade social enfrentam exatamente o mesmo problema. Encontrar um equilíbrio entre o dinheiro que entra e o que sai para bancar aquilo em que todos concordam – pensões para idosos e inválidos, sistema de saúde abrangente e demais quesitos obrigatórios -, sem criar uma casta de beneficiários indevidamente eternos nem obrigações que sufoquem a fonte de onde deveriam vir os empregos desejados por todos, é praticamente o fulcro dos debates políticos das últimas décadas.
Quando Otto von Bismarck, o prodigioso unificador da Alemanha, com todos os seus defeitos (Prússia: militarismo), criou o primeiro sistema de seguridade social de alcance nacional, obedecia à lógica do tempo. A industrialização, com toda a riqueza que criava, deixava nas margens acidentados, viúvas e órfãos, e a comuna de Paris, no estrondoso ano de 1871, dava uma ideia de como o sistema podia ser abalado.
A comuna estabeleceu uma tradição com muito passado e mais futuro ainda: as explosões periódicas de ira popular dos franceses. Ainda hoje soa tão obrigatório quanto usar uma pashmina displicente no pescoço demonstrar solidariedade às “ruas de Paris”, mesmo que os benefícios usados para aplacar les misérables – os desafortunados rebeldes de 1848 – tenham evoluído para margens suicidas.
De país fabuloso, centro de atração para as mentes mais brilhantes do mundo, a França, mesmo mantendo todas as suas privilegiadas condições, se transformou em exportadora de talentos. Os novos misérables, vindos predominantemente da África, fazem fila para entrar, enquanto jovens franceses altamente qualificados vão buscar a realização de suas ambições em outros países.
Pior ainda, não aparecem alternativas e a eleição presidencial do próximo ano é de dar calafrios. Vals, o catalão que foi um dos responsáveis pela “guinada à direita” do governo socialista e poderia ser uma opção viável de político de une firmeza de ação a propostas remotamente realistas, afundou na impopularidade e talvez seja engolido pela onda atual de greves.
Hollande só seria reeleito, na hipótese hoje inexistente de que chegasse ao segundo turno, por milagre ou união de todas as forças atuais contra Marine Le Pen. Esta reúne todos os defeitos da direita ultra-nacionalista e nem uma única qualidade da direita liberal, cujos princípios ignora. O nome mais razoável, hoje, é o de Alain Juppé, da nada entusiasmante direita convencional.
Com qualquer um deles, a casta sindical continuará defendendo “nossos direitos” e que se dane quem vai pagar a conta. Ou talvez proponha a semana de 28 horas ou 100% de imposto de renda para les patrons. O estado, acreditam ou querem acreditar, a todos proverá.

Nenhum comentário:
Postar um comentário