Concessões sob risco
Piora do cenário econômico dificulta leilões na área de
infraestrutura, o que deve prejudicar a receita do governo e os
investimentos
FSP
A grande desordem orçamentária acumulada pelo governo federal foi, decerto, um fator maior da recessão vivida pelo país.
Dada a ausência de sinais de que haverá controle do endividamento
público, a insegurança emperra ainda mais a atividade econômica e produz
efeitos de segunda ordem, sequelas que ameaçam a arrecadação de
recursos dos quais o Tesouro necessita com urgência.
Mais que isso, que solapam as pequenas oportunidades de atenuar e
abreviar a crise. Tome-se o exemplo das concessões de infraestrutura.
Está à beira de se tornar inviável o leilão de 29 hidrelétricas
remarcado para novembro.
Trata-se da venda do direito de explorar usinas hoje sob controle da
União, que as retomou depois de esgotado o prazo das concessões
originais. Com o negócio, o governo espera arrecadar R$ 11 bilhões neste
ano. Sem tais recursos, torna-se ainda mais improvável encerrar o ano
com algum saldo nos cofres federais.
O negócio está sob risco porque o descrédito do governo, ao assustar o
mercado e impulsionar os juros, eleva cada vez mais o custo do crédito
para as empresas.
A rentabilidade é incerta, pois, além de taxas altas dos financiamentos,
também o real se desvaloriza, afetando o interesse do investidor
estrangeiro.
O Ministério de Minas e Energia minimiza as consequências da protelação
anunciada. A pasta afirma que o propósito é apenas aperfeiçoar as
condições dos leilões a partir de sugestões do Tribunal de Contas. O
Tesouro, no entanto, já admite a hipótese de não contar com a receita
extra tão cedo.
A incerteza é ainda maior em relação às concessões de novas rodovias e,
sobretudo, de portos e ferrovias –casos por ora sem solução, dados os
problemas regulatórios.
Está sob risco de grande atraso, portanto, a segunda etapa do Programa
de Investimentos em Logística (PIL), lançado com estardalhaço em junho
pela presidente Dilma Rousseff (PT).
Diante dos problemas judiciais e financeiros das maiores empreiteiras do
país, o governo até favoreceu a participação de estrangeiros e de
empresas médias. Faltam, contudo, projetos, especificação das
licitações, modelos de financiamento e preços realistas. Planos
concretos de licitação nem ao menos chegaram ao papel.
O PIL, o que é mais lamentável, está entre as poucas alternativas
restantes de incentivo à atividade econômica. Ao lado das exportações,
beneficiadas pelo avanço das cotações do dólar, teria ao menos o efeito
de atenuar a recessão, a partir do ano que vem.
Contava-se com tais operações para interromper o ciclo de retração dos
investimentos –em obras de infraestrutura e aquisição de maquinário– que
já dura inéditos oito trimestres consecutivos. A ruína dos fundamentos
econômicos, a penúria do governo e o decorrente tumulto no mercado
ameaçam essa válvula de escape.
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