Kassab faz nova ofensiva para rivalizar com PMDB
Ministro tenta criar partido também para esvaziar oposição e impeachment
Ex-prefeito conta com a ajuda de ministros para aprovar nova sigla que quer abrigar até 28 deputados na terça
RANIER BRAGON/GUSTAVO URIBE/NATUZA NERY/MÁRCIO FALCÃO - FSP
Com o apoio do primeiro escalão de Dilma Rousseff, o ministro Gilberto
Kassab (Cidades) patrocina nesta semana a última tentativa de recriar o
Partido Liberal, legenda cujo objetivo é formar um bloco governista para
rivalizar com o PMDB, além de esvaziar a oposição e o movimento
pró-impeachment.
A pedido do ex-prefeito de São Paulo, integrantes do Palácio do Planalto
adiaram a publicação da sanção presidencial à reforma política aprovada
pelo Congresso.
Caso saísse no Diário Oficial na sexta (25), como esperado, a medida
jogaria por terra os planos de Kassab de levar até 28 deputados federais
para a nova sigla.
A movimentação de bastidores do ministro das Cidades, hoje um dos mais
fiéis aliados de Dilma, começou logo após a reeleição da petista, no ano
passado.
Incomodado com o poder do PMDB na coalizão –é o maior partido aliado a
Dilma–, o Palácio do Planalto deu sinal verde a Kassab e a Cid Gomes
(que viria a ser ministro da Educação) para tentar criar um polo
alternativo.
Sempre negando publicamente estar ligado à operação, Kassab começou, por
meio de aliados, a tentativa de recriar o Partido Liberal. O intuito
era atrair deputados federais da oposição e do PMDB para a nova sigla e,
depois, fundi-la com o PSD (o atual partido que Kassab comanda),
superando em tamanho os peemedebistas. Hoje o PMDB tem 66 deputados
federais; o PSD, 34.
A ação, porém, esbarrou na derrota do governo para Eduardo Cunha
(PMDB-RJ), que em fevereiro assumiu a presidência da Câmara dos
Deputados e, desde então, trabalha para minar os planos de Kassab e
denunciar publicamente a tentativa do Planalto de alvejar o parceiro
PMDB.
ARTICULAÇÃO
O último revés do ex-prefeito ocorreu no começo de agosto, quando o
Tribunal Superior Eleitoral rejeitou o pedido de registro do PL. São
necessárias cerca de 487 mil assinaturas de eleitores para que um
partido seja criado, mas o PL só apresentou na ocasião 167 mil.
A partir de então, Kassab articulou reação. O PL entrou com recurso em
setembro e entregou ao tribunal uma papelada em que afirma estarem as
assinaturas faltantes.
O TSE encaminhou o recurso para que o Ministério Público dê parecer e,
segundo Kassab disse a colegas da Esplanada, aprovará a recriação do PL
nesta terça (29).
Segundo relato de dois auxiliares de Dilma Rousseff, Kassab pediu aos
ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini
(Comunicações), em reunião no Palácio da Alvorada na quinta (24), que
eles suspendessem a publicação, marcada para o dia seguinte, da sanção
presidencial à reforma política.
Àquela altura, Dilma voava para Nova York e havia deixado a sanção
pronta. Kassab não a queria publicada na sexta porque ela coloca na lei
que deputados federais só podem mudar de partido sem risco de perder o
mandato no sétimo mês anterior às eleições –a próxima janela do
troca-troca só se abriria em março de 2016.
Até a sanção ser publicada, continua valendo a resolução do TSE que
permite a migração para novas legendas nos 30 dias posteriores à sua
criação.
COMPROMISSOS
Segundo promessa de Kassab a Mercadante e Berzoini, ele já tem prontas e
assinadas a filiação ao PL de 25 a 28 deputados federais de siglas como
PV, DEM, PSB e PMDB, ação que seria concretizada ainda na terça (29),
após eventual aval do TSE ao PL.
Caso chegue ao número máximo prometido, além de esvaziar a oposição o
ex-prefeito reuniria 62 deputados na aliança PSD-PL, quase o mesmo
tamanho do PMDB (66). O ministro das Cidades argumentou que essa
operação é, em sua visão, essencial no momento em que a oposição tenta
deflagrar processo de impeachment, com apoio de alas do PMDB.
IMPEDIMENTO
Apesar de ocupar a vice-presidência, com Michel Temer, e ministérios, o
PMDB abriga rebelados em sua base, como Cunha, e ameaça declarar
independência do governo em novembro próximo.
Pelo acordo traçado no Alvorada, a sanção só será publicada na quarta
(30), último dia do prazo. Porém, a Dilma e ministros estariam sofrendo
pressão do PMDB para que ela saísse já nesta segunda (28) para parrar a
articulação do ministro.
O impasse tem potencial de elevar a temperatura da crise em uma semana
em que o governo quer fechar a reforma ministerial e melhorar sua
relação com o PMDB.
Ainda de acordo com auxiliares de Dilma ouvidos pela Folha,
Kassab está prometendo aos deputados dispostos a ingressar no PL
controle sobre o partido em seus redutos, além de coligação com o PSD na
campanha de 2016, o que daria mais tempo de TV para os candidatos.
Em sua decisão sobre a reforma política, Dilma decidiu vetar apenas o
ponto que permite o financiamento empresarial de partidos políticos. Ela
seguiu decisão do STF (Supremo Tribunal Federal)que considerou a
prática inconstitucional.
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