sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Parada militar na China dá a Xi Jinping plataforma para exibir seu poder
Chris Buckley - NYT
Zheng Huansong/Xinhua
Soldados participam da imponente parada militar em celebração pelos 70 anos da vitória da China contra o Japão na Segunda Guerra Mundial, em Pequim Soldados participam da imponente parada militar em celebração pelos 70 anos da vitória da China contra o Japão na Segunda Guerra Mundial, em Pequim
Milhares de tropas permaneciam dispostas em perfeita atenção em torno da Praça Tiananmen. Centenas de anciões do Partido Comunista, dignitários estrangeiros e diplomatas assistiam. Foi então, ao vivo pela televisão, que o presidente Xi Jinping deu um passo à frente para anunciar que as forças armadas chinesas, em orgulhosa exposição para marcar os 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, perderiam mais de um décimo de seu pessoal.
"A guerra é a espada de Dâmocles que ainda paira sobre a humanidade", disse Xi, da tribuna diante da praça, em um discurso no início de uma vasta parada militar no centro de Pequim.
Xi indicou que queria mostrar a outros países –-muitos deles preocupados com o crescente poderio militar da China-– que não têm nada a temer com o desfile de tanques e mísseis pela avenida Chang'an, enquanto caças sobrevoavam.
Mas a forma altamente pública do anúncio por Xi de que 300 mil militares seriam desmobilizados, a maior redução de tropas da China em quase duas décadas, transmitiu outra mensagem implícita. Ele estava demonstrando seu controle das forças armadas e do partido, em meio às tempestades econômicas e à dura campanha anticorrupção que deixaram alguns se perguntando se ele e sua agenda de mudanças –-inclusive no Exército de Libertação Popular (ELP)-– estavam esmorecendo, disseram vários especialistas.
"É Xi quem está no comando", disse Andrew Scobell, um cientista político da RAND Corp. que estuda as forças armadas chinesas e que esteve em Pequim durante a parada, sobre o anúncio dos cortes.
Mas ele disse que Xi enfrentou resistência ao impor seu programa mais amplo de mudanças nas forças armadas, que mudariam a estrutura de comando e removeria o antigo poder dos comandos militares regionais por toda a China.
"Se isso acontecer, então será a confirmação de que Xi Jinping é o comandante-em-chefe mais poderoso da China desde Deng Xiaoping", ele disse. "Isso visa mostrar Xi como o homem forte."
Xi não deu nenhum detalhe na quinta-feira sobre a redução de tropas. Mas o corte pareceu considerável e visa tornar o Exército de Libertação Popular mais eficiente e pronto para o combate, disseram especialistas estrangeiros. E um general-de-divisão reformado chinês, Xu Guangyu, disse que o anúncio mostrou que os planos de Xi para reformar as forças armadas permanecem nos trilhos.
"Essa decisão era esperada", disse Xu por telefone, de Pequim. "À medida que cresce constantemente o nível de modernização militar, nós podemos reduzir pessoal. A modernização de armas e equipamentos está encorajando uma redução do número de pessoal."
O corte anunciado por Xi encolheria os militares da China para 2 milhões, a maior redução desde que 500 mil foram desmobilizados em 1997, disse a "China News Service", a agência de notícias estatal. Mas as forças armadas permaneceriam as maiores do mundo, em comparação ao 1,4 milhão de militares no serviço ativo nos Estados Unidos. O Ministério da Defesa da China disse que os cortes seriam concluídos no final de 2017.
"Parece incongruente Xi fazer o anúncio na parada", disse Dennis J. Blasko, um ex-adido do Exército americano na embaixada dos Estados Unidos em Pequim. "Mas é de amplo conhecimento que os cortes de centenas de milhares melhorariam a eficácia em combate."
A redução ocorreria principalmente nas forças terrestres, com mais recursos indo para a marinha, força aérea e o Segundo Corpo de Artilharia, responsável pelos mísseis convencionais e nucleares da China, disse David Finkelstein, o vice-presidente da CNA, uma organização em Arlington, Virgínia, que é especializada em análise militar.
O programa de Xi para reorganizar e revigorar as forças armadas faz parte de uma série de mudanças anunciadas em 2013, incluindo uma reforma econômica. De lá para cá, o governo chinês implantou as mudanças, mas muitos observadores disseram que as medidas com frequência foram hesitantes e opacas, aquém das promessas ousadas de Xi.
Além disso, os militares chineses foram distraídos por investigações anticorrupção que derrubaram antigos e atuais altos oficiais, incluindo o general Guo Boxiong, o oficial mais graduado em serviço por uma década até 2012, que foi oficialmente colocado sob investigação no final de julho.
Os cortes de tropas provavelmente fazem parte da uma agenda mais ampla de mudanças, que podem incluir arranjos para um novo comando conjunto para melhorar a coordenação das forças de terra, ar, mar e outras, disse por e-mail M. Taylor Fravel, um professor associado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts que estuda os militares chineses.
"Xi não anunciaria publicamente o tamanho da redução se o plano para como fazê-lo já não estivesse formulado, de modo que o anúncio indica que as reformas já estão em curso", disse Fravel. "As forças terrestres provavelmente sofrerão grande parte da redução, mas no passado, reduções foram usadas para enxugar camadas de comando e burocracia dentro do ELP."
Desde que se tornou o líder do Partido Comunista em novembro de 2012, Xi tem visitado com frequência unidades militares para interagir com os soldados e divulgar os pedidos para que o Exército de Libertação Popular abrace as mudanças, permanecendo ao mesmo tempo um reduto do poder do partido. Nas tensões com o Japão, Vietnã e outros vizinhos em torno de reivindicações marítimas rivais, Xi também sinalizou que seu governo apoiará suas reivindicações com uso de força.
"Eles sabem que se quiserem vencer qualquer guerra, terá que ser uma guerra de alta tecnologia", disse Che-Po Chan, um professor assistente da Universidade de Lingnan, em Hong Kong. "Agora é preciso que seja uma estratégia avançada. Não pode ser uma chamada guerra popular."
Se Xi conseguirá fazer uso do novo corte de tropas para moldar a forma como as forças armadas chinesas operam será um teste de sua habilidade política.
Antes mesmo de sua elevação ao alto escalão do partido, Xi tinha alguma experiência com as forças armadas, diferente de seus antecessores na presidência, Hu Jintao e Jiang Zemin, que estavam ao lado dele durante a parada. Xi iniciou sua ascensão no partido como assessor do ministro da Defesa por vários anos a partir de 1979, quando a China estava sofrendo devido a uma breve, porém desastrosa, guerra com o Vietnã.
Desde que se tornou líder do Partido Comunista, Xi se associou estreitamente ao Exército de Libertação Popular, enquanto também realizava a campanha contra a corrupção que atingiu seus mais altos escalões.
No início da parada, ele disse que as forças armadas da China estavam "comprometidas lealmente ao seu dever sagrado de defender a segurança da pátria e a vida pacífica de sua população, e comprometidas lealmente ao dever sagrado de salvaguardar a paz mundial".
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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