Daniel Mediavilla - El País
Mandel Ngan/AFP - 21.mar.2013
Presidente
dos EUA, Barack Obama (à direita), e o premiê de Israel, Benjamin
Netanyahu (centro), observam robô em formato de cobra que pode ser usado
em operações de resgate, durante passeio por mostra de tecnologia no
Museu de Israel, em Jerusalém
É preciso falar
alto com Aaron Ciechanover. Segundo conta o cientista israelense, ele
ficou meio surdo por causa de uma explosão durante a guerra do Yom
Kippur, em 1973. Quando o Egito e a Síria atacaram seu país, ele
prestava serviço militar como médico de campanha do Exército, e com
apenas 25 anos assumiu a responsabilidade de tratar companheiros
enfermos em circunstâncias imprevisíveis. Reconhece que viu pouco
sangue, mas aprendeu muito. Passou os três anos seguintes desenvolvendo
dispositivos médicos para tratar os soldados no campo de batalha e
considera que seu tempo nas Forças de Defesa de Israel foi a melhor
escola para aplicar a ciência na vida real. Não só isso. Segundo o Nobel
de química de 2004, aquela experiência lhe serviu para "conhecer o
melhor da sociedade israelense". "Ali você entra em contato com cidadãos
que vêm de todos os lugares e são de todas as condições, e aprende a
trabalhar em equipe, a ser solidário e a pensar em seu vizinho",
continua.
O elogio de Ciechanover às forças armadas e ao papel
que desempenharam em sua formação e sua carreira pode chamar a atenção
nos âmbitos acadêmicos fora de Israel, mas é natural ali. De fato, são
considerados parte da receita do êxito de um país de 8 milhões de
habitantes com capacidades científicas e tecnológicas muito acima de seu
tamanho. Nos últimos sete anos, Israel conseguiu mais ajudas para
projetos competitivos do Conselho de Pesquisa Europeu do que Itália,
Espanha ou Suécia, e sua UHJ (Universidade Hebraica de Jerusalém) pode
se gabar de oito prêmios Nobel e um medalhista Fields. Israel também é o
país com mais companhias emergentes de alta tecnologia por cabeça no
mundo.
Na semana passada, Israel quis mostrar ao mundo seu êxito
e sua paixão pela ciência em uma grande conferência realizada pela UHJ.
Ali, em um evento batizado de Conferência Mundial de Ciência em Israel,
reuniu 15 prêmios Nobel com jovens e brilhantes estudantes de todo o
mundo. Durante a inauguração da conferência, o ex-presidente do país
Shimon Peres afirmou que "a ciência é mais importante que a política",
declaração que qualquer responsável político poderia assumir, mas soa
menos vazia em um país que, diante dos 1,3% da Espanha, investe quase 4%
de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento.Durante uma semana, um contingente de jornalistas de meio mundo (entre eles "El País") foi convidado para um intenso programa de visitas organizadas a centros de pesquisa e empresas tecnológicas, com o que se tentou mostrar o segredo do sucesso israelense.
Em Beerseba, no deserto de Neguev, encontra-se um dos polos tecnológicos do país. Ali, na Universidade Ben-Gurion do Neguev, uma instituição que surgiu da visão do ex-primeiro-ministro israelense para promover o desenvolvimento do sul do país, formam-se 50% de seus engenheiros. Neste lugar, onde o calor de agosto golpeia como um martelo, estão surgindo algumas das empresas que prometem as soluções mais inovadoras para os problemas de cibersegurança do mundo.
Na sede do JVP Cyber Labs, uma incubadora com apoio estatal dedicada a identificar e apoiar em seus primeiros passos esse tipo de companhia, encontra-se a SCADAfence. Seu diretor, Yoni Shohet, comenta os riscos do mundo ultraconectado para as grandes infraestruturas industriais. Cita como exemplo o ataque a uma usina metalúrgica na Alemanha no final de 2014. Os hackers conseguiram sequestrar os sistemas de controle da instalação e provocaram uma falha em um alto forno que causou graves danos. Outro caso clássico que Shohet menciona é o ataque do vírus Stuxnet, desenhado para infectar os sistemas de controle de infraestruturas industriais, que destruiu cerca de 20% das centrífugas empregadas pelo Irã para enriquecer urânio.
Antes de chegar a SCADAfence, seu atual diretor foi capitão de uma unidade tecnológica de elite do Exército israelense, cujo nome não pode revelar. Gente como Edward Snowden atribuiu a esse tipo de unidade a elaboração do código que acionou o Stuxnet. Shohet afirma que em sua companhia dedicam-se apenas a proteger desses ataques, e não a criá-los.
A experiência no Exército é chave para muitos empreendedores israelenses. O serviço militar é obrigatório e dura três anos, e é parte fundamental da vida da maioria dos jovens do país. Segundo contam Dan Senor e Saul Singer em "Start-up Nation", livro que tenta explicar as bases do sucesso israelense, o exército tem a prerrogativa de selecionar os mais capacitados para determinadas habilidades técnicas e atribuí-los a unidades de inteligência como a que Shohet liderou. Ali recebem formação específica e enfrentam um ambiente de conflito no qual devem aplicar seus conhecimentos para produzir soluções sob grande estresse e às vezes em situações de vida ou morte. O exército se transforma assim em um ambiente extremo de aprendizagem no qual os israelenses também forjam fortes vínculos para toda a vida. Esses vínculos formam depois uma extensa e estreita rede de contatos nos quais se apoiam os futuros empreendedores.
Entretanto, o nível de pobreza no país, de 21%, é o segundo maior do mundo desenvolvido. Esses pobres são, em grande parte, os cidadãos que não são chamados ao serviço militar, principalmente os árabes-israelenses e os judeus ultraortodoxos. Apesar de alguns árabes conseguirem diplomas de engenharia, poucos encontram trabalho de acordo com sua formação, segundo explicam Senor e Singer.
Aprender é importante
Os israelenses se gabam de sua capacidade para superar as dificuldades. O terreno conquistado ao deserto, a capacidade de desperdiçar menos água que ninguém no mundo ou a fábrica de microchips da Intel em Televisão Aviv aumentando sua produção sob os mísseis de Saddam Hussein durante a guerra do Golfo são exemplos de vitórias diante da adversidade.Na ciência pura, os judeus também consideram que seus êxitos se devem um pouco às penúrias vividas como povo. Ada Yonath, Nobel de química em 2009, que também participou do encontro em Jerusalém, tentou explicar em uma entrevista por que quase 30% de todos os prêmios Nobel da história são judeus: "Muitas profissões eram proibidas para nós, por isso uma das poucas que restavam era a ciência, e estudaram para ser médicos, músicos e cientistas. A ideia de que aprender é importante, de que está na raiz, continua vigente".
Yonath trabalha no Instituto Weizmann, em Rehovot, cidade 20 quilômetros ao sul de Tel Aviv. Em seu campus trabalham 250 grupos de pesquisa, e a instituição recebe 350 milhões de euros por ano, "para pensar com liberdade e sem nenhum objetivo prático", nas palavras de seu presidente, o físico Daniel Zajfman. Em um mundo em que cada vez mais se enfatiza a necessidade de transformar o conhecimento produzido pelos cientistas em aplicações práticas, Zajfman é um herege. "Nosso trabalho é transformar o dinheiro em conhecimento e formar os melhores cientistas de Israel para o futuro", afirma. "Não creio que a indústria e a academia vão se misturar, porque se isso acontecer no final os acadêmicos ficarão a serviço da indústria e se perderá a visão de longo prazo", continua.
Essa liberdade, que também devem a um governo que valoriza a ciência, permite fazer planos para 30 anos que no final dão resultados. "As licenças de conhecimento transferido do Instituto Weizmann produziram US$ 30 bilhões", afirma, mas diz que embora "seja bom, não é nosso objetivo".
No Weizmann se observa uma peculiaridade que pode ter algo a ver com o êxito científico do país e dos judeus em geral. À diferença de outras instituições científicas de primeiro nível no mundo, os cientistas do centro de Rehovot são fundamentalmente israelenses e judeus. "Não é fácil atrair talento internacional para Israel", reconhece Zajfman. Entretanto, o país se beneficiou de sucessivas ondas migratórias que formaram uma sociedade com uma forte identidade, que ao mesmo tempo conta com mais de 70 nacionalidades que a enriquecem com sua diversidade. "Para a ciência é muito importante olhar o mesmo problema de vários pontos de vista", afirma o presidente do Weizmann.
A chegada de imigrantes mais benéfica para a ciência e a tecnologia do país foi a que levou mais de 1,5 milhão de judeus russos a Israel depois da queda do Muro de Berlim em 1989. Com uma elevada porcentagem de engenheiros, médicos e cientistas, representaram um importante impulso para a ciência e a tecnologia israelenses. Dada a relevância dessa multiculturalidade para a ciência, Zajfman, que nasceu em Bruxelas (Bélgica), está preocupado com o futuro. "Nos próximos anos vamos perder esse valor, porque seremos todos apenas israelenses", lamenta.
Pouco depois de deixar o presidente do Weizmann, no novo centro de medicina personalizada do instituto, sua diretora, Berta Strulovici, deu um exemplo de outro dos valores judeus e israelenses que podem explicar seus triunfos. Diante da aparente despreocupação de Zajfman sobre a aplicação dos conhecimentos do centro de pesquisas que preside, Strulovici desdenhou seu desinteresse e afirmou que muitos cientistas do Weizmann montaram suas próprias empresas e ganharam muito dinheiro com elas. O centro que ela dirige tem uma vocação clara de levar suas descobertas aos pacientes e conta com um departamento dedicado a buscar novas substâncias farmacológicas.
A naturalidade com a qual contradisse seu diretor diante de um jornalista faz parte do que muitos consideram um dos traços do caráter judeu. Hanoch Gutfreund, diretor do Centro Einstein da UHJ, onde se guarda o legado intelectual do físico alemão, acredita que esse fator foi chave na descoberta da teoria da relatividade. Albert Einstein, um dos fundadores da Universidade Hebraica de Jerusalém, revolucionou a ciência moderna graças a sua ousadia para contrariar os grandes físicos da época, que consideravam que a obra de sua ciência estava praticamente completa. Em "Start-Up Nation", Shimon Peres afirmava que "a maior contribuição do povo judeu à história é a insatisfação". "Isso é ruim para a política, mas bom para a ciência", concluía.
Essa tendência à insatisfação era difícil de encontrar na conferência científica em Jerusalém, mas foi expresso por alguns representantes importantes do mundo acadêmico e empresarial de Israel. Alguns dos grandes empreendedores israelenses pressionaram para buscar uma solução ao confronto com os palestinos. Yossi Vardi, o grande guru das empresas tecnológicas, reivindicou uma saída para o conflito e um esforço para integrar melhor as comunidades pobres. Depois poderão buscar outros caminhos para que os jovens israelenses continuem treinando suas habilidades e sua solidariedade, sem ter de causar dor a seus vizinhos nem se expor aos riscos que deixaram Ciechanover surdo.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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