Crivella quer cobrar alíquota de 11% de aposentados e pensionistas para cobrir déficit
Taxação é feita hoje apenas de funcionários da ativa. Medida encontra resistência
Elenilce Bottari, Natália Boere e Giselle Ouchana - O Globo
A proposta defendida pelo prefeito Marcelo Crivella para estancar o
avanço do déficit previdenciário, que deve chegar a R$ 3 bilhões no fim
deste ano, caiu como uma bomba entre os servidores municipais. A ideia,
sugerida pelo novo presidente do Instituto de Previdência e Assistência
do Município (Previ-Rio), Luiz Alfredo Salomão, é estender para parte
dos aposentados e pensionistas a alíquota de 11%, cobrada hoje dos
funcionários da ativa. O projeto ainda nem chegou à Câmara de Vereadores
e já encontra resistência do Sindicato dos Servidores Públicos do
Município do Rio, do Movimento Unificado em Defesa do Serviço Público
Municipal e da Frente Parlamentar em Defesa da Previdência Municipal,
que prometem se mobilizar para derrubar a medida.
—
Considerando R$ 2,1 bilhões (de arrecadação anual de contribuição
patronal e dos funcionários ativos), a despesa com benefícios é de R$
4,7 bilhões por ano. Então há um buraco aí no caixa da previdência de R$
2,6 bilhões. A arrecadação não tem como aumentar. Poderia ser cobrada a
alíquota dos aposentados e dos pensionistas, o que a Constituição manda
fazer, mas que os prefeitos anteriores, Cesar Maia e Eduardo Paes, para
serem bonzinhos, não cobraram — disse o novo presidente do Previ-Rio.
Ao defender a taxação, o prefeito disse ainda que existem
recomendações neste sentido do Tribunal de Contas do Município, que
deixou de homologar oito mil aposentadorias por problemas nas
administrações anteriores.
— Salomão assumiu agora o Previ-Rio. Ele vai fazer todos os estudos
para conseguir fazer frente a esse déficit atuarial. Em nenhuma hipótese
(a cobrança da contribuição previdenciária de aposentados e
pensionistas) está descartada. Vamos fazer tudo o que for necessário
para garantir pensões e aposentadorias aos servidores. Vamos estudar
(quando a medida será implantada). Ele assumiu hoje, colocamos isso em
estudo. Quero dizer a vocês que a situação é muito grave, tanto
operacional, quanto atuarial. E nós vamos precisar tomar medidas para
isso — acrescentou Crivella.
Para o prefeito, o que Salomão classificou como “generosidade” dos
prefeitos anteriores, “no fundo, foram verdadeiras ambições eleitorais
desatinadas”:
— O Previ-Rio não pode ser administrado com a lógica da cigarra, com a
empolgação dos calendários políticos e eleitorais. É preciso ter a
consciência de uma formiga, que estoca com sabedoria para os dias
futuros. Quero que possamos tomar as decisões, que serão doloridas e
árduas, com a altivez de quem está talvez sozinho, contando apenas com o
aplauso da sua própria consciência — arrematou o prefeito.
Receita aumentaria em até R$ 500 milhões
Segundo
Salomão, “a cobrança geraria uma nova receita de R$ 400 a R$ 500
milhões por ano para o Previ-Rio, levando-se em conta que, hoje, o
município tem 81 mil inativos e pensionistas”. A nova contribuição seria
paga por 8.400 inativos que ganham acima do teto do INSS (R$ 5.531,31).
E a alíquota só incidiria sobre a diferença recebida além desse valor.
— O Funprevi (fundo responsável por capitalizar recursos para pagar
aos inativos) não tem como socorrer. Nós estamos dependendo do Tesouro. A
falta de transparência que marcou o Funprevi e o Previ-Rio nos últimos
anos precisa ser superada. Temos que retomar o mínimo de equilíbrio
fiscal porque, senão, nós vamos onerar os já sacrificados contribuintes
do município — acrescentou o presidente do Previ-Rio.
Ex-secretário municipal da Casa Civil e de Governo, Pedro Paulo
Carvalho, que esteve à frente do programa de capitalização da
previdência durante a gestão de Eduardo Paes, confirmou que o déficit da
previdência previsto para este ano é de até R$ 3 bilhões. Ele disse,
porém, que a situação é contornável com outras medidas e que “considera
injusto jogar a conta no colo dos aposentados”:
— Recebemos a previdência com algum dinheiro em caixa, porém, com uma
previsão de déficit atuarial de R$ 22 bilhões (a longo prazo). Fizemos
uma capitalização desse fundo com outras receitas e, com isso, zeramos
esse rombo. Mas, com os aumentos salariais da Educação e da Guarda
Municipal, esse descompasso voltou a crescer — disse Pedro Paulo, que
também é contra a taxação. — No caso do INSS e do Rio Previdência
(governo do estado), é necessária a cobrança dos inativos. Mas, para o
Previ-Rio, que tem uma situação muito melhor, há outras possibilidades
de capitalização.
Levantamento feito pelo GLOBO em novembro passado revelou que Eduardo
Paes recebeu o Funprevi em 2009, quando assumiu o primeiro mandato, com
R$ 25 milhões em caixa. Diante das dívidas crescentes, precisou fazer
dois aportes com recursos do Tesouro que somaram R$ 1,7 bilhão.
Representante dos servidores no Conselho Administrativo do Previ-Rio e
integrante do Movimento Unificado em Defesa do Serviço Público
Municipal, Ulysses Silva afirmou que o buraco foi provocado por erros de
gestão e que não é justo que a conta desse rombo seja paga por
aposentados e pensionistas. Segundo ele, o problema começou ainda no
governo Cesar Maia, que deixou uma dívida de R$ 1 bilhão, em atrasos da
alíquota de 22% da contribuição patronal, que foi agravado com a reforma
feita por Eduardo Paes que anistiou essa dívida.
— O programa de capitalização da prefeitura foi uma descapitalização
da previdência. Porque, além de trazer 33 mil servidores aposentados que
não faziam parte do Funprevi, os imóveis cedidos pela prefeitura para o
Previ-Rio em 2011, que valiam R$ 360 milhões na época, foram vendidos
pela metade do preço em 2016 — criticou Ulysses, afirmando que a
entidade vai à Justiça para evitar a cobrança da alíquota.
Diretor jurídico do Sindicato dos Servidores Públicos do Município do
Rio (Sisep-Rio), Frederico Sanchez afirmou que “o servidor está se
sentindo menosprezado pela gestão de Crivella”:
— Durante a campanha, assim como em seu primeiro dia de mandato, o prefeito disse que não taxaria aposentados e pensionistas.
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