Capitalismo de cooptação
Não será privatização, esclareça-se. Mas será um avanço possível, sem
convicção, a um país doente, em que se pragueja contra o capitalismo sem
que capitalismo jamais tenha havido
Carlos Andreazza - O Globo
Um dos
dramas da deseducação neste país está encenado na histórica ausência de
debate sobre o tamanho — sobre o papel — do Estado. Como se não pudesse
haver outro que não este, onipresente. A alternativa sendo o medo — a
velha ameaça de alienação do patrimônio nacional já alienado por
patriotas como Dilma Rousseff.
Dessa desinformação, ergue-se um
Lula. Nessa desinformação, parasita-se um Paulo Roberto Costa. Só nessa
desinformação é possível um Sergio Machado — um Aldemir Bendine. Foi
como refém dessa desinformação que Geraldo Alckmin se fantasiou de Banco
do Brasil e Caixa — com medo de perder os votos que, afinal, perderia.
Sob
essa desinformação, afogam-se conceitos, aterram-se detalhes,
interditam-se soluções integrais. Daí que, no Brasil, privatização nunca
seja exatamente privatização. São concessões à exploração privada,
diluições de ativos da União, aquisições subsidiadas por bancos de
fomento ou asseguradas pela adesão de fundos de pensão — operações em
que o Estado resta como sócio, geralmente com poder de veto
administrativo.
É do que se trata, mais uma vez, o pacote de
intenções anunciado na semana passada pelo governo federal, conjunto em
que se destaca a pretensão de diminuir a posse estatal sobre a
Eletrobras — um dos mamutes em cujo couro a corrupção vai longamente
trepada.
Não será privatização — esclareça-se. Mas será um
avanço. O avanço possível, sem convicção, a um país doente como este, em
que se pragueja contra o capitalismo sem que capitalismo jamais tenha
havido aqui — senão aquele, desprovido de concorrência, cujas estrelas
só podem ser os empreendimentos de Eike Batista e Joesley Batista.
Sim,
capitalismo de Estado — o dos campeões nacionais. Mais precisamente,
capitalismo de cooptação: aquele, para escolhidos, cujos mecanismos de
ação conjugam as variáveis do aliciamento e os méritos são debulhados do
compadrio; aquele em que não há sócios, mas cúmplices — padrinhos e
apadrinhados.
A falta de convicção sobre a saúde derivada do
enxugamento do Estado é um problema relevante. Porque mesmo canalhas têm
dificuldade em defender aquilo em que não acreditam. E os governos
brasileiros, todos, não acreditam. Assim, só se desfazem de nacos do
gigantismo sob seu controle para garantir o cumprimento da meta do
déficit etc. Nunca como decorrência de uma visão sobre o Estado, de um
programa para o corpo da administração pública. Há, pois, soluções
circunstanciais, puxadinhas — que, claro, alimentam a oposição de
petismos e outros sanguessugas. Não escolhas racionais, em longo prazo —
que seriam também educativas.
Duas consequências dessa falta de
convicção são especialmente deseducadoras: a pressa e a comunicação
sofrível. A primeira se ilustra na forma açodada como o governo informou
seu propósito: o de conceder, por exemplo, novos aeroportos à
exploração privada — decisão excelente, para a qual já existe
experiência bem-sucedida. No entanto, como se a Infraero fosse paixão
nacional, parecia uma traição, algo clandestino, a ocorrer em emboscada —
fato a ser logo consumado, porque do qual se envergonhar. E não há
outra maneira de comunicar senão a pior quando o que se faz é apreendido
como vergonhoso.
É inacreditável que — em 2017 — governantes
ainda tenham medo de falar em privatização e, quando obrigados pelo
orçamento, façam-no tão mal. Mais um sinal de que leem porcamente o
tabuleiro político-eleitoral; porque só a um parvo pode ter escapado que
os anúncios feitos pelo governo foram, pela primeira vez na história
brasileira, bem recebidos pela sociedade — e que mesmo os esperados
protestos de petistas e outros mamadores pouco ecoaram fora de seus
currais.
Essa é a mais importante mudança na percepção popular
sobre a atividade pública havida no Brasil desde o fim do regime
militar: uma população difusamente conservadora que — confrontada às
evidências de assalto a estatais — parece desenvolver uma compreensão
liberal prática, objetiva, sobre os riscos inerentes à dimensão do
Estado. Que, em suma, quanto menor seja, menos roubado será.
A
Lava-Jato não terá prestado serviço mais civilizador do que o de exibir,
com materialidade, aquilo, por exemplo, de que foi feita a Petrobras:
uma empresa desviada para, mais que enriquecimentos pessoais, sustentar
economicamente um projeto de poder.
Não se trata, portanto, de
súbito compromisso popular com o Estado mínimo; nem da compreensão de
que a economia funciona melhor sob gestão privada. Não. Mas de que o
tamanho do Estado é o tamanho da corrupção; de que o problema não está
na administração de estatais, que pode ser ruim ou muito ruim a depender
do governante, mas das possibilidades que oferecem, por sua própria
natureza, à corrupção.
Esse entendimento será a novidade temática
para as eleições de 2018. Faltam, contudo, candidatos que o
decodifiquem e o transformem em linguagem — algo para o que será preciso
mais inteligência do que coragem. Há votos aí. Há também lógica a
explicá-los: como defender incondicionalmente a existência de estatais,
escudadas em patrimônio nacional, se os guerreiros que manejam esse
discurso nacionalista são os senhores feudais que as loteiam entre
piratas aliados?
Há votos aí.
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