Opinião de peso no Supremo Tribunal
Ministro Luiz Fux contribui para o debate ao
se colocar contra itens da reforma política, como o distritão misto, e
defender a volta do financiamento de empresas
O Globo
Chame-se de judicialização da política ou de politização da Justiça, o
fato é que, talvez pelo tamanho e a evolução da crise multifacetada por
que o país passa, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm
pontuado o debate nacional com declarações fora dos autos. Pode ser que,
em alguns casos, a velocidade dos desdobramentos da crise faça o
magistrado entender que deve emitir sinais para um ordenamento mínimo da
agenda, em que há temas que cedo ou tarde poderão passar pela Corte.
À margem de qualquer análise, a entrevista do ministro Luiz Fux,
publicada ontem no GLOBO, é um desses conjuntos de opiniões, de um dos
onze votos da mais alta Corte do país, que indicam haver sensatez no STF
diante de questões-chave como a Lava-Jato e o combate à corrupção de um
modo geral, além do claudicante projeto da reforma política em
tramitação na Câmara.
Fux é contundente ao se referir à manobra do Congresso de converter
propostas anticorrupção, encaminhadas pelo MP federal, em lei contra
abusos de autoridade: “uma ameaça legal à atuação dos juízes”. No mesmo
diapasão, entende ser o contrabando para a reforma política de um
mandato para juízes dos tribunais superiores “uma estratégia para
enfraquecer o Poder Judiciário”.
O ministro afirma que a estratégia de debilitação do Judiciário, pelo
Legislativo, usada contra as Mão Limpas, na Itália, tem propósito
idêntico no Brasil — desidratar a Lava-Jato, também uma operação de
grande envergadura contra esquemas de corrupção encastelados no
Legislativo e Executivo, no caso do Brasil, numa forte conexão com o
mundo corporativo.
Luiz Fux contribui para a discussão em torno da reforma política ao
se colocar contrário à mudança do sistema de governo, agora. Também
considera a ideia do distritão misto — incluindo o voto em legenda — “de
uma indecência a toda prova, porque é destinado a manter a reeleição de
quem já está lá”. Visão correta.
O ministro também se junta aos críticos do tal fundão — “incompatível
com o momento de crise econômica” — e defende a volta do financiamento
eleitoral por empresas, em novas bases, considerado inconstitucional em
fins de 2015, por maioria de votos, incluindo o dele próprio, de
relator. Outro ministro, Luís Roberto Barroso, também já havia repensado
seu voto.
Parece haver uma tendência de se permitir a volta desses
financiamentos com a proibição de contrapartida — o eleito não pode
contratar bens ou serviços com a empresa que o apoiou, nem esta estará
liberada para financiar outros candidatos, de correntes políticas
diversas.
Luiz Fux não comenta o entrevero entre o colega de Corte Gilmar
Mendes e o procurador-geral da República em fim de mandato, Rodrigo
Janot. Porém, esclarece que o colega “fala por si só”. Acha que a
opinião de Gilmar, neste caso, “não atinge o colegiado” (do Supremo).
A capacidade de o ministro Gilmar influenciar a Corte deverá ser
testada se e quando for recolocado em discussão um correto veredicto
anterior que restabeleceu o entendimento de que pena confirmada em
segunda instância pode começar a ser cumprida, sem prejuízo dos
recursos. Outra medida saneadora. Gilmar já avisou que agora será voto
contrário.
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