Jean Pierre Stroobants - Le Monde
Said Khatib/AFP
Montasser Alde'emeh foi até a Síria antes de criar um centro de acompanhamento em MechelenEle contou ao "Le Monde" que, quando adolescente, era "movido pelo ódio e pela vingança". Vinte anos mais tarde, ele escreveu uma tese de doutorado para entender os jovens que tomaram um caminho do qual ele desistiu: o da luta contra o Ocidente.
Filho de refugiados palestinos que foram expulsos de Haifa para a Jordânia antes de encontrarem refúgio na Bélgica, Montasser Alde'emeh, de barba curta e voz forte, dedica seu tempo e sua energia a estudar a passagem de jovens muçulmanos belgas para o extremismo violento. E ele é um dos raros pesquisadores que conseguiram ir até a Síria para vivenciar o cotidiano de jovens combatentes.
"Eu tinha trunfos. Sou palestino, e estes geralmente são aceitos pelos jihadistas. Pertenço à mesma geração que eles, falo quatro línguas, inclusive o árabe e vários de seus dialetos. Por fim, eu conhecia a rede que podia me deixar entrar na Síria através da Turquia", ele explica.
Ele foi primeiramente convidado
através do Facebook por um dos jovens combatentes próximos do grupo
Sharia4Belgium, cujo líder e vários membros foram condenados a uma pena
pesada pela Justiça belga alguns meses atrás. O professor Tom Sauer, que
orienta a tese de Alde'emeh na Universidade de Anvers, até tentou
dissuadi-lo, mas sem sucesso. "Prefiro tentar entender a condenar
arbitrariamente", afirma Alde'emeh, "e eu não podia imaginar que meu
trabalho ficaria completo sem um estudo específico in loco".
A principal descoberta dessa viagem, que não o levou até Aleppo – o destino inicial que lhe haviam indicado - , mas sim até Atareb, Rif e Urem al-Kubra, onde o acolheram, foi que "não existe um perfil típico de europeu que parte para combater".
Os homens e as mulheres que ele conheceu, a maioria afiliada à Frente Al-Nusra, eram praticantes ou não-praticantes, convertidos ou não, oriundos ou não de famílias desestruturadas. Alguns deles tinham graduação, outros um passado de criminalidade. Alguns deles estavam lá para viver uma aventura, outros para morrer como mártires.
Se é que existe um ponto em comum entre eles, esse seria uma trajetória de desilusões e de frustrações. "Espero que você fique. Não acho que você tenha uma mansão e uma piscina em Bruxelas. Aqui temos todas as vantagens da jihad e somos livres", disse-lhe um deles, um holandês. Outros também pareceram ao pesquisador como "felizes e aliviados, unidos por um ideal, livres de suas decepções e de suas discussões infindáveis sobre a integração".
Muitos fazem críticas contra o capitalismo e o mundo ocidental "depravado" que geram inúmeras dependências e oprimem os muçulmanos, e contra a mídia manipuladora. Eles querem voltar à era de ouro do islã, e acreditam que é a violência que os levará a ela.
Uma mãe que teve dois filhos mortos e um terceiro ainda na Síria, diz que nunca foi ouvida pelo Estado. "A família não tem culpa, quem mais sofre é a mãe deles", explica essa marroquina que vive em Flandres. "Os jovens que partem quase nunca informam seus pais, pois isso poderia abalar a determinação deles", explica Alde'emeh, que conta que algumas famílias leem seu livro e o procuram: "Elas sabem ou entendem que não posso fazer nada ou quase nada pelo filho deles, mas que posso oferecer-lhes um ouvido atento."
Ele acredita que a psicologia e a antropologia e, mais amplamente, a difusão do conhecimento sobre o verdadeiro islã, podem ajudar a impedir novas partidas. "É preciso combater a imagem romântica do califado que é difundida pelos extremistas, mas também fazer com que os jovens aceitem sua identidade em nossa sociedade, e que as pessoas aprendam a conhecê-los", defende o acadêmico.
Alde'emeh deverá dar cerca de 30 palestras este ano, e está sendo requisitado por duas cidades da Holanda. "Na Bélgica e em outros lugares os políticos falam muito, mas na verdade fazem pouco", ele acredita. "Só que estamos vivendo um momento crucial, em que a história pode mudar: estamos cometendo outro erro ao acreditar que todos aqueles que têm simpatia pelo Estado Islâmico estão partindo para a Síria. Centenas ou até milhares deles estão aqui e podem, algum dia, ficar tentados a cometer um ataque."
Montasser Alde'emeh não consegue esconder seu pessimismo quanto ao futuro próximo. "Com países árabes que demoram a levar sua população a sério, um conflito estagnado entre Israel e Palestina, uma situação na Síria que me parece descartar qualquer possibilidade de perdão, além de opiniões ocidentais pegas entre extremismos de todo tipo que se retroalimentam, temo que o EI continue tendo um forte poder de atração. É preciso realmente que cada um trabalhe da melhor forma possível para reduzir os riscos", conclui.
A principal descoberta dessa viagem, que não o levou até Aleppo – o destino inicial que lhe haviam indicado - , mas sim até Atareb, Rif e Urem al-Kubra, onde o acolheram, foi que "não existe um perfil típico de europeu que parte para combater".
Os homens e as mulheres que ele conheceu, a maioria afiliada à Frente Al-Nusra, eram praticantes ou não-praticantes, convertidos ou não, oriundos ou não de famílias desestruturadas. Alguns deles tinham graduação, outros um passado de criminalidade. Alguns deles estavam lá para viver uma aventura, outros para morrer como mártires.
Se é que existe um ponto em comum entre eles, esse seria uma trajetória de desilusões e de frustrações. "Espero que você fique. Não acho que você tenha uma mansão e uma piscina em Bruxelas. Aqui temos todas as vantagens da jihad e somos livres", disse-lhe um deles, um holandês. Outros também pareceram ao pesquisador como "felizes e aliviados, unidos por um ideal, livres de suas decepções e de suas discussões infindáveis sobre a integração".
Muitos fazem críticas contra o capitalismo e o mundo ocidental "depravado" que geram inúmeras dependências e oprimem os muçulmanos, e contra a mídia manipuladora. Eles querem voltar à era de ouro do islã, e acreditam que é a violência que os levará a ela.
"Ouvido atento"
Antes de concluir seu doutorado, o jovem pesquisador de 26 anos redigiu um livro ("Por que somos todos jihadistas", Ed. Jourdain-La Boîte à Pandore) e, munido de sua experiência na Síria, ele acaba de criar um centro chamado "De Weg Naar" ("o caminho para"), na cidade de Mechelen. Seria um "lugar de conhecimento, de pesquisa e de acompanhamento", segundo sua definição, que ele prefere à de "centro de desradicalização". No entanto, seu intuito é dissuadir os jovens do extremismo violento, e ajudar as famílias daqueles que já partiram, pais que muitas vezes ficam abandonados à própria sorte uma vez terminado o trabalho policial, lamenta Alde'emeh.Uma mãe que teve dois filhos mortos e um terceiro ainda na Síria, diz que nunca foi ouvida pelo Estado. "A família não tem culpa, quem mais sofre é a mãe deles", explica essa marroquina que vive em Flandres. "Os jovens que partem quase nunca informam seus pais, pois isso poderia abalar a determinação deles", explica Alde'emeh, que conta que algumas famílias leem seu livro e o procuram: "Elas sabem ou entendem que não posso fazer nada ou quase nada pelo filho deles, mas que posso oferecer-lhes um ouvido atento."
Ele acredita que a psicologia e a antropologia e, mais amplamente, a difusão do conhecimento sobre o verdadeiro islã, podem ajudar a impedir novas partidas. "É preciso combater a imagem romântica do califado que é difundida pelos extremistas, mas também fazer com que os jovens aceitem sua identidade em nossa sociedade, e que as pessoas aprendam a conhecê-los", defende o acadêmico.
Alde'emeh deverá dar cerca de 30 palestras este ano, e está sendo requisitado por duas cidades da Holanda. "Na Bélgica e em outros lugares os políticos falam muito, mas na verdade fazem pouco", ele acredita. "Só que estamos vivendo um momento crucial, em que a história pode mudar: estamos cometendo outro erro ao acreditar que todos aqueles que têm simpatia pelo Estado Islâmico estão partindo para a Síria. Centenas ou até milhares deles estão aqui e podem, algum dia, ficar tentados a cometer um ataque."
Montasser Alde'emeh não consegue esconder seu pessimismo quanto ao futuro próximo. "Com países árabes que demoram a levar sua população a sério, um conflito estagnado entre Israel e Palestina, uma situação na Síria que me parece descartar qualquer possibilidade de perdão, além de opiniões ocidentais pegas entre extremismos de todo tipo que se retroalimentam, temo que o EI continue tendo um forte poder de atração. É preciso realmente que cada um trabalhe da melhor forma possível para reduzir os riscos", conclui.
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