sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Invasão a site para casados que traem pode ter 'efeito dominó'
Silvia Ayuso - El País
Reprodução
Detalhe do site Ashley Madison, para encontros entre casados
Detalhe do site Ashley Madison, para encontros entre casados
"Pense em como vai afetar sua posição social e sua família." O e-mail de extorsão que estão recebendo alguns usuários do site Ashley Madison, que facilita aventuras extraconjugais e que foi invadido por piratas informáticos que revelaram a identidade de mais de 30 milhões de clientes, não faz rodeios. Os usuários "revelados" sabem que podem perder muito se sua identidade for divulgada, e há quem se aproveite dessa vulnerabilidade para tirar dinheiro ou alguma outra vantagem. 
É o que a polícia de Toronto (Canadá) qualifica como "efeito dominó" em longo prazo, e que já está tendo algumas consequências: segundo as autoridades canadenses, dois recentes suicídios podem estar relacionados à pirataria do site. As extorsões também já começam a ser moeda diária, algumas em bitcoins. E não falta campo para isso.
Somente nos Estados Unidos, os piratas cibernéticos que se escondem por trás do nome de Impact Team revelaram a identidade de cerca de 15 mil militares na ativa e funcionários públicos federais. Segundo a agência de notícias Associated Press, entre os funcionários descobertos há pessoas com cargos "sensíveis", tanto na Casa Branca como no Congresso ou em ministérios chaves para a segurança, como o Departamento de Segurança Nacional.
Na Espanha, três mulheres e dois homens se inscreveram no site com o domínio do Congresso dos Deputados. Essa questão faz temer que essas pessoas possam ser agora objeto de uma chantagem que não seja só econômica.
O secretário da Defesa dos EUA, Ash Carter, disse na semana passada que o Pentágono está estudando com atenção o caso, pois o adultério pode constituir crime no código militar. Também o Departamento de Segurança Nacional qualificou a situação como uma "questão tanto pessoal quanto de segurança" e lembrou que suas diretrizes dizem explicitamente que "ver, baixar, armazenar, transmitir ou copiar materiais sexualmente explícitos ou orientados, relacionados com o jogo, armas ilegais, atividades terroristas ou qualquer outra atividade proibida" constitui um "uso inapropriado" de equipamento de escritório governamental.
A questão é se esses funcionários e militares violaram alguma norma trabalhista ao usar seus computadores de trabalho e até contas de e-mail oficiais para navegar pelo site Ashley Madison. É o que as autoridades estão analisando, porque as linhas são difusas.
"A agência federal [dos EUA] está fazendo um julgamento moral sobre se é correto ou não organizar uma aventura amorosa? Onde se traça a linha do que é aceitável ou não?", perguntava na última terça-feira (25) o advogado especializado Joseph Kaplan no "Washington Post".
O jornal deu como exemplo este paradoxo: se um empregado federal está tendo uma aventura e usa seu e-mail de trabalho para se comunicar com a amante, mas esse caso não começou no Ashley Madison, por que essa pessoa não sofreria qualquer consequência, e sim um dos clientes do site canadense? Além disso, apontam especialistas, nem todos os usuários do site procuravam necessariamente enganar seu parceiro por meio deste.
A pirataria também está tendo consequências legais para a Ashley Madison e sua empresa irmã, Avid Life. Na semana passada, um escritório de advogados apresentou na Suprema Corte de Justiça de Ontário (Canadá) uma queixa coletiva reclamando quase US$ 600 milhões às duas empresas por violação da privacidade dos clientes canadenses.
Um dos demandantes é um viúvo que afirma que se inscreveu no site depois da morte de sua esposa, por câncer. A Avid Life ofereceu uma recompensa de quase US$ 400 mil para quem oferecer informação sobre os hackers.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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