Programa espacial brasileiro volta à estaca zero
Fracasso do projeto com a Ucrânia para o
lançamento de foguetes, após anos de investimentos, revela erros, viés
ideológico e incompetência
O Globo
O cancelamento da parceria aeroespacial com a Ucrânia, formalizado pelo
governo brasileiro no último dia 16, pode ser classificado como a
crônica de uma morte anunciada. Em fevereiro deste ano, reportagem do
GLOBO já havia previsto o fracasso. Produto do delírio megalômano do
governo Lula, o projeto de construção do foguete Cyclone-4 jamais
decolou, consumiu cerca de R$ 500 milhões do contribuinte brasileiro e
deixou como esqueleto as obras inconclusas da base de lançamento em
Alcântara (MA), a cargo de um consórcio formado pelas empreiteiras
Carmargo Corrêa e Odebrecht — sem licitação.
A parceria com a Ucrânia foi criada em 2003, mediante a Alcântara
Cyclone Space (ACS), empresa binacional constituída para oferecer o
serviço de lançamento de satélites. O programa nasceu após a explosão,
naquele ano, do Veículo Lançador de Satélites, foguete brasileiro que
nunca chegou ao espaço. O acidente resultou na morte de 21 pessoas,
entre técnicos e engenheiros da cúpula do programa espacial brasileiro.
À época, o presidente Lula garantira que o programa espacial
brasileiro continuaria e, meses depois, o acordo com a Ucrânia foi
anunciado. Por meio dele, o governo reforçava a ideologia que passara a
orientar a diplomacia do país, com ênfase em relações do tipo Sul-Sul,
ao custo de alianças com parceiros tradicionais, como os Estados Unidos.
O projeto do Cyclone-4 foi idealizado pelo então ministro de Ciência e
Tecnologia, Roberto Amaral, que assumiria em seguida a presidência da
ACS. Em 2011, ele foi demitido pela presidente Dilma Rousseff.
Segundo o acordo, a Ucrânia proveria o foguete Cyclone-4, de 40
metros de comprimento, com capacidade para transportar satélites de
quatro toneladas a cerca de 400 quilômetros da Terra. O Brasil
forneceria a base de lançamento, no Maranhão, a 60 quilômetros de São
Luís. Um local estratégico, cuja proximidade à Linha do Equador reduz
enormemente o custo de lançamento do foguete.
Desde
o início, porém, a iniciativa enfrentou toda sorte de entraves, da
falta de alocação de recursos por parte da Ucrânia a litígios com grupos
quilombolas na área originalmente destinada à construção da base. Além
disso, embora o preço de lançamento comercial de satélites varie em
torno de US$ 40 milhões, a equação, considerando os investimentos
adicionais necessários e a realidade do mercado, desaconselhava a
empreitada. A crise econômica brasileira foi a pá de cal.
E, assim, o programa espacial brasileiro volta à estaca zero. Resta
observar se a lição foi aprendida, e o projeto de lançamento de foguetes
seja refeito dentro de parâmetros factíveis, com parceiros tecnológica e
economicamente capacitados.
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