Cada dia, sua batalha, perdida
Mesmo com reforma ministerial, tumulto político e, pois, financeiro arde em outras frentes
Vinicius Torres Freire - FSP
CADA DIA de ontem tem parecido um passado muito remoto. Faz uns dez
dias, o governo mandou ao Congresso seu plano de recriar a CPMF, que
levantaria metade do dinheiro do pacote fiscal do desespero, anunciado
não faz nem três semanas. Em que pé está a tramitação da CPMF? "Por
aqui, nada está dando pé, a pororoca está levando tudo", dizia um líder
parlamentar petista e ainda governista (sic).
Na quarta-feira, em tese chegou-se ao arranjo de abdicação por meio do
qual Dilma Rousseff teria abdicado parcial e explicitamente de seus
poderes em troca da postergação da guilhotina. O acordão deve ser
anunciado e promulgado hoje. Nesse ínterim, passou-se uma eternidade
política, judicial e policial.
Antes de mais nada, não se sabia se os termos do contrato de concessão
parcial mais imensa do governo ao PMDB incluía a cláusula de apoio aos
vetos presidenciais a aumento de gastos lunáticos e menos ainda ao
pacote de remendo fiscal de emergência. Agora, a incerteza parece ainda
maior.
Considere-se o dia de ontem.
Primeiro, não se sabe o que será do comando e do ritmo dos trabalhos da
Câmara, dado que seu presidente, Eduardo Cunha (PMDB), está à beira de
ser acusado de evasão de divisas, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro,
corrupção e, parece menos importante mas não deveria, de ter mentido a
uma CPI sobre o fato de ter contas no exterior, contas suas e de sua
família, segundo promotores suíços. No caso de haver confirmação das
contas suíças, Cunha será lentamente escanteado ou vai se imolar, se
explodir feito um homem-bomba, no meio do Congresso?
Segundo, um terço dos deputados federais do PMDB afirmaram ontem que não
ratificam o acordão com Dilma Rousseff, ao contrário, até. Isto é,
ainda que a divisão peemedebista continue um empecilho ao impeachment,
há grande risco de volta ao caos financeiro visto na semana passada,
pânico que poderia ser revivido em caso de derrotas do governo na
aprovação dos remendos mínimos das contas públicas.
Terceiro, policiais e procuradores chegam cada vez mais perto da família
de Lula da Silva e dos rolos do financiamento da campanha eleitoral de
Dilma. O que se passa no caso de prisão de um filho de Lula?
Quarto, está confirmado que o governo não vai conseguir privatizar os
negócios de seguros da Caixa Econômica Federal. Seriam apenas alguns
"poucos" bilhões em impostos, mas o governo está catando moedas no fundo
de gavetas e no bolso de casacos a fim de reduzir seu deficit. Pelo
jeito, fica para as calendas também a venda da resseguradora IRB. Mais
importante, fica ainda mais nebulosa a possibilidade de levantar
dinheiro com outras privatizações e concessões.
Quinto, soube-se nesta semana que é remota a hipótese de o governo
atingir mesmo sua minimeta de superavit primário para 2015, dados os
números de receitas e despesas de agosto. A julgar pelos resultados de
vendas e produção, as perspectivas da arrecadação ordinária daqui ao fim
do ano parecem ainda piores. Soube-se ontem que a venda de veículos
continua a cair cada vez mais rápido, tendo decrescido 22,7% até
setembro (em relação a igual período do ano anterior).
Sim, estamos falando apenas dos problemas novos de ontem.
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