sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Coalizão sugerida por Putin para acabar com o EI é uma postura retórica
Alain Frachon - Le Monde
Matt Campbell/Efe
Vladimir Putin tem razão, o mundo inteiro deveria combater o EI (Estado Islâmico). Para uma situação simples, uma resposta simples: de um lado, o regime de Bashar al-Assad, mal colocado no ranking da Anistia Internacional, mas um mal menor; do outro, a barbárie absoluta do jihadismo, que está destruindo o Oriente Médio. A escolha é óbvia, disse esta semana à ONU o presidente russo: uma ampla coalizão internacional apoiando Assad e contra o EI. Isso deveria ser algo tão claro quanto uma vodca bem gelada, mas não é. E por quê?
O EI, que surgiu do desastre da intervenção americana no Iraque em 2003, tem se alimentado da tragédia síria, que por sua vez é multidimensional e não se reduz ao conflito entre Damasco e o EI. Ela não é somente uma guerra civil entre sírios, é uma guerra regional. Assad quis assim. Com o apoio infalível de seu padrinho russo e seu mais próximo aliado, o Irã, a Síria tem sido o palco principal de um enorme confronto regional e religioso: sunitas (maioritários do islã) contra xiitas (minoritários). O elemento-chave da situação é que, sem a ajuda militar maciça da República Islâmica, o regime de Damasco teria ruído, e hoje ele é mais do que nunca dependente da Rússia, é claro, mas também do Irã.
Visto do Cairo, de Riad, de Ancara ou de Doha, Bashar al-Assad não é nenhum modelo de laicidade. Ele é o peão da teocracia xiita iraniana na região, o diabo para os sunitas. A outra teocracia local, a Arábia Saudita, pretende ser a líder do mundo árabe sunita contra essa teocracia xiita, somando-se à Turquia (outra potência sunita). Eles têm suas próprias prioridades. Por fim, enquanto o Kremlin apoia o regime de Damasco, os Estados Unidos cuidam de seus aliados tradicionais na região, os sunitas.
Uma breve revisão dos atores da tragédia síria ajuda a se ter uma ideia de sua complexidade e levanta dúvidas sobre a sinceridade da oferta de Putin.
- O campo sunita. Assim como os Estados Unidos e os europeus, em 2011 ele acreditou em uma queda rápida de Bashar al-Assad, líder de um clã alauíta (uma dissidência do xiismo) no comando de um país majoritariamente sunita. Decepcionados, turcos, sauditas e qataris apostaram no jihadismo, armando muitos grupos de rebeldes islamitas, inclusive o EI. Eles pretendiam desestabilizar Damasco e conter aquilo que eles percebiam como o avanço do imperialismo persa-xiita na região. Em sua ação desastrada passaram a se ver ameaçados pelo jihadismo, e agora integram a coalizão anti-EI liderada pelos Estados Unidos. Eles querem de fato ampliar a mencionada coalizão, mas não se para isso tiverem que manter Assad no poder, esse "agente iraniano". Eles veem com preocupação o reforço militar russo na Síria.
- Israel. Os dirigentes israelenses têm a mesma percepção que os sunitas. Os comandantes das forças armadas israelenses acreditam que o EI não seja uma ameaça prioritária para seu país. Para eles, o Irã é o principal perigo. Eles acusam Teerã de fornecer a seus seguidores do Hezbollah um arsenal de mísseis que a milícia xiita libanesa, enviada para a Síria a serviço de Assad, tem empregado para abrir um segundo front contra Israel. As forças aéreas russas hoje posicionadas na Síria vão limitar a margem de manobra da aviação israelense contra o Hezbollah.
- O campo xiita. A República Islâmica é uma mistura de proselitismo xiita-revolucionário com o antigo imperialismo regional persa. A Síria do clã Assad é um de seus principais pontos de apoio árabes para exercer sua influência no Oriente Médio. Um governo majoritariamente sunita em Damasco desfaria a aliança tecida com Teerã, o que explica os esforços feitos pelo Irã para ajudar o regime de Assad. O Irã mobilizou o Hezbollah, milícias xiitas iraquianas e até recrutou uma milícia xiita afegã. O objetivo seria consolidar um "arco xiita" cuja continuidade territorial fosse do Golfo ao Mediterrâneo, diz o analista político Joseph Maila, "através dos xiitas do Iraque, dos alauítas da Síria e dos xiitas libaneses do Hezbollah."
- Os Estados Unidos e os russos. Eles têm interesses em comum na Síria. Eles querem o fim do EI e não desejam o colapso das estruturas estatais sírias ou o que resta delas, com medo de um caos ainda mais terrível. Até o momento, somente os Estados Unidos, seus aliados franco-britânicos e, de vez em quando, sauditas e qataris, bombardearam os jihadistas. Os russos só agora estão começando a se envolver, mas nada garante que o Kremlin tenha começado a estabelecer uma base aérea na Síria somente com esse fim. Putin tem outros objetivos: proteger o feudo do clã alauíta, posicionar a Rússia como nação indispensável para qualquer solução na Síria, consolidar seu papel de grande potência na região etc.
Putin sugere que uma coalizão internacional estendida (até a Rússia ou o Irã?) se apoie no Exército de Damasco para acabar com o EI. É menos uma estratégia do que uma postura retórica, uma vez que é difícil de imaginar os grandes países sunitas participando de tal união, a menos que se obtenham garantias sobre a Síria no futuro. Os únicos que hoje estão combatendo em solo o EI na Síria são as outras frentes da rebelião, todos fortemente islamitas, e os curdos sírios, marxistas-leninistas, cada um com seus motivos.
É esse o imbróglio. Nem os americanos, nem os russos possuem qualquer estratégia para imaginar junto com os países da região o que parece ser um pré-requisito para um combate decisivo contra o EI: o esboço de um acordo dentro da guerra civil síria.

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