sábado, 3 de outubro de 2015

Fraqueza do Exército sírio levou à intervenção militar russa
IAN BLACK - "THE GUARDIAN"
A fraqueza militar da Síria, exposta dolorosamente ao longo dos últimos meses, é o principal motivo para a intervenção militar direta da Rússia na guerra –quer seu objetivo seja atacar o Estado Islâmico, quer seja, como é mais provável, atacar quaisquer forças rebeldes que estejam combatendo Bashar al-Assad.
Funcionários de governos e analistas dizem que Moscou decidiu aprofundar seu envolvimento depois da queda das cidades de Idlib e Jisr al-Shughour, no norte da Síria, em maio, o que serviu como alerta sobre o estado lastimável do Exército sírio. A decisão russa foi causada em parte pelo outro grande aliado de Assad, o Irã.
"Os iranianos disseram sem meias palavras aos russos que, se eles não interviessem, Assad cairia, e que eles não estavam em posição de fazer coisa alguma que o sustentasse", disse um diplomata baseado em Damasco.
Os efetivos do Exército sírio, segundo estimativas, teriam caído de 300 mil soldados antes da guerra para entre 80 mil e 100 mil agora.
Fadiga, deserções e perdas causaram forte redução de poder de combate, e a natureza sectária do conflito também influenciou a situação.
Soldados alauitas, antes totalmente leais ao presidente, agora já não se dispõem a lutar por áreas sunitas, mas apenas para defender seus lares.
Guardar a capital e as áreas rurais que a cercam é prioridade, mas a escassez de efetivos se traduz em relutância quanto a combater em áreas urbanas. Assim, o subúrbio de Jobar está em poder de combatentes islâmicos que atiram com morteiros contra áreas controladas pelo governo.
Zabadani, cidade estratégica na fronteira com o Líbano, só foi recapturada com a ajuda do Hizbullah e de um grupo palestino leal a Assad.
Assad tratou de suas dificuldades com rara franqueza em discurso em julho, admitindo escassez de efetivos e que teve de abandonar áreas para melhor defender a área de Damasco a Homs e o reduto dos alauitas em Latakia.
Tendo em conta essa lógica, fazia muito sentido ceder Raqqa, a "capital" do EI, e posições isoladas como Palmira.
Ainda assim, uma política descrita oficialmente como reposicionamento não passa de uma "racionalização a posteriori para a derrota", comentou um consultor estrangeiro bem conectado.
O desgaste é aparente: os soldados da guarnição da capital fazem bicos como motoristas de táxi e se queixam dos baixos soldos, erodidos pela alta acelerada dos preços.
As autoridades sírias dizem que a Jabhat al-Nusra, afiliada local da Al Qaeda, paga muito melhor que as forças do governo.
Outro fator para o declínio do Exército foi a criação da Força de Defesa Nacional, organização de base local com 125 mil integrantes treinada e paga pelos iranianos, que também favorecem o uso de combatentes xiitas do Iraque, do Paquistão e do Afeganistão, bem como do Hizbullah.
O poderio aéreo russo é visto em Damasco como um grande reforço –para missões de combate e para a obtenção de informações melhores.
Especialistas dizem que, a despeito da destruição e das mortes que causam nas áreas rebeldes, os envelhecidos aviões e helicópteros de combate da Síria têm valor limitado para operações táticas.
Os rebeldes estão convencidos de que a intervenção russa significa apoio total a Assad, e que, crucialmente, não haverá distinção entre os diferentes inimigos.

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