sábado, 3 de outubro de 2015

NOTÍCIA BOA: PORTUGAL ESTÁ SAINDO DA CRISE

O milagre português: jovens empreendedores conduzem o país para fora da crise
Helene Zuber - Der Spiegel
Reprodução/Facebook
O terraço panorâmico com vista nos prédios na Cidade Velha de Lisboa brilha com o sol do entardecer. Casais se aconchegam nos bancos, músicos de rua tocam melodias brasileiras no saxofone, o rio Tejo flui abaixo e uma estátua gigante de Jesus pode ser vista na outra margem. Tanto turistas quanto moradores locais erguem seus celulares no ar enquanto tentam fotografar as vistas mais bonitas. Então caminham até o utilitário Piaggio Ape de propriedade de Mónica Santos e João Reis.
Os dois portugueses montaram o Mariá Limão, um food truck que vende limonada e crepes caseiros, em meados de julho. Originalmente, Mónica, 33, trabalhava como assistente social, mas perdeu seu emprego durante a crise da divida. O mesmo aconteceu com seu amigo Reis, 38, que estudou matemática e marketing na faculdade. Nenhum deles queria deixar o país como fizeram tantos outros de sua geração. E não queriam desistir, recostar e aceitar as coisas facilmente, mudando-se de volta para a casa dos pais.
Quando souberam que a prefeitura de Lisboa estava permitindo que as pessoas montassem negócios usando Tuk-Tuks ao estilo asiático, eles tomaram emprestado 30 mil euros junto às suas famílias e banco e compraram um Piaggio Ape e o equipamento de cozinha que precisavam para seu negócio. Mónica sempre gostou de cozinhar e agora se vê passando 10 horas por dia em pé, se revezando com Reis na chapa de crepe e no espremedor. Eles preparam os ingredientes na noite anterior.
Santos e Reis já recuperaram metade de seu investimento. Com as coisas indo tão bem, Reis também está considerando montar um segundo caminhão de comida na praia, em sua cidade natal na região de Algarve, onde costumava servir os turistas quando era menino, no restaurante de seus pais. Ele diz que gostaria de empregar os amigos desempregados lá.
Afinal, eles não são os únicos que perderam empregos. Quando o país teve que recorrer à União Europeia para um resgate em 2011, Portugal foi forçado a implantar medidas severas de austeridade. Cerca de 485 mil portugueses, particularmente jovens com diploma superior, deixaram o país durante a crise para tentar encontrar oportunidades no exterior. Eles foram para a Alemanha, Brasil e até mesmo para Angola, uma ex-colônia na África.

Energia empresarial e um novo espírito

Cerca de 60% voltaram rapidamente. Outros nunca deixaram o país, com muitos deles tentando encontrar uma forma de ganhar a vida após se verem desempregados. Eles assumiram riscos e montaram seus próprios negócios, reinventando produtos tradicionais, abrindo hotéis e restaurantes incomuns. Eles desenvolveram softwares e se tornaram estilistas de moda. Ao fazê-lo, eles também transformaram Lisboa em um dos destinos de viagem mais populares da Europa, criando ao mesmo tempo uma ascensão econômica inesperada e ajudando a por um fim às dificuldades do país.
A transformação é particularmente aparente em Lisboa, mas também em muitos outros lugares. É possível vê-la na Embaixada, um palácio do século 18 que foi convertido em um shopping center chique no bairro histórico de Lisboa. É uma loja conceito coletiva e serve como uma espécie de embaixada para os melhores produtos feitos em Portugal.
"Ficar apenas sentada em casa não era a resposta", disse Raquel Guedes, 29 anos. "Se você não consegue encontrar nada em seu próprio campo, então é preciso fazer outra coisa." Raquel começou como professora de uma escola maternal e passou vários anos cobrindo outras mulheres em licença maternidade. Mas ela acabou se cansando disso e decidiu produzir sua própria linha de roupas infantis. Agora ela aluga uma pequena loja dentro da Embaixada.
O estado de espírito geral em Lisboa, às vésperas das eleições parlamentares de Portugal deste domingo, é alegre. O índice de desemprego caiu de 17% em 2012 para 12%. A receita tributária do governo é forte e quase duas vezes maior do que o que foi levantado por meio das privatizações acertadas com os credores do país. No ano passado, Portugal conseguiu encerrar seu programa de ajuda e passou a levantar por conta própria dinheiro junto aos mercados. De lá para cá, a economia passou a crescer de modo constante, um crescimento de 1,6% neste ano –um número maior que a média da zona do euro. É até mesmo possível que o país atinja sua meta de deficit de 3% do produto interno bruto.
É um dado útil para a atual coalizão de governo –formada pelo Partido Social Democrata conservador e pelo Partido Popular de centro-direita, pró-negócios– porque seus líderes podem apontar que, após quatro anos difíceis, conseguiram conduzir com sucesso Portugal para fora da crise. É claro, não foi fácil: o governo elevou significativamente os impostos, liberalizou o mercado de trabalho, demitiu funcionários públicos, reduziu os salários dos que foram mantidos, assim como as pensões e serviços sociais. Isso também fez com que o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, 51, ganhasse a reputação de ser um grande pupilo insensível da chanceler alemã Angela Merkel. Todavia, ele espera que os portugueses o recompensem por seu sucesso.
Mas esse é apenas o lado econômico do milagre português. A crise também desencadeou uma nova energia nos portugueses –ela varreu as velhas estruturas e também abriu as portas para um novo espírito no país. A prefeitura de Lisboa também exerceu um papel importante. Há cinco anos, a capital começou a dar apoio aos jovens empreendedores, criando uma rede de contatos, fornecendo acesso a investidores, em grande parte no exterior. O prefeito António Costa, que agora está concorrendo como candidato do Partido Socialista a primeiro-ministro, serviu como força motriz.
A prefeitura fundou a incubadora Start-Up Lisboa, que produziu mais de 250 empreendedores e criou 800 novos empregos. A Prefeitura também ajudou a disponibilizar espaço para escritório, com os programadores e desenvolvedores de software agora trabalhando em três prédios reformados no centro histórico da cidade. Aqueles que trabalham em turismo, comércio e moda estão centrados em torno da magnífica Avenida da Liberdade. Recentemente, um centro para artistas foi aberto aos pés da fortaleza que se ergue sobre a cidade. O Comitê de Regiões da União Europeia concedeu à cidade seu título de "Região Empreendedora Europeia do Ano" de 2015.
Há razões por trás da história de sucesso. As pessoas possuem alta escolaridade em Lisboa e os salários são mais baixos do que em outras áreas metropolitanas europeias, assim como o custo de vida. Capital inicial que desapareceria em poucas semanas em Londres pode ser suficiente para financiar uma empresa por todo um ano aqui. A cidade está superando até mesmo concorrentes como Amsterdã e Barcelona. Lisboa será a sede pelos próximos três anos da Web Summit, uma das maiores conferências de empresas de Internet para jovens empreendedores do setor, com previsão de 40 mil participantes.

"A crise foi uma oportunidade"

Isso também é importante, porque grande parte das 108 novas empresas que são criadas no país a cada dia estão ligadas ao setor hoteleiro. As receitas apenas do turismo aumentaram 12% neste ano.
"A verdade é que a crise foi uma oportunidade", disse Duarte D'Eça Leal. Ele tem apenas 30 anos, mas dirige um dos hotéis mais descolados de Lisboa –um albergue de luxo cujo nome diz tudo: o Independente. Do bar na cobertura, ele vê os prédios coloridos na Colina do Castelo. Ele nunca sonhou que algum dia dirigiria um hotel.
Quando tinha 15 anos, D'Eça Leal foi para um internato em Oxford e posteriormente estudou na London Business School. Uma década depois, ele iniciou sua carreira em uma grande empresa imobiliária no Reino Unido. "Mas eu sentia que algo estava faltando", ele disse. Ele então decidiu que preferia investir seu talento em Portugal e tentou implantar suas ideias em casa. "Eu sentia que Portugal tinha muito potencial", ele disse.
No final de 2011, ele e seus irmãos reformaram o velho palácio nos limites do Bairro Alto e abriram um albergue e suítes para viajantes. Agora ele é dono de mais de uma dúzia de espaços para dormir, com tudo, de beliches a quartos duplos e suítes, todos cheios de móveis antigos e tecidos finos das tecelagens portuguesas. Também há dois restaurantes localizados no interior do Independente.
Estabelecer a operação não foi tarefa fácil, considerando que, no momento em que o Independente abriu, o governo conservador aumentou o imposto sobre vendas de 13% para 23%. O aumento do imposto forçou muitas empresas familiares a fecharem as portas, mas o Independente não apenas perseverou, como também conseguiu crescer, com os irmãos agora comprando um prédio vizinho e empregando um total de 120 funcionários. O sucesso de D'Eça Leal é o produto de sua própria iniciativa criativa. Mas ele também foi ajudado por um programa do governo que financia estágios para jovens desempregados, que paga por metade do custo deles por nove meses. A única condição do programa do governo é que pelo menos um entre três estagiários seja contratado ao final do programa. "Nós podemos treinar as pessoas pela metade do custo e então podemos escolher os melhores", diz D'Eça Leal.
Filipa Neto, 25, poderia ter aberto sua empresa em qualquer lugar na Europa. E ela de fato registrou a sede de sua empresa em Londres, mas Filipa e seus 13 funcionários estão baseados em Lisboa. Ela compartilha a visão de muitos outros jovens empreendedores de que o país está se desenvolvendo positivamente, apesar de todas as dificuldades dos últimos anos. Ela diz que deseja permanecer em Portugal e contribuir com sua parte para promover a recuperação econômica.
Há um ano e meio, Filipa abriu a Chic by Choice, uma empresa que oferece roupas de luxo para aluguel online. Ela obteve meio milhão de euros em capital de risco para lançar a empresa, uma grande responsabilidade para uma mulher jovem. De seu escritório em Lisboa, que foi fornecido pela prefeitura, os funcionários da Chic by Choice compram e enviam alta costura por toda a Europa.
A empresa é tão bem-sucedida que Filipa busca contratar duas novas pessoas a cada mês. E isso não é tudo, ela diz com um sorriso: em agosto, ela adquiriu uma concorrente alemã.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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