sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O guia para entender a visão de Vladimir Putin para a história mundial
Masha Gessen - TINYT
Vladimir Putin esteve na Assembleia Geral das Nações Unidas para exigir que a Rússia seja levada a sério e tratada como parceira igual pelas grandes potências mundiais. Em preparação para sua visita, nas últimas semanas a Rússia expandiu sua presença militar na Síria, se manteve quieta na Ucrânia e até mesmo recuou em sua campanha doméstica antigays –tudo na esperança de retomar seu lugar à mesa.
No final, o Kremlin teve sucesso em convencer o presidente Obama a se encontrar com Putin. Porém mais que qualquer outra coisa, o presidente russo teve sucesso em expor sua visão de mundo em Nova York para que todos ouvissem. Ele fez isso seriamente, raramente erguendo seus olhos do texto preparado. Após falar por mais de 20 minutos, ele se sentou, com suas pernas bem fechadas de forma não característica. Enquanto aguardava pelo começo da habitual rodada de apertos de mão, ele mordeu seu lábio e mexia em seu relógio.
O maior e mais perigoso inimigo no mundo de Putin são os Estados Unidos. É um inimigo tão sinistro que seu nome não pode ser proferido: seu discurso criticou o comportamento americano sem citar o país, referindo-se aos americanos como "aqueles que criaram a situação" na Síria, e como forasteiros que provocaram um golpe armado na Ucrânia.
Segundo a leitura de Putin da história –na qual a Rússia foi fundamental na criação de uma ordem mundial participativa, que os Estados Unidos posteriormente desrespeitou– essas descrições fazem sentido. Ele alegou que a Organização das Nações Unidas (ONU) foi fundada na Conferência de Ialta de 1945, um evento momentoso que ocorreu "em nosso país", na Península da Crimeia. Trata-se de uma versão altamente seletiva dos eventos: a ONU na verdade traça sua fundação a um acordo assinado pelos representantes de 14 governos em 12 de junho de 1941, quando a União Soviética ainda era uma aliada da Alemanha nazista. De qualquer modo, a ONU não reconhece a anexação da Crimeia por Putin em 2014, de modo que a referência de Putin a "nosso país" foi um equívoco –a menos que ele visasse se posicionar como um representante da União Soviética.
Seguindo por essa linha, o presidente russo criticou a geopolítica assimétrica que surgiu com o fim da Guerra Fria, quando um certo país passou a pensar em si mesmo como todo poderoso. Sem citar nomes, Putin apontou o dedo para "aqueles que acabaram no topo", que pensaram que por serem "fortes e excepcionais" "sabiam mais" do que os outros e que podiam ignorar a ONU, que apenas "ficava no caminho".
Em sua visão, o senso de excepcionalismo dos Estados Unidos, e sua resultante exportação de "chamadas revoluções democráticas" que causaram caos e violência, ameaça a ordem mundial protegida pela ONU. É verdade, a União Soviética cometeu erros semelhantes, notou Putin –mas os (ainda não citados nominalmente) Estados Unidos deveriam ter aprendido com o passado soviético. Infelizmente, ele conclui, não aprenderam.
Aqui Putin traçou uma rara distinção entre a Rússia contemporânea e a União Soviética. Apesar da Rússia ter tomado território de dois de seus vizinhos –a Ucrânia e a Geórgia– e apoiado ativamente a oposição radical em vários países europeus, a Rússia não se vê como expansionista, segundo Putin. Sua ideologia é baseada na ideia de um choque de civilizações –uma de "valores tradicionais" versus o Ocidente– e a Rússia apenas busca proteger a primeira.
Em sua interpretação, os Estados Unidos são um poder expansionista. "Primeiro eles buscaram uma política de expansão da Otan (a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental)", disse Putin, agora referindo-se ao inimigo como "nossos colegas". Ele disse que foi essa "lógica de confronto" que produziu "uma grande crise geopolítica" na Ucrânia, onde "o fato de grande parte da população estar descontente com o atual governo" foi explorado para incitar um confronto armado. No final, ele disse, essa crise –que ele chamou de "guerra civil"– foi o resultado de um golpe "orquestrado externamente".
Na visão de Putin, também foi isso o que aconteceu na Síria: os Estados Unidos ficaram do lado dos manifestantes que tomaram as ruas em 2011, e isso inevitavelmente levou ao caos. "Eu tenho quase vontade de perguntar àqueles que a começaram: 'Agora vocês entendem o que fizeram?'" disse Putin. "Mas temo que essa pergunta passará sem ser respondida, porque eles mantêm uma política baseada no excesso de confiança, no excepcionalismo e na certeza da impunidade."
A forma de lidar com a Síria e a crise dos refugiados, ele disse, é apoiar "o governo legítimo da Síria", que para ele é o regime Assad. Aqui, de novo, ele estava articulando sua própria posição nas negociações que se aproximavam com Obama. Putin acredita firmemente que os Estados Unidos estiveram por trás tanto do levante sírio de 2011 quanto nos meses de protestos que ocorreram na Ucrânia no final de 2013, e que isso levou à catástrofe. Ele também acredita que os Estados Unidos apoiaram aqueles que protestaram em Moscou e em outras partes na Rússia em 2011, e que apenas graças à sua mão firme um destino semelhante foi evitado em seu país.
No fim, Putin propôs a criação de uma coalizão internacional antiterrorista que poderia, "como a coalizão anti-Hitler, reunir uma ampla gama" de forças –incluindo o governo sírio– para combater o Estado Islâmico. Esse retorno ao tema da Segunda Guerra Mundial serviu não apenas para lembrar à Assembleia Geral sobre as origens da ONU, mas ressaltar o fato de que, historicamente, a luta contra um mal maior já compeliu as nações a deixarem de lado suas diferenças. Em seu cenário, a luta contra o Estado Islâmico é um bom motivo para deixar de falar da Ucrânia.
Antes de seu unir à coalizão anti-Hitler em 1941, a União Soviética anexou partes da Finlândia e da Polônia, e toda Letônia, Lituânia e Estônia. Em Ialta, os líderes mundiais concordaram em permitir que Stálin mantivesse tudo isso e exercesse seu domínio sobre o Leste Europeu. Por sua participação na derrota de Hitler, a recompensa da União Soviética foi se tornar uma superpotência. Putin está determinado a fazer com que a Rússia seja novamente reconhecida como superpotência, no mínimo igual aos Estados Unidos na decisão do destino de um país como a Síria. Em nome do combate ao Estado Islâmico, a Rússia deseja que o Ocidente permita que continue cinzelando a Ucrânia e a demonstrar sua força em grande parte da Eurásia. No discurso de Putin, e na mente dele, isso não seria apenas lógico, mas claramente certo.

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