O país da chanchada
Merval Pereira - O Globo
Mas os
pruridos da presidente não resistiram às pressões políticas e o "pau
mandado" sem afinidade com a Ciência e Tecnologia vai mesmo ser o
ministro da área, num país que precisa mais do que nunca da inovação
tecnológica para avançar. Mas isso é um detalhe diante da necessidade de
ganhar um pouco de ar, mesmo que seja poluído. Rebelo tem “peso
político”, e embora seja do PC do B, será nomeado ministro da Defesa.
Por outro lado, o ministro da Educação Renato Janine, que não tem peso
político, mas sem dúvida tinha afinidade com a área, foi demitido em
seis meses do ministério da Educação pela Pátria Educadora, para dar
lugar ao preferido de Dilma, Aloísio Mercadante, que no momento está em
desgraça com o tutor da presidente, de quem nunca foi próximo.
Tivemos
também descobertas assustadoras na Operação Lava-Jato, como o diálogo
via WhatsApp do chefe do cartel de empreiteiras, Ricardo Pessoa, com um
funcionário da UTC, deixando registrada a contabilidade criminosa para a
campanha presidencial de reeleição de Dilma Rousseff.
Eles
doavam legalmente ao PT, com registro no TSE, e descontavam o montante
do dinheiro que saía desviado da Petrobras. Essa troca de mensagens, que
mais uma vez demonstra a certeza da impunidade de todos os envolvidos, é
evidência definitiva das ilegalidades que financiaram a campanha
presidencial, e só reforça o processo do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) para a cassação da chapa vitoriosa.
Mas eis que, depois de
pedir vista impedindo a continuação do julgamento, a ministra Luciana
Lóssio simplesmente sumiu de cena, não comparecendo à sessão marcada
para retomar o processo. Sumiu e não deu satisfações. A menos que tenha
ocorrido uma tragédia, é simplesmente um expediente chanchadístico para
protelar a decisão: apertem os cintos, a juíza sumiu.
Outra
notícia inacreditável é a da compra literal de uma medida provisória
para prorrogar os incentivos fiscais a montadoras de automóveis, ainda
no governo Lula. O Estadão informa que dois escritórios foram
contratados pelas montadoras CAOA e MCC para conseguir a MP 471: SGR
Consultoria Empresarial e Marcondes & Mautoni Empreendimentos, que
já eram investigados por atuar para as mesmas montadoras no esquema de
corrupção no Carf.
A MP foi promulgada, mas o Palácio do Planalto
diz que tudo seguiu uma rotina normal, sem interferências. De duas,
uma: ou houve a corrupção, ou o ambiente estava tão contaminado que foi
possível a uns espertalhões dizerem que subornaram os agentes públicos
por uma decisão que sairia normalmente.
Como efeito colateral,
soube-se que Luís Cláudio Lula da Silva, filho de Lula, recebeu 2,4
milhões de reais de um dos escritórios de lobistas que atuaram pela
Medida Provisória 471, que prorrogou incentivos fiscais de montadoras de
veículos. A Marcondes & Mautoni Empreendimentos fez os repasses à
LFT Marketing Esportivo, aberta em 2011 por Luís Cláudio.
O filho de Lula confirmou os pagamentos, mas alegou que realizou “projetos” na área esportiva, sem maiores explicações.
E
last, but not least, descobre-se que o presidente da Câmara, Eduardo
Cunha, o homem que comandará (comandaria?) o processo de impeachment
contra a presidente Dilma, tem várias contas não declaradas na Suíça, no
valor de US$ 5 milhões. É ou não é o país da chanchada?
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