quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prisioneiros do Estado Islâmico dizem que esperavam pela morte quando resgate chegou
Michael R. Gordon - NYT
Michael R. Gordon/The New York Times
Mohammed Hassan Abdullah al-Jibouri, um dos 69 prisioneiros libertados do Estado Islâmico por forças curdas e americanas, chora ao relembrar as execuções de seus amigos na prisãoMohammed Hassan Abdullah al-Jibouri, um dos 69 prisioneiros libertados do Estado Islâmico por forças curdas e americanas, chora ao relembrar as execuções de seus amigos na prisão
Muhammad Hassan Abdullah al-Jibouri tinha pouca esperança de que sairia vivo da prisão do Estado Islâmico e até mesmo ficou sem ver o sol por mais de um mês. Então, ao amanhecer da última quinta-feira, ele ouviu o som de helicópteros no alto.
O policial de 35 anos ouviu rajadas de fogo e gritos em curdo e em inglês. De repente, a porta de sua cela foi arrombada.
"Quem está aí? Quem está aí?" gritou um soldado, primeiro em curdo, depois em árabe.
"Somos prisioneiros!" responderam os companheiros de cela de Al-Jibouri.
Al-Jibouri foi um dos 69 árabes presos pelo Estado Islâmico libertados em uma ação militar perto da cidade de Huwija, no norte do Iraque, na semana passada, a primeira na qual foi confirmada que forças das Operações Especiais dos Estados Unidos acompanharam seus pares curdos no campo de batalha.
Na terça-feira, em suas primeiras entrevistas desde que foram trazidos para a região autônoma curda por helicópteros Chinook americanos, quatro dos ex-prisioneiros descreveram a vida sob o jugo do Estado Islâmico.
Como membros da polícia, ou suspeitos de ligações com o governo iraquiano ou com os Estados Unidos, os homens foram espancados e torturados por militantes durante seu cativeiro. Tudo foi repentinamente revertido por uma missão militar que os encontrou por acaso –a ação visava originalmente libertar combatentes peshmerga (o Exército curdo) capturados.
Após ter sido informado pelos seus guardas do Estado Islâmico que sua execução ocorreria em questão de horas, Saad Khalif Ali Faraj, um policial de 32 anos, disse que passou sua última noite em cativeiro escrevendo uma carta para um sobrinho, pedindo para que ele não arriscasse sua segurança saindo à procura dele.
Após a chegada dos militantes no ano passado, eles foram de casa em casa, tomando armas e dinheiro, lembrou Muhammad Abd Ahmed, 35 anos, que disse que estava de licença do Exército iraquiano quando o Estado Islâmico tomou a cidade. Desarmados e empobrecidos, foi oferecido aos homens sunitas da cidade uma quantia de US$ 50 (cerca de R$ 190) caso se juntassem aos militantes.
Os homens descreveram uma série de restrições rigorosas impostas pelos militantes. Os moradores locais foram instruídos até os mínimos detalhes sobre o que vestir –a bainha das calças tinha que estar na altura do tornozelo, por exemplo– e a posição exata de mãos e dedos durante a oração. A desobediência ou desleixo no cumprimento das regras provocava suspeita, até mesmo surras.
Tentar partir da "área de controle" do Estado Islâmico era outra ofensa que poderia levar a punição severa, disse Ahmet Mahmud Mustafa Mohammad, 31 anos.
Os militantes desconfiavam de qualquer que tivesse servido na polícia ou Exército iraquiano, ou que achassem que pudesse ter qualquer contato com americanos ou curdos.
Os combatentes também tinham uma necessidade crescente de espaço de detenção para as pessoas sob suspeita. Os homens libertados lembraram que os militantes se referiam à instalação em Huwija na qual eram mantidos simplesmente como "Prisão nº 8".
Eles disseram que os novos prisioneiros eram submetidos a um programa metódico de abuso –choques elétricos, agredidos com mangueiras, sufocados com sacos plásticos até perderem a consciência– mesmo sem que alguma pergunta de interrogatório fosse feita. O alimento era escasso: pedaços de pão eram passados pela porta da cela.
Os presos eram mantidos em suas celas dia e noite e eram lotadas: a cela de Al-Jibouri tinha 39 presos, ele disse. E as mensagens do Estado Islâmico eram incessantes. Havia um aparelho de televisão na cela que era usado para exibir os vídeos do Estado Islâmico de decapitações, aos quais os cativos eram forçados a assistir.
Muhammad prestou serviço para um programa de ajuda do governo americano em Diyala. Mas ele diz que se tornou alvo de suspeita devido a uma disputa em torno de dinheiro com outro morador de Huwija, que tentou se vingar o denunciando a um primo que se juntou ao Estado Islâmico.
A rodada inicial de espancamentos que ele suportou logo após ser preso aparentemente não visava a extração de informação. "Era como um processo", disse Muhammad.
Ahmed disse ter sido torturado tão impiedosamente e considerar sua situação tão sem esperança que decidiu acabar com o abuso assinando uma confissão com sua impressão digital, apesar de que aquilo selaria sua morte.
Faraj disse se tornou suspeito porque uma de suas duas esposas era curda. O irmão dele já tinha chamado atenção dos militantes e foi decapitado. "Eles me deram a cabeça dele, mas não seu corpo", ele lembrou.
Acusado de fornecer informação aos peshmerga, ele foi preso pelo Estado Islâmico, que também insistiu que se divorciasse de sua esposa curda e mãe de seus cinco filhos. Ele se recusou.
Quando os soldados curdos e americanos invadiram a prisão, Al-Jibouri disse que sentiu que suas orações foram atendidas. "Nós tivemos muita sorte", ele disse.
Ele e os demais prisioneiros foram levados à cidade de Irbil, onde se encontraram na terça-feira com Massoud Barzani, o presidente da região autônoma curda.
Seis militantes do Estado Islâmico que também foram presos por várias ofensas e que também foram retirados de Huwija pelos soldados americanos e curdos tiveram uma recepção diferente: após terem sido identificados por outros prisioneiros, eles foram levados pelos curdos para interrogatório.
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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