Leonídio Paulo Ferreira - DN
Moscov Selim é o título de uma novela de Georgios Vizyenos, um escritor grego da segunda metade do século XIX. É também o nome da personagem principal do livro, um fiel súbdito do sultão otomano que ficara a admirar todas as coisas russas desde que fora feito prisioneiro numa das muitas guerras entre os dois impérios. Ao juntar o nome claramente islâmico Selim a outro russo óbvio, o autor, um homem da sua época, pretendia chocar. Nem num nome nem em mais nada, tirando os campos de batalha, turcos e russos eram capazes de se juntar. Eram os tempos da cobiça por Constantinopla (atual Istanbul) e da luta pelo controlo do Bósforo.
Ora,
isto foi no século XIX e estamos já no XXI, e há quase cem anos que
deixou de haver sultão e czar, mesmo que hoje Erdogan e Putin exibam um
estilo autoritário que dá azo a todas as analogias. E assim, por muito
que a história deixe entender que os mundos turcos e russo estão
destinados a confrontar-se, nada é inevitável.
Mesmo
no século XX já se tinha percebido que aconvivência era possível,
quando a União Soviética se tornou o primeiro país a reconhecer a
república proclamada por Ataturk, mesmo que estivessem depois em lados
opostos da Guerra Fria. E sobretudo na última década a aproximação entre
a Turquia e a Rússia pós-soviética parecia um dado adquirido, a ponto
de as duas economias apostarem uma na outra com entusiasmo: os russos a
fornecer gás e turistas, os turcos, com uma indústria e agricultura mais
diversificadas, a abastecerem os mercados de uma Rússia cada vez mais
consumista.
Os pontos de tensão não
desapareceram, chamassem-se Chechénia ou Arménia (sempre o tal peso da
história e das velhas solidariedades étnico-religiosas). Mas mesmo a
diferença de posições na guerra civil na Síria, iniciada em 2011, não
travara a cooperação. Erdogan queria Assad fora o mais rápido possível e
apoiava os rebeldes, Putin defendia-o na ONU e fornecendo armas, mas os
dois líderes, talvez por serem tão fortes e tão semelhantes,
entendiam-se, até se admiravam. E isto durou no mínimo até setembro
deste ano, quando o presidente Putin convidou o presidente Erdogan para
assistir em Moscovo à inauguração de uma grande mesquita (como Moscov
Selim ficaria feliz!).
Com os aviões
russos agora a virem em socorro de Assad, o único aliado de Moscovo no
Médio Oriente, o choque aconteceu e era previsível. Um interesse
nacional perante outro interesse nacional, com os turcos a manterem a
vontade de ver o fim do regime de Assad e a determinação de não deixarem
os curdos sírios alargar o seu território junto à fronteira e imitarem
assim a semi-independência dos curdos iraquianos.
O
derrube do caça russo pelos turcos e a reação de Moscovo, ameaçando
retaliação séria (?) se voltar a suceder e impondo sanções várias, veio
pôr o novo czar contra o novo sultão. Uma rota de colisão má para a
Europa, má para quem quer mesmo derrotar o Estado Islâmico presente na
Síria, mas sobretudo péssima para os russos e os turcos, as populações.
Com a economia russa em recessão e a da Turquia longe da pujança que
ajudou às sucessivas vitórias eleitorais de Erdogan, o futuro próximo
surge ensombrado - para ambos os países.
O
último czar era um autocrata implacável. O último sultão só pensava
salvar a posição e a pele (teve meio sucesso, ao contrário de Nicolau
II, que não teve nenhum). Putin e Erdogan, que são líderes populares,
deveriam recordar-se que também é interesse nacional a prosperidade e o
bem estar dos povos. Aproveitarem a cimeira do clima em Paris para
arrefecer os ânimos não seria mal pensado.
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