Ben Hubbard - NYT
Tyler Hicks/The New York Times
Semanas após o governo Obama cancelar um programa fracassado do
Pentágono para treinar e armar rebeldes sírios para combater o Estado
Islâmico, as autoridades americanas anunciaram um novo esforço para
equipar novas forças terrestres na Síria para combater os jihadistas.Mas 10 dias de entrevistas e visitas à linha de frente por todo o norte da Síria com muitas das forças na aliança deixaram claro que, até o momento, elas só existem em nome, e que os desafios políticos e logísticos que enfrenta são intimidantes.
Um comandante árabe, sentado próximo do muro oriental que separa Ein Eissa, uma cidade deserta na Síria, da linha de frente do Estado Islâmico (EI), lembrou amargamente de ter sido expulso de sua cidade natal síria pelos jihadistas e disse que faria de tudo para retomar aquele território. Mas então detalhou uma lista das coisas que suas forças precisam: munição, rádios, armamento pesado e mais ataques aéreos americanos.
"Este é o estado de nossos combatentes: tentando combater o EI com meios
simples", ele disse, apontando para um combatente com botas estouradas,
farda esfarrapada e uma camiseta suja estampada com a frase "O skate
arruinou minha vida".
Além dos fatores logísticos iniciais, a nova aliança enfrenta aquele que talvez seja seu desafio mais sério a longo prazo: apesar de sua intenção de retomar território do Estado Islâmico na maioria das áreas árabes, quase todo o poder de combate do grupo vem das milícias de etnia curda.
Essa realidade demográfica provavelmente alarmará ainda mais a Turquia, uma aliada vital dos Estados Unidos que considera a autonomia curda próxima de sua fronteira sul como sendo uma ameaça à segurança. Ela também limita a habilidade das forças de atacar os jihadistas em comunidades predominantemente árabes –os combatentes curdos têm menos motivação para combater nessas áreas e poderiam enfurecer profundamente os habitantes ao fazê-lo.
"A espinha dorsal dessas forças são os grupos curdos, por causa da experiência deles em combater o EI e devido ao seu número", disse Redur Xelil, um porta-voz da principal força curda na Síria, o YPG. Mas ele falou sobre como isso pode ser um fator limitante na luta por cidades como Raqqa, o quartel-general do Estado Islâmico na Síria: "Temos que ser realistas e entender que o YPG não pode ir sozinho até Raqqa, ou as pessoas dirão, 'O que vocês estão fazendo ali?'"
Um porta-voz recém-nomeado para a aliança informou aos repórteres na Síria sob uma bandeira amarela exibindo seu nome em curdo, árabe e assírio. Mas a coletiva ocorreu dentro de uma instalação de uma milícia curda, porque a aliança ainda não tem bases próprias, nem bandeiras para colocar em seus carros ou uma estrutura definida de comando, disse o porta-voz, Talal Sillu.
A força combinada será comandada por um conselho militar composto por seis pessoas, disse Sillu. Mas ele reconheceu que até o momento apenas um membro foi escolhido –o próprio Sillu.
Algumas das forças da aliança já cooperaram antes, mas as relações nem sempre são fáceis. A força militar curda na área significa que os curdos estabelecem a agenda, e muitos claramente menosprezam seus parceiros árabes.
Por sua vez, os combatentes rebeldes árabes temem os laços estreitos de seus parceiros com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que os Estados Unidos, Turquia e outros listam como uma organização terrorista. Eles também desconfiam dos motivos dos milhares de combatentes curdos que vieram para a Síria do Iraque, Turquia e Irã.
"O EI traz combatentes estrangeiros para um Estado Islâmico, enquanto eles trazem combatentes estrangeiros para um projeto curdo", disse um comandante árabe da Brigada dos Revolucionários de Raqqa, que atende pelo nome de Abu Hamza. "Mas se for o que estiverem pensando, eles fracassarão."
Em outra posição perto de Ein Eissa, um arrogante comandante curdo listou as vitórias de sua milícia contra o Estado Islâmico antes de reconhecer que ele –como muitos de seus combatentes– não era sírio. Ele era do Irã e não se incomodava em ser mais outro combatente estrangeiro na guerra civil da Síria.
"Eu vim para trazer democracia, enquanto o EI veio para matar", disse o comandante, Gali Cilo. "Essa é a diferença."
As raízes das forças democráticas sírias estão no canto nordeste da Síria, uma região há muito negligenciada onde vive grande parte da minoria curda da Síria, ao lado de outros grupos étnicos em cidades pobres espalhadas entre plantações de arroz pontilhadas por antigos poços de petróleo.
Enquanto a atenção mundial desde o início do conflito sírio ter se concentrado na luta entre as forças do presidente Bashar al-Assad, os rebeldes sunitas e o Estado Islâmico, os curdos tiraram proveito do caos para estabelecer uma zona autônoma
Um alto oficial militar americano disse que os Estados Unidos encorajaram as milícias curdas a criarem um grupo coordenador que faria mais sentido para o público internacional, e os líderes curdos decidiram chamá-lo de Forças Democráticas Sírias.
Mas o nome do subgrupo de brigadas árabes chamado de Coalizão Árabe Síria foi "uma invenção americana", reconheceu o alto oficial. Ele conta com cerca de 5.000 combatentes, com cerca de 20% deles dizendo que defenderiam suas terras, mas não realizariam uma ofensiva contra o Estado Islâmico.
Enquanto isso, acredita-se que a força curda dominante, o YPG, conte com 40 mil combatentes, incluindo milhares dos países vizinhos e muitos ligados ao fora-da-lei Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
"O YPG é uma força de combate muito eficaz e pode fazer muito", disse Barak Barfi, um pesquisador da Nova Fundação Americana, um grupo de políticas em Washington, que recentemente passou um tempo com as unidades curdas na Síria. "Mas esses grupos árabes são fracos e apenas uma folha de parreira para o YPG."
A aliança buscou ajudar os curdos ao reduzir o temor entre os árabes de uma dominação curda, e os Estados Unidos esperavam que isso minimizaria seu relacionamento estreito com os curdos, para não alarmar a Turquia, disse Barfi.
Mas a própria aliança apresenta tensões internas.
"Não há uma aliança profunda entre esses grupos; trata-se de uma aliança tática inconstante", disse Barfi.
As motivações dos aliados dos curdos variam. Alguns viviam em áreas de maioria curda, de modo que se aliaram ao poder dominante. Outros perderam suas comunidades para o Estado Islâmico e esperavam que os militares curdos poderiam ajudá-los a voltar para casa.
"O que importa para nós é proteger nossa área e a segurança de nossos filhos, lares e nossas mulheres", disse o xeque Hmeidi Daham al-Jarba, cuja milícia tribal árabe, as Forças Sanadeed, se juntou à aliança. "Temos os curdos de um lado e o EI do outro, então quem deveríamos escolher?"
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Além dos fatores logísticos iniciais, a nova aliança enfrenta aquele que talvez seja seu desafio mais sério a longo prazo: apesar de sua intenção de retomar território do Estado Islâmico na maioria das áreas árabes, quase todo o poder de combate do grupo vem das milícias de etnia curda.
Essa realidade demográfica provavelmente alarmará ainda mais a Turquia, uma aliada vital dos Estados Unidos que considera a autonomia curda próxima de sua fronteira sul como sendo uma ameaça à segurança. Ela também limita a habilidade das forças de atacar os jihadistas em comunidades predominantemente árabes –os combatentes curdos têm menos motivação para combater nessas áreas e poderiam enfurecer profundamente os habitantes ao fazê-lo.
"A espinha dorsal dessas forças são os grupos curdos, por causa da experiência deles em combater o EI e devido ao seu número", disse Redur Xelil, um porta-voz da principal força curda na Síria, o YPG. Mas ele falou sobre como isso pode ser um fator limitante na luta por cidades como Raqqa, o quartel-general do Estado Islâmico na Síria: "Temos que ser realistas e entender que o YPG não pode ir sozinho até Raqqa, ou as pessoas dirão, 'O que vocês estão fazendo ali?'"
Um porta-voz recém-nomeado para a aliança informou aos repórteres na Síria sob uma bandeira amarela exibindo seu nome em curdo, árabe e assírio. Mas a coletiva ocorreu dentro de uma instalação de uma milícia curda, porque a aliança ainda não tem bases próprias, nem bandeiras para colocar em seus carros ou uma estrutura definida de comando, disse o porta-voz, Talal Sillu.
A força combinada será comandada por um conselho militar composto por seis pessoas, disse Sillu. Mas ele reconheceu que até o momento apenas um membro foi escolhido –o próprio Sillu.
Algumas das forças da aliança já cooperaram antes, mas as relações nem sempre são fáceis. A força militar curda na área significa que os curdos estabelecem a agenda, e muitos claramente menosprezam seus parceiros árabes.
Por sua vez, os combatentes rebeldes árabes temem os laços estreitos de seus parceiros com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que os Estados Unidos, Turquia e outros listam como uma organização terrorista. Eles também desconfiam dos motivos dos milhares de combatentes curdos que vieram para a Síria do Iraque, Turquia e Irã.
"O EI traz combatentes estrangeiros para um Estado Islâmico, enquanto eles trazem combatentes estrangeiros para um projeto curdo", disse um comandante árabe da Brigada dos Revolucionários de Raqqa, que atende pelo nome de Abu Hamza. "Mas se for o que estiverem pensando, eles fracassarão."
Em outra posição perto de Ein Eissa, um arrogante comandante curdo listou as vitórias de sua milícia contra o Estado Islâmico antes de reconhecer que ele –como muitos de seus combatentes– não era sírio. Ele era do Irã e não se incomodava em ser mais outro combatente estrangeiro na guerra civil da Síria.
"Eu vim para trazer democracia, enquanto o EI veio para matar", disse o comandante, Gali Cilo. "Essa é a diferença."
As raízes das forças democráticas sírias estão no canto nordeste da Síria, uma região há muito negligenciada onde vive grande parte da minoria curda da Síria, ao lado de outros grupos étnicos em cidades pobres espalhadas entre plantações de arroz pontilhadas por antigos poços de petróleo.
Enquanto a atenção mundial desde o início do conflito sírio ter se concentrado na luta entre as forças do presidente Bashar al-Assad, os rebeldes sunitas e o Estado Islâmico, os curdos tiraram proveito do caos para estabelecer uma zona autônoma
Um alto oficial militar americano disse que os Estados Unidos encorajaram as milícias curdas a criarem um grupo coordenador que faria mais sentido para o público internacional, e os líderes curdos decidiram chamá-lo de Forças Democráticas Sírias.
Mas o nome do subgrupo de brigadas árabes chamado de Coalizão Árabe Síria foi "uma invenção americana", reconheceu o alto oficial. Ele conta com cerca de 5.000 combatentes, com cerca de 20% deles dizendo que defenderiam suas terras, mas não realizariam uma ofensiva contra o Estado Islâmico.
Enquanto isso, acredita-se que a força curda dominante, o YPG, conte com 40 mil combatentes, incluindo milhares dos países vizinhos e muitos ligados ao fora-da-lei Partido dos Trabalhadores do Curdistão.
"O YPG é uma força de combate muito eficaz e pode fazer muito", disse Barak Barfi, um pesquisador da Nova Fundação Americana, um grupo de políticas em Washington, que recentemente passou um tempo com as unidades curdas na Síria. "Mas esses grupos árabes são fracos e apenas uma folha de parreira para o YPG."
A aliança buscou ajudar os curdos ao reduzir o temor entre os árabes de uma dominação curda, e os Estados Unidos esperavam que isso minimizaria seu relacionamento estreito com os curdos, para não alarmar a Turquia, disse Barfi.
Mas a própria aliança apresenta tensões internas.
"Não há uma aliança profunda entre esses grupos; trata-se de uma aliança tática inconstante", disse Barfi.
As motivações dos aliados dos curdos variam. Alguns viviam em áreas de maioria curda, de modo que se aliaram ao poder dominante. Outros perderam suas comunidades para o Estado Islâmico e esperavam que os militares curdos poderiam ajudá-los a voltar para casa.
"O que importa para nós é proteger nossa área e a segurança de nossos filhos, lares e nossas mulheres", disse o xeque Hmeidi Daham al-Jarba, cuja milícia tribal árabe, as Forças Sanadeed, se juntou à aliança. "Temos os curdos de um lado e o EI do outro, então quem deveríamos escolher?"
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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