Hugo Gonçalves - DN
Muhammad Fahmideh tinha 13 anos quando se fez explodir junto a um tanque iraquiano, no sul do Irão. Nesse dia, em 1980, inaugurava-se a prática dos suicídios bombistas. Rapidamente, o aiatola Khomeini colou a morte de Fahmideh a um episódio celebrado pelos xiitas - o sacrifício de Husayn ibn Ali, neto do profeta Muhammad, na batalha de Karbala - e transformou-o num fenómeno que, com o tempo, se tornaria global. Fahmideh está enterrado com outros heróis do Irão e a sua cara aparece em mochilas oferecidas às crianças. Numa entrevista, a sua mãe contou como assinara a carta que o autorizava a ir para a frente de batalha - exemplo seguido por milhares de mães - e outro familiar disse: "O suicídio [condenado no Alcorão] resulta do desespero, mas o que ele fez é um dever, é um mártir."
No
documentário Inside the Mind of a Suicide Bomber, um palestiniano, cuja
bomba não deflagrou, diz: "O martírio é a crença mais alta na vida. Vou
para o céu e eles para o inferno." Um construtor de bombas disse: "Deus
limpa, deus justifica. Vamos diretamente para o céu, recebidos pelos
anjos e pelas 72 virgens tão bonitas que nem sequer posso descrevê-las."
Depois de anos a repudiar o suicídio bombista (exclusivo de xiitas), os
sunitas aceitavam assim glorificação do martírio como uma eficaz arma
de guerra.
Os ataques em Nova Iorque
(2001) e Madrid (2004) iniciavam uma nova fase: os alvos no Ocidente. Em
Londres (2005) e Paris (2014/15), pela primeira vez, os terroristas
tinham nascido e sido criados na Europa. O martírio passou a ser uma
religião em si mesma, com palco planetário na TV e nas redes sociais -
vídeos de atentados com música de filme de ação, testemunhos de
bombistas como se em audições do Ídolos. O martírio ganhou um apelo pop
religioso, mistura fé, evangelização, vingança, radicalismo,
celebridade, a necessidade de punição de quem ocupa/bombardeia
territórios muçulmanos ou não pratica os mesmos costumes e preceitos
morais. Como disse Tariq Ramadan, filósofo e escritor muçulmano,
interessa aos extremistas que os europeus reajam com violência aos
ataques, que se instigue a discriminação para que os muçulmanos
acreditem que o Ocidente odeia o islão e que se regresse ao tempo
idealizado (que nunca existiu) de uma sociedade islâmica em que a
pureza, a submissão e o bem-estar espiritual não tinham sido
conspurcados pelo Ocidente.
O
desgoverno e a carnificina espoletados com a invasão do Iraque (2003), e
agravados pela saída das tropas americanas, serviram também como
rastilho para os recentes ataques (e estão na origem do nascimento do
ISIS). No Iraque, a guerra entre sunitas, xiitas e curdos fez do
território o campeão dos bombistas suicidas e levou Dexter Filkins,
jornalista que esteve seis anos no país, a escrever no livro "The
Forever War": "Homicídios, tortura, sadismo. Estava na cabeça de todos.
Eu entrava no escritório de Bagdad e encontrava os iraquianos a ver um
vídeo de tortura. Compravam-se em bazares. Viam o vídeo em silêncio.
Ninguém dizia nada."
Não é difícil
entender que um iraquiano, rodeado por sequestros, vingadores xiitas que
bebem o sangue das vítimas e explosões diárias, pareça dormente diante
da barbárie - 146 mil mortes de civis, desde 2003 - ou que um
palestiniano, trancado e humilhado num pedaço de terra, testemunha
frequente de ataques israelitas, a quem pregaram desde sempre o ódio e a
beleza do martírio, diga coisas como: "[No funeral] vi os sorrisos dos
mártires mortos, queria ser como eles e ir para o paraíso."
Contudo,
o que leva um professor inglês com filhos pequenos a explodir o metro
de Londres? Um parisiense que bebia álcool e frequentava discotecas a
matar por causa de um jornal satírico e das imagens da prisão de Abu
Ghraib que vira na TV? De que maneira a fé é a chama-piloto de um
problema que, não sendo exclusivamente religioso, tem na ideia de
justiça e recompensa divina - o castigo do infiel, o martírio e o
paraíso depois da morte - o seu detonador derradeiro, aquilo que faz a
diferença na hora de apertar o botão?
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