Presidente já está rasgando o Artigo 85 da Constituição com em solo nacional com a mentira do golpe; agora, ela pretende pisotear a Carta em discurso na ONU
Reinaldo Azevedo - VEJA
O PT nunca
acatou a democracia como um valor inegociável. Querem a prova? Na
oposição, sabota governos; no governo, mobiliza-se para não apear do
trono nunca mais. Não reconhece a legitimidade do “outro” nem a
alternância do poder.
Alguns
esperavam — eu não, confesso — que fosse um pouco mais responsável. Não
é. Imaginem um partido em que um sujeito considerado moderado, como José
Eduardo Cardozo, transforma a Advocacia-Geral da União num centro de
baixo proselitismo político. O ápice da irresponsabilidade está no
discurso que Dilma pode fazer amanhã, na ONU, com referências ao suposto
golpe que estaria em curso no Brasil.
Nesta
quarta, três ministros do Supremo repudiaram de maneira inequívoca a
fala: Celso de Mello, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Disse Mello: “Há um
equívoco quando [Dilma] afirma que há um golpe parlamentar, ao
contrário. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar uma Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental, deixou claro que o procedimento
destinado à abertura do processo de impeachment observa os alinhamentos
ditados pela Constituição da República”.
E o ministro
avançou: “Portanto, ainda que a senhora presidente da República, veja, a
partir de uma perspectiva eminentemente pessoal a existência de um
golpe, na verdade, há um grande e gravíssimo equívoco, porque o
Congresso Nacional, por intermédio da Câmara dos Deputados e o Supremo
Tribunal Federal, deixaram muito claro que o procedimento destinado a
apurar a responsabilidade política da presidente da República, respeitou
até o presente momento, todas as fórmulas estabelecidas na
Constituição”.
Também o
ministro Gilmar Mendes insistiu na normalidade institucional: “Eu não
sou assessor da presidente e não posso aconselhá-la. Mas todos nós que
temos acompanhado esse complexo procedimento no Brasil podemos avaliar
que se trata de procedimentos absolutamente normais, dentro do quadro de
institucionalidade. Inclusive as intervenções do Supremo determinaram o
refazimento até de comissões no âmbito do próprio Congresso Nacional,
da própria Câmara, [o que] indica que as regras do Estado de Direito
estão sendo observadas”.
Toffoli
destacou uma questão para a qual já chamei atenção dos leitores muitas
vezes. Se a própria presidente apresentou a sua defesa nas instâncias
adequadas, como pode chamar de golpista o aparato ao qual recorreu para
se defender? Disse: “Falar que o processo de impeachment é um golpe
depõe e contradiz a própria atuação da defesa da presidente, que tem se
defendido na Câmara dos Deputados, agora vai se defender no Senado, se
socorreu do Supremo Tribunal Federal, que estabeleceu parâmetros e
balizas garantindo a ampla defesa. Portanto, alegar que há um golpe em
andamento é uma ofensa às instituições brasileiras, e isso pode ter
reflexos ruins, inclusive no exterior, porque isso passa uma imagem ruim
do Brasil. Eu penso que uma atuação responsável é fazer a defesa e
respeitar as instituições brasileiras e levar uma imagem positiva do
Brasil para o mundo todo, que é uma democracia sólida, que funciona e
que suas instituições são responsáveis”.
Cadê Lewandowski?
Que bom! As instituições democráticas respiram normalmente. A fala dos três ministros honra a corte constitucional brasileira. Mas vou aqui lançar perguntas: “Onde está o ministro Ricardo Lewandowski, que é a autoridade máxima do Poder Judiciário no momento? Como é que ele permite que prospere essa farsa e mantém um silêncio cúmplice a respeito?”. Ainda que ele possa achar que inexistam elementos para processar a presidente por crime de responsabilidade, ele sabe que golpe não é.
Que bom! As instituições democráticas respiram normalmente. A fala dos três ministros honra a corte constitucional brasileira. Mas vou aqui lançar perguntas: “Onde está o ministro Ricardo Lewandowski, que é a autoridade máxima do Poder Judiciário no momento? Como é que ele permite que prospere essa farsa e mantém um silêncio cúmplice a respeito?”. Ainda que ele possa achar que inexistam elementos para processar a presidente por crime de responsabilidade, ele sabe que golpe não é.
Mesmo Renan
Calheiros (PMDB-AL) sendo um dos investigados da Lava-Jato, segue sendo
presidente do Senado e do Congresso Nacional. Também a ele cabe repudiar
de pronto a acusação.
E não posso,
uma vez mais, deixar de lado uma questão importante. Dilma não está
apenas cometendo um equívoco. Ela está praticando novos crimes. A um
presidente da República não se faculta a licença para tratar como
golpistas os Poderes Legislativo e Judiciário, quando estes, obviamente,
estão seguindo a Carta Magna e as leis. A presidente ofende, assim, o
Artigo 85 da Constituição nos seguintes incisos:
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III – o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;
IV – a segurança interna do País;
VII – o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra:
II – o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação;
III – o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;
IV – a segurança interna do País;
VII – o cumprimento das leis e das decisões judiciais.
Creio que
nem preciso explicar por quê. A disposição de Dilma de levar a questão
para a ONU revela a determinação do PT de sabotar o futuro governo e
emite um sinal de que as franjas do partido, que se dizem movimentos
sociais e sindicais, pretendem aderir mesmo à mais pura e escancarada
subversão da ordem democrática.
E há de
valer para o PT a máxima tocquevilleana, não é? Vamos corrigir os males
da democracia com mais democracia. Na exata medida em que os petistas,
liderados por Lula, decidirem afrontar algum dispositivo da Carta, será
preciso usar a Carta para que voltem a se comportar segundo as regras da
civilidade. Ou para que paguem o preço de sua transgressão.
Na tirania petista, tudo pode ser permitido ao tirano e seus amigos. Na democracia, não!
Dilma tem de arcar com o peso de suas irresponsabilidades adicionais.
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