Pactos e pactos
Com o título “Um pacto de
governabilidade bem sucedido”, o diplomata e jornalista Pedro Luis
Rodrigues, que exercera a função de secretário de imprensa do Palácio do
Planalto até poucos dias antes, fez um relato daqueles momentos no blog
Diário do Poder. O significado político daquela decisão, relembra ,
“era o de assegurar aos públicos interno e externo que a esperada
intensificação das tensões políticas nos meses seguintes não abalaria,
em seus fundamentos essenciais, a gestão dos assuntos do Estado
brasileiro”.
No comunicado os ministros observaram que “seguros
da honradez de suas vidas”, não temiam a ameaça de perderem o respeito
de seus concidadãos, “exatamente por servi-los em hora difícil e em
circunstâncias adversas”.
A decisão lembra a atitude tomada
recentemente pelo PSDB na reafirmação do apoio às reformas estruturais,
com a permanência de seus ministros no governo Temer, mas com uma
diferença fundamental. Naquela ocasião os ministros de Collor assumiram
uma posição inequívoca, que foi compreendida pelo próprio presidente
Fernando Collor que, como muito bem lembra Pedro Luis Rodrigues, poderia
não aceitar a atitude de seus ministros.
Já o PSDB debateu-se
durante meses em crise interna que chegou a ser a mais grave dos últimos
tempos dentro do partido, pois se dividiu entre os que queriam a saída
de Temer – quase metade da bancada votou a favor do prosseguimento do
processo – e os que viam na manutenção dos ministros tucanos uma maneira
de garantir a continuidade do programa de reformas estruturais do país.
Como
lembra Pedro Luis Rodrigues, “estando o bem comum acima dos partidos,
dos interesses eleitorais e corporativos, das rivalidades políticas e de
facção, de antipatias políticas e pessoais, os signatários manifestaram
sua confiança de que a crise seria resolvida nos foros constitucionais
apropriados, “sem pôr em risco, em nenhum momento os interesses maiores e
as necessidades presentes da nação brasileira”.
Ele conta ainda
que, depois de seu desfecho, ouviu do Ministro da Economia Marcilio
Marques Moreira o relato de viagem que acabara de fazer a Washington,
onde colhera “frases de admiração pelo fato de uma democracia emergente,
como era a brasileira, ter conseguido conduzir uma séria crise política
de forma absolutamente constitucional, sem que a economia tivesse
sofrido abalos extraordinários, sem que as reservas internacionais
precisassem ser tocadas, sem o colapso das bolsas”.
A diferença
de clima político também ajudou muito. Há 25 anos, havia quase uma
unanimidade a favor do impeachment do presidente Collor, e a demissão
maciça do ministério não influiria no resultado final, e nem a
permanência foi considerada uma prova de força do presidente da
República.
Os ministros, em sua maioria, não faziam parte de
partidos políticos, integravam o que se chamou de “ministério de
notáveis”, uma última tentativa de Collor de manter-se no poder montando
um ministério pelos critérios meritocráticos, e não políticos.
Na
nossa experiência atual, vemos ministros de diversos partidos,
inclusive do PSDB, negociando diretamente com o Congresso a favor do
presidente Temer, e vários deles retornando a seus mandatos na Câmara
para votar pela permanência do presidente.
Provavelmente essa
relação direta entre os partidos e o presidente da República foi o que
faltou a Collor, e sobrou a Temer. O que não quer dizer que essa tenha
sido uma solução melhor para o país do que a de 25 anos atrás. A
diferença é que, naquela ocasião, “os ministros consideravam seu dever
prosseguir trabalhando, com serenidade, para assegurar a indispensável
continuidade da administração pública, da atividade privada e da
tranquilidade dos cidadãos.” Sem interferir na atuação do Congresso.
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