Bairros de Barcelona reagem ao "turismo de bebedeira" com protesto
Camilo S. Baquero - El País
Julián Martín/EFE
Banhistas aproveitam dia de calor na praia de Barceloneta, em BarcelonaAs fotos que mostram um grupo de turistas italianos correndo nus pelo Paseo Joan de Borbó, no bairro de Barceloneta, em Barcelona, foram tiradas há poucos dias, às 9h da manhã. Seu autor é Vicenç Forner, um morador do bairro, que as tirou com seu celular. "Não é uma anedota. Aqui os turistas fazem o que têm vontade", esclarece o fotógrafo.
Durante três horas, os visitantes fizeram seu passeio particular pelo bairro litorâneo e até entraram em uma loja próxima da Plaza del Mar sem que ninguém lhes dissesse nada. A Guarda Urbana também não apareceu. "A polícia não sabe mais o que fazer com essas coisas", queixa-se Forner. Um fato a mais que se soma às constantes e históricas denúncias dos moradores de Barceloneta sobre a pressão turística a que se veem submetidos.
O protesto foi espontâneo e a ele se uniram as associações de moradores do bairro. A de l'Ostia, por exemplo, liderou a oposição à marinha de luxo que está sendo construída em Port Vell. Sempre estão presentes nas audiências públicas do distrito de Ciutat Vella e nos plenários. Ali repetem todas as vezes suas queixas sobre os excessos do turismo, os apartamentos ilegais para turistas, a venda de drogas. Mas não notam uma melhora.
Desde o mandato anterior, os moradores inclusive levavam um mapa caseiro dos apartamentos ilegais que, segundo eles, são abundantes no bairro litorâneo. Em um grande cartaz com o mapa da Barceloneta, chegaram a pôr até 170 pontos pretos, utilizando a informação dos moradores dos edifícios.
Nos registros da Câmara Municipal figura que só há 72 imóveis com licença, que foram congelados desde a aprovação do Plano de Utilização do último mandato socialista. A reforma realizada por CiU e PP manteve a proibição. O número faz os moradores rirem. "Estamos cansados do turismo de baixo custo e da bebedeira", afirma Oriol Casavella. "Isso está acabando com os moradores e com o turismo antigo, que não quer mais vir. Está parecendo Magaluf", acrescenta Forner.
Durante os protestos, os moradores chegaram a enfrentar os donos das imobiliárias de apartamentos turísticos, aos quais, a modo de intimidação, pediram para fechar suas firmas por supostamente trabalharem fora do horário permitido. Os empresários lembram que seu trabalho é legal. Os moradores acreditam que faltam inspeções e que muitos proprietários fazem ameaças aos moradores fixos para tirar mais dinheiro de seus apartamentos.
Segundo o site Airbnb, que faz aluguel direto de apartamentos de férias, a oferta na Barceloneta chega a 477 apartamentos turísticos, sete vezes mais que os legalizados. Os preços começam em 45 euros e podem chegar a mais de 100. Desde 2011 na Barceloneta foram abertos 113 processos sobre apartamentos piratas depois de denúncias de moradores.
A oposição na prefeitura aproveitou ontem para atacar a gestão do distrito de Ciutat Vella, liderada pela vereadora Mercê Homs. No Partido Popular, com que a CiU pactuou a modificação do Plano de Utilização que permite mais hotéis em Ciutat Vella, Alberto Fernández Díaz criticou a demora do governo municipal para apresentar o plano especial para regular as licenças dos apartamentos turísticos - que deveria estar pronto há dois meses –e lançou uma proposta: que aumentem as taxas para transformar os apartamentos em moradias turísticas.
O candidato socialista à prefeitura Jaume Collboni disse que "o que Xavier Trias tem de fazer é resolver os problemas de Barcelona", como o "modelo turístico" da cidade. O líder do PSC afirmou que "o que não se pode admitir é que a resposta ao problema seja a vinda de mais turistas". "Não podemos dizer que temos de passar de 7 para 10 milhões de visitantes", referindo-se às declarações de Jordi Clos, presidente do sindicato de hoteleiros da cidade.
Quim Mestre, porta-voz da ICV, afirmou que não apoiará a petição do PSC pela demissão de Homs se não "houver uma proposta de solução", e atribuiu o problema da Barceloneta a "três anos de desregulamentação e não intervenção" no turismo da cidade.
Na manhã de ontem, Maite Fandos, prefeita provisória, evitou referir-se ao tema durante uma entrevista coletiva. Mais tarde, em uma nota de imprensa, Homs afirmou que "os moradores não estão sós" e que a Câmara mantém "tolerância zero com a incivilidade em qualquer local da cidade". A prefeitura anunciou que enviará mais Guarda Urbana ao bairro para melhorar a convivência. Homs disse que a reunificação de apartamentos turísticos em propriedades únicas, algo que já previa o plano de utilização anterior, vai melhorar a convivência.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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