Mais do mesmo
Para fazer a economia crescer, não se vê, por parte do governo, nada diferente do – já exaurido – estímulo ao consumo
GAZETA DO POVO - PR
Em
junho, durante um seminário do jornal espanhol El País no Rio Grande do
Sul, o ex-presidente Lula aproveitou a presença do secretário do
Tesouro Nacional, Arno Augustin, e pediu ampliação do crédito. “Não
temos de ter medo. Acho que temos de ficar um pouco mais afoitos agora.
Apenas seguir a rotina técnica não dá mais certo”, disse, logo depois de
perguntar a Augustin: “Arno, um dia você vai ter de me explicar: se a
gente não tem inflação de demanda, por que a gente está barrando o
crédito?” O Banco Central já havia atendido o pedido de Lula em julho;
agora, volta a oferecer a mesma dose de um remédio que já não está
fazendo o efeito desejado no paciente.
Depósitos compulsórios são
um valor que os bancos são obrigados a deixar no BC, calculado de
acordo com as quantias que as instituições possuem em depósitos feitos. O
compulsório serve como uma espécie de proteção do sistema financeiro
contra quebras, mas outra de suas funções é o controle da inflação: com
uma menor quantidade de moeda circulando no mercado, os preços não podem
subir demais, já que os consumidores não teriam tanto dinheiro
disponível para seguir gastando. Em 25 de julho, o BC mudou uma regra
referente aos compulsórios, permitindo que os bancos usassem até 50% do
valor que tinham depositado no BC. Na ocasião, estimou-se que a medida
colocaria até R$ 30 bilhões em circulação imediatamente, facilitando o
crédito. Mas a medida parece não ter sido suficiente, e na quarta-feira,
menos de um mês depois da primeira mudança, o BC passou a permitir que
os bancos usassem até 60% do valor do compulsório, deixando mais R$ 10
bilhões disponíveis. Outras medidas tomadas no mesmo pacote podem
aumentar ainda mais o volume de dinheiro para operações de crédito.
Nem
Banco Central, nem o Ministério da Fazenda dizem com todas as letras,
mas o objetivo é o mesmo de sempre: facilitar o crédito para que os
brasileiros adquiram especialmente bens duráveis, automóveis e imóveis. É
a mesmíssima estratégia que foi colocada em prática durante a crise
internacional e, aliada à grande demanda por commodities em outros
países emergentes, ajudou o país a aguentar o tranco enquanto as
economias desenvolvidas se afundavam na recessão. Mas o que parecia ser
uma solução pontual para uma situação específica se converteu na única
maneira que o governo conhece de tentar fazer o Brasil crescer.
No
entanto, o fôlego do consumidor brasileiro já não é aquele de anos
atrás. Em abril e maio deste ano, as montadoras estavam com pátios
lotados e acabaram dando férias coletivas aos funcionários. O colunista
da Gazeta do Povo Franco Iacomini informou, na semana passada, que
construtoras importantes estavam registrando, em seus balanços do
segundo trimestre, aumentos no número de distratos – cancelamentos de
contratos imobiliários. Em um cenário desses, fica difícil imaginar como
esse novo estímulo ao consumo pode virar o jogo do crescimento, que, a
julgar pelas previsões do mercado, deve ficar abaixo de 1% em 2014.
A
insistência nesse modelo de crescimento permite questionar se o governo
realmente tem algo que se possa chamar de política econômica, pois não
se vê nada diferente do – já exaurido, como se pode perceber – estímulo
ao consumo. Enquanto isso, o governo resiste a cortar gastos e enxugar a
máquina pública, e não incentiva a poupança para garantir o
investimento privado. É uma pena que a criatividade só brinde a equipe
econômica na hora de brincar com os dados das contas públicas para
fingir que as metas estabelecidas estão sendo cumpridas.
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