sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Mídia de notícias latina expressa seu desprezo por Trump
Ashley Parker - NYT
Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Ricardo Sánchez, conhecido como "El Mandril" em seu programa de rádio espanhol em Los Angeles, passou a chamar Donald J. Trump de "El hombre del peluquín" –o homem da peruca.
Alguns dos ouvintes de Sánchez são menos gentis, referindo-se a Trump, que desprezou alguns imigrantes mexicanos como sendo "estupradores" e criminosos, simplesmente como "Hitler".
Sánchez diz que tenta se concentrar no lado positivo da campanha presidencial, mas que ele também às vezes usa linguagem pesada para descrever Trump, segundo traduções de seu programa fornecidas por seu produtor executivo.
"Um presidente como Trump seria como entregar uma arma carregada a um macaco", disse Sánchez em uma de seus programas. "Mas uma arma que dispara balas atômicas."
O relacionamento conflituoso entre Trump e a mídia de notícias de língua espanhola, que passou a ferver publicamente desde que ele anunciou sua candidatura em junho, entrou em ebulição na terça-feira, em uma coletiva de imprensa em Dubuque, Iowa, quando o candidato se irritou com Jorge Ramos, o principal âncora da "Univision" e "Fusion", quando este tentou fazer uma pergunta sem ser chamado. Trump sinalizou para um de seus seguranças, que removeu Ramos do evento.
"Não me toque, senhor. Não me toque", disse Ramos, enquanto era conduzido para fora da sala. "Tenho o direito de fazer uma pergunta."
Posteriormente o retorno de Ramos foi autorizado. Mas para a imprensa de língua espanhola, que está crescendo em tamanho e influência na política, a situação tensa foi uma demonstração de força altamente pública contra um candidato que muitos veículos nem mais fingem cobrir objetivamente: eles estão ofendidos com as palavras e táticas de Trump –e estão demonstrando.
Alguns, incluindo Ramos, dizem que suas emissoras estão cobrindo Trump mais agressivamente do que as grandes emissoras de língua inglesa, que até recentemente, pelo menos, tratavam Trump como uma diversão de verão –menos um candidato sério, mas um chamariz de audiência na forma de um astro bombástico de reality show. (Após o atrito com Ramos na noite de terça-feira, a Associação Nacional dos Jornalistas Hispânicos emitiu uma declaração condenando Trump.)
Ramos, que neste mês fez uma forte condenação de Trump, o chamando de "a voz mais alta da intolerância, ódio e divisão nos Estados Unidos", atribuiu a diferença de abordagem a como a questão da imigração afeta diretamente os latino-americanos.
"Isto é pessoal, e essa é a grande diferença entre a mídia de língua espanhola e a tradicional, porque ele está falando de nossos pais, de nossos amigos, de nossos filhos e nossos bebês", disse Ramos em uma entrevista por telefone.
Ramos, que já foi chamado de o Walter Cronkite da América Latina pela tremenda influência que tem sobre os espectadores hispânicos, disse não conseguir se lembrar da mídia de notícias de língua espanhola cobrir uma história tão agressivamente quanto a candidatura de Trump.
E apesar dos noticiário nos canais por assinatura e nos programas de notícias das manhãs de domingo preencherem sua cobertura política com histórias sobre os muitos aspectos da campanha improvável de Trump, o foco dos programas de notícias em língua espanhola é quase exclusivo na posição controversa de Trump a respeito da imigração.
Cerca de 58% de todas as menções a Trump nos principais veículos de notícias –de rádio, TV, cabo e online– no mês passado se concentram em imigração, enquanto nos programas de notícias de língua espanhola a proporção foi de quase 80%, segundo uma análise da Two.42.Solutions, uma empresa não partidária de análise de mídia. A mídia de notícias de língua espanhola também foi mais crítica em sua cobertura das posições de Trump sobre a questão, com quase todas em tom negativo.
José Díaz-Balart, o principal âncora da "Telemundo" e "MSNBC", que adota uma cobertura isenta das notícias e não se considera um ativista, disse que devido aos seus telespectadores, a "Telemundo" mergulhou mais fundo em detalhes específicos do plano de Trump para imigração do que outros veículos de língua inglesa e tem realizado uma cobertura da candidatura dele com um senso de "urgência".
"Nosso público é altamente versado na questão da imigração", disse Díaz-Balart, acrescentando que seus espectadores estão ávidos por ouvir "o que você está propondo de forma realista e planejando fazer a respeito de questões que são tão importantes para a comunidade".
Quando Trump visitou a fronteira dos Estados Unidos com o México no mês passado, as emissoras de língua espanhola dedicaram mais tempo a Trump em seus programas noturnos do que as emissoras de língua inglesa. A "Univision" dedicou seis minutos a Trump, enquanto a "Telemundo" –que contou com seu âncora, Díaz-Balart, apresentando o noticiário noturno ao vivo da fronteira– lhe dedicou nove minutos.
Além de seus comentários chamando os imigrantes mexicanos de traficantes de drogas e estupradores, o plano de imigração de Trump –que inclui erguer um muro ao longo da fronteira sul e acabar com a cidadania inata– também provocou a ira de muitos latinos, que deverão ser um bloco eleitoral fundamental em 2016.
A "Univision" rompeu seus laços com a Organização Miss Universo, da qual Trump é proprietário em parte, devido aos seus comentários ofensivos sobre os imigrantes mexicanos. Trump agora está processando a rede em US$ 500 milhões.
Ken Oliver-Méndez, o diretor do braço de mídia hispânica do conservador Media Research Center, disse que na mídia de notícias de língua espanhola, "há uma ampla condenação a Donald Trump".
Uma análise das notícias, blogs e fóruns pela Crimson Hexagon, uma empresa não partidária de software de análise das redes sociais, também apontou que as menções a Trump na mídia de notícias de língua espanhola desde que ele anunciou sua candidatura foram 69% negativas, mas menos negativas –58%– na mídia de notícias de língua inglesa.
Críticos da cobertura de notícias de língua espanhola, incluindo Oliver-Méndez, dizem que a imprensa hispânica está praticando ativismo, não jornalismo.
"A mídia de língua espanhola está basicamente tratando Trump pelo prisma do que é melhor para os 11 milhões de imigrantes sem documentos no país, de modo que como Trump está fazendo declarações que ameaçam a existência daquela comunidade, a cobertura que ele está recebendo é a de um inimigo", ele disse.
Ramos, por sua vez, vê um possível ponto positivo no papel de Trump em 2016. "A única coisa positiva em que posso pensar a respeito do sr. Trump é que ele colocou a questão da imigração em primeiro plano na campanha de 2016", disse.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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