quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Casal leva à Justiça comuna de Long Island que só permite descendentes de alemães
Stéphane Lauer - NYT
Uli Seit/The New York Times
Casa em terreno da Liga de Assentamento Germano-Americana em Yaphank, Nova York; cláusula prevê que donos de imóveis sejam de origem alemãCasa em terreno da Liga de Assentamento Germano-Americana em Yaphank, Nova York; cláusula prevê que donos de imóveis sejam de origem alemã
Nada permitiria supor que aqui, em Yaphank, há 80 anos, houvesse ruas chamadas "Adolf Hitler" ou "Joseph Goebbels", ou mesmo que todo verão essa pequena comuna rural situada na península de Long Island, na rota de férias dos nova-iorquinos abastados, fosse decorada com bandeiras trazendo a suástica.
Na época, Yaphank e o acampamento Siegfried eram uma coisa só. Como em um ritual, centenas de famílias tomavam o trem Camp Siegfried Special partindo da estação de Penn Station, em Manhattan, para chegar até a colônia de férias erguida em 1935 em homenagem ao regime nazista pelos Amigos da Nova Alemanha, uma organização que depois assumiu o nome de German American Bund.
Hoje é difícil de imaginar que a menos de 100 km de Nova York, onde reside a maior comunidade judaica do mundo, simpatizantes nazistas iam descansar nesse canto de verde e areia, até que foi fechado em dezembro de 1941, depois que a Alemanha declarou guerra aos Estados Unidos.
"Essa organização não era somente nazista ou alemã", explica Ryan Shaffer, historiador e professor da Stony Brook University, "era também uma estrutura americana com raízes locais. Enquanto difundia a cultura germano-americana, o Bund era fundamentalmente racista e fascista. Foi preciso que houvesse mortes e uma guerra mundial para que as pessoas começassem a olhar para o que acontecia em seus próprios quintais", ele explica em um artigo para o "Long Island History Journal".
Mas esse passado está ressurgindo em meio a uma disputa imobiliária. Philip Kneer e sua mulher, Patricia, que desde 1999 moram em uma das casinhas de madeira de Yaphank, decidiram botar a boca no trombone. As regras da pequena comuna não os haviam incomodado no momento da compra da casa, cuja peculiaridade residia no fato de estar situada em um terreno pertencente à Liga de Assentamento Germano-Americana. Ele precisaram se provar à altura da liga: a entrevista foi feita em alemão e o fato de que a senhora Kneer era originária de Berlim provavelmente os favoreceu.
No final da guerra, o governo americano se apossou do terreno, mas a liga conseguiu recuperá-lo após uma batalha jurídica. Hoje, ainda que cada um seja proprietário de sua casa, é essa associação que estabelece as regras para a venda dos imóveis.
Quando eles decidiram colocar à venda sua casa, os Kneer descobriram, por exemplo, que a liga proibia que eles publicassem um anúncio nos classificados e colocassem placa de "Vende-se". Somente os membros da comunidade e seus amigos poderiam saber da disponibilidade do imóvel e se candidatar como compradores, um ensimesmamento que acabou criando uma vizinhança exclusivamente branca e de dominância germânica, constatam os Kneer.

"Agentes estrangeiros"

Diante dessas restrições, o casal resolveu processar a liga, como revelou o "New York Times", com uma ação iniciada no dia 20 de outubro perante o tribunal do condado de Suffolk, alegando que as regras impostas seriam discriminatórias e infringiriam o Fair Housing Act. Essa lei federal, votada em 1968 e assinada pelo presidente Lyndon Johnson durante os tumultos que se seguiram ao assassinato de Martin Luther King, faz parte do Civil Rights Act, e visa justamente evitar e sancionar discriminações em uma transação imobiliária.
Robert Kessler, presidente da Liga, contesta qualquer ideia de discriminação e acredita que as regras de copropriedade estejam sendo mal interpretadas por pessoas de fora da comunidade, ainda que ele reconheça que elas são "obsoletas".
Mas, como ele conta ao "New York Times", "os Kneer estão revoltados simplesmente porque não conseguem obter o preço que eles estão pedindo pela casa."
Em Yaphank, os vestígios do passado mais visíveis foram apagados. A rua Adolf Hitler foi rebatizada de Park Street, e a avenida Joseph Goebbels agora se chama Northside Avenue. Mas outros parecem mais difíceis de sumir.
"Ainda hoje", afirma Ryan Shaffer, "muitos moradores responsabilizam os 'agentes estrangeiros' pelo que aconteceu aqui e não conseguem analisar o terreno fértil e a propaganda que permitiram com que americanos fizessem parte de tal organização."

Nenhum comentário: