quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Religião adventista pode ajudar ou prejudicar Carson, novo favorito republicano
Alan Rappeport - NYT
Rebecca Cook/Reuters
Cada vez que Ben Carson se preparava para cortar um cérebro humano, o neurocirurgião, que foi o primeiro a separar gêmeos unidos pela cabeça, dizia uma oração. Ele esfregava as mãos, fechava os olhos e pedia ajuda a Deus. "Senhor, tu serás o neurocirurgião", ele contou que pensava. "Eu serei as mãos."
Desde que aposentou o bisturi e se tornou pré-candidato presidencial republicano, Carson não evitou falar sobre sua fé cristã, e salpica os pronunciamentos políticos com orações enquanto viaja pelo país falando com os eleitores em seu estilo direto, mas suave. Até agora funcionou - ele superou Donald Trump em uma nova pesquisa nacional de republicanos e está vencendo em Iowa, o Estado crucial para a nomeação do candidato.
Mas a religião de Carson está sendo vista sob uma luz mais intensa nos últimos dias, quando Trump, cujo apoio entre os evangélicos está caindo, sugeriu que o médico não é um cristão da corrente dominante, porque é membro da denominação Adventista do Sétimo Dia. "Eu sou presbiteriano", proclamou Trump em um comício na Flórida no último sábado (24). "Rapazes, isso é meio vago, com todo o respeito. Quero dizer, Adventista do Sétimo Dia, não sei não..."
Em uma temporada eleitoral em que a religião e a política se chocaram frequentemente, a fé de Carson continua sendo um mistério para alguns, e algo que poderá se revelar uma ajuda ou uma desvantagem.
Não é a primeira vez que um importante candidato presidencial republicano enfrenta questões sobre como os evangélicos protestantes, que formam uma grande parte do eleitorado do partido, veriam suas crenças religiosas. Em 2008 e 2012, Mitt Romney teve de explicar aos eleitores o que significava ser um mórmon, e apesar de perder a última eleição ele conquistou quase 80% dos votos evangélicos.
A Igreja Adventista do Sétimo Dia tem mais de 18 milhões de membros em todo o mundo e 1,2 milhãona América do Norte, mas alguns céticos a consideram uma seita desligada do cristianismo da corrente dominante. Enquanto a igreja evita se envolver em política, o surgimento de Carson como figura política destacada representou uma oportunidade para que ela ganhe credibilidade.
"Não endossamos candidatos e não usamos a igreja com fins políticos", disse Alex Bryant, secretário da divisão norte-americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia, sobre a candidatura de Carson. "Mas nós consideramos isso uma oportunidade de falar ao mundo, falar a este país sobre o Adventismo do Sétimo Dia, nossas crenças e nosso desejo de elevar Jesus Cristo."
Um adventista batizado duas vezes, Carson tornou-se um dos maiores astros da igreja. Em sua autobiografia, "Gifted Hands" ["Mãos Dotadas"], ele narra a conversão de sua mãe, que começou em um hospital psiquiátrico.
Foi somente quando tinha 14 anos que Carson realmente se envolveu na fé. Conhecido por seu temperamento exaltado na época, o jovem Carson deixou que uma briga menor se transformasse em uma confusão em que ele acabou esfaqueando um amigo. O episódio poderia ter sido mortal se não fosse por uma fivela do cinto que bloqueou a faca. A partir daí, Carson rezou para afastar sua raiva.
"Meu mau temperamento nunca mais me controlará", escreveu ele em seu livro. "Nunca mais. Estou livre."
Carson, que não quis ser entrevistado para este artigo, frequenta a igreja regularmente e deu aulas de religião em sua igreja em Maryland. Hoje, como político, ele fala com frequência sobre o papel que Deus teve em sua vida, mas tende a modificar a visão de suas crenças religiosas conforme o lugar.
Durante uma entrevista em 1999 ao Religion News Service, Carson disse que gosta de frequentar outros tipos de igrejas. "Eu passo o mesmo tempo em igrejas não adventistas, porque não estou convencido de que a denominação é o mais importante", disse. "Acho que o relacionamento com Deus é o mais importante."
Mais recentemente, porém, Carson deixou claro que ele sempre defenderia suas crenças adventistas contra os céticos. "Orgulho-me do fato de acreditar no que Deus disse, e já disse muitas vezes que defenderei isso contra todos", disse Carson ao "Adventist Report" em 2013. "Se eles quiserem criticar o fato de que eu acredito na criação em seis dias literalmente, vamos lá, porque mostrarei todo tipo de buraco que existe em suas crenças."
Por motivos teológicos, o adventismo enfrentou tensões com as Igrejas Católica e Batista ao longo dos anos. Na última primavera, Carson foi convidado a falar em uma conferência de pastores batistas em Ohio, mas enfrentou oposição por causa de suas crenças e afinal desistiu.
Por outro lado, alguns adventistas ficaram decepcionados com uma suposta intolerância de Carson em relação ao islamismo. Ele disse recentemente que achava que um muçulmano não deveria poder ser presidente. Sua feroz oposição à Lei de Acesso à Saúde, que ele comparou à escravidão, também irritou alguns na comunidade, que dizem que a lei está de acordo com o enfoque dado pela religião à promoção da saúde.
"Certamente foi decepcionante para mim", disse Sam Geli, um capelão adventista aposentado que se considera um independente, a respeito dos comentários de Carson sobre os muçulmanos. "Foi muito triste."
Mas a religião de Carson vai afetar suas perspectivas entre os evangélicos conservadores em lugares como Iowa? Até agora isso não foi um problema.
"Eu penso que muitos evangélicos diriam que prefeririam ter um adventista praticante a um presbiteriano nominal que não parece ter uma compreensão teológica básica do cristianismo", disse Thomas Kidd, professor de história e religião na Universidade Baylor, no Texas. "Mesmo que ele não seja um evangélico igual a nós, é uma espécie de viajante amigo, de um modo que Trump não é."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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