sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Cresce número de combatentes 'desiludidos' que deserta do Estado Islâmico
A decepção da utopia jihadista que o "califado" divulga e a brutalidade que emprega são causas do abandono, segundo um estudo
Patricia R. Blanco - El País
AP Photo/Militant Website/Arquivo
Os desertores do EI (Estado Islâmico) são um "fenômeno crescente". Segundo constata uma pesquisa do ICSR (sigla em inglês de Centro Internacional para o Estudo da Radicalização) do King's College de Londres, entre janeiro de 2014 e agosto de 2015 pelo menos 58 pessoas divulgaram que abandonavam o território controlado pelo autoproclamado "califado" e deixavam de fazer parte de suas hostes, um terço delas nos últimos três meses.
"Representam uma pequena fração dos muitos combatentes desiludidos que se voltaram contra o Estado Islâmico", resume Peter R. Neumann, diretor da pesquisa.
Embora o informe admita que nem todos os que fugiram do EI abandonaram as ideias que os levaram a viajar à Síria ou ao Iraque para unir-se a suas fileiras --isto é, continuam acreditando no ideal do califado--, todos os desertores se sentem decepcionados pelas promessas que a organização dirigida por Abubaker al Bagdadi lhes havia feito.
Segundo o ICSR, são quatro os motivos que impelem os fugitivos: o Estado Islâmico está mais interessado em lutar contra outros grupos de combatentes sunitas na Síria do que em derrotar [o presidente sírio] Bashar al Assad, as atrocidades cometidas contra os muçulmanos, a corrupção da organização e as duras condições de vida no califado.
A maior parte dos desertores que haviam viajado à Síria rejeita o interesse do EI por atacar grupos sunitas como o Exército Livre da Síria ou Jabhat al Nusra, a milícia islâmica vinculada à Al Qaeda. Mas muitos também criticam a "brutalidade" das operações militares, que causam a morte de "civis inocentes", assim como o assassinato dos reféns, os maus-tratos sistemáticos à população local ou a execução de milicianos do EI.
Alguns dos desertores também mencionam a conduta "injusta" e "egoísta" de alguns membros do EI, contrária aos princípios do Islã. Embora a maioria considere que a corrupção não é sistemática, um deles chega a descrever a organização como "um bando" cujo único interesse é obter petróleo e fazer negócios.
De qualquer forma, um pequeno grupo acrescenta que não obteve os "luxos e carros" que o EI havia afirmado que conseguiriam. "Ninguém pode dizer como são representativas essas histórias, e seria um erro deduzir que todos os combatentes do EI, ou mesmo a maioria, estão desiludidos", admitem os pesquisadores do King's College.
Entretanto, consideram que os 58 depoimentos "destroem a imagem do EI como uma organização unida, coesa e comprometida ideologicamente" e deixam claro que "o Estado Islâmico não é a utopia jihadista que o grupo promete".
Segundo conclui o relatório, a partir dos depoimentos compilados, "muito poucos desertores se atreveram a falar em público" porque temem por suas vidas, mesmo depois de ter abandonado o território controlado pelo EI, e preocupam-se com que a organização adote represálias contra parentes que ainda vivem sob o jugo do califado.
Só a decisão de abandonar a militância no EI representa um grave risco para a vida: "O Estado Islâmico, afinal, é um Exército que precisa do total envolvimento de seus membros" e considera as deserções "um ato de apostasia" e os desertores, "inimigos da fé", analisa o relatório do ICSR.
Outro obstáculo para divulgar a deserção é a mais que provável pena de prisão que aguarda os ex-combatentes que retornam a seus países de origem. "Em muitos países não há incentivos legais para os combatentes desiludidos e os desertores, de modo que qualquer coisa que disserem em público poderá ser usada contra eles", reconhece o ICSR.
Por isso, a instituição recomenda que os governos reconheçam a importância de que os desertores divulguem seu testemunho como ferramenta para desarmar a narrativa do EI e os ajude a se reinserir na sociedade.

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