Insustentável
Bernardo Mello Franco - FSP
BRASÍLIA - A pergunta ecoou em claro e bom som no plenário da
Câmara: "O presidente Eduardo Cunha tem ou não tem contas secretas na
Suíça?". A tribuna era ocupada pelo deputado Chico Alencar, líder do
PSOL. Sentado a poucos metros dele, Cunha virava o rosto para o outro
lado, fingindo não ouvir.
"Essa é uma pergunta que interessa à cidadania, deve ser reiterada e tem
que ser respondida", insistiu Chico. O presidente da Câmara se manteve
em silêncio, como se não devesse explicações aos colegas e à sociedade
que lhe paga o salário, as refeições, os voos em jato da FAB e a
residência oficial em Brasília.
A rigor, a pergunta já foi respondida. Em março, um deputado do PSDB
indagou ao peemedebista se ele tinha contas na Suíça. "Não tenho
qualquer tipo de conta em qualquer lugar que não seja a conta que está
declarada no meu Imposto de Renda", afirmou Cunha, resoluto, em
depoimento à CPI da Petrobras.
A negativa caiu por terra com a confirmação de que ele é beneficiário de
ao menos quatro contas bloqueadas na Suíça. Os dados já estão no
Brasil, e a Procuradoria-Geral da República vai denunciá-lo de novo por
corrupção e lavagem de dinheiro.
Desta vez, a tropa de Cunha não poderá repetir o discurso de que é
preciso esperar o julgamento do STF. Ao negar a existência das contas, o
presidente da Câmara mentiu à CPI e omitiu informações relevantes sobre
seu patrimônio, o que caracteriza quebra de decoro parlamentar.
Cunha continua a confiar na covardia do governo e na cumplicidade da
oposição, a quem se aliou na causa do impeachment. No entanto, aliados
já admitem que a sua permanência na presidência da Câmara está se
tornando insustentável.
Se a previsão se confirmar, restará ao peemedebista deixar a cadeira e
lutar para não perder o mandato de deputado. O foro privilegiado é o que
ainda o mantém a salvo da caneta do juiz Sergio Moro e de uma visita
matutina da Polícia Federal.
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