quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Lobos solitários ou terceira intifada?
Israel acusa a Autoridade Palestina pelos últimos ataques com facas, mas não está claro se correspondem a uma estratégia política
Lluís Bassets - El País
Majdi Mohammed/AP
Palestinos entram em confronto com tropas israelenses na CisjordâniaPalestinos entram em confronto com tropas israelenses na Cisjordânia
A intifada começa como uma rebelião espontânea, mas só adquire identidade própria no momento em que alguém se encarrega de sua condução. Não é fácil definir o que é uma intifada, palavra árabe que significa rebelião ou levante, sobretudo em uma região tão disputada quanto a que fica entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, onde os confrontos violentos e as guerras entre árabes e israelenses são a norma desde 1936 e os períodos de paz, uma autêntica exceção.
As intifadas, como a primeira revolta árabe de 1936 a 1939, são voltadas contra a ocupação. Naquele primeiro levante, os árabes tinham dois inimigos, a potência colonial britânica e os emigrantes judeus cuja chegada e instalação queriam evitar. A ocupação que as intifadas combatem desde 1987 é a israelense dos territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, conquistados por Israel em 1967 depois da chamada Guerra dos Seis Dias.
A terceira intifada vem se anunciando há tempo. Cada vez que as coisas andam mal, e quase sempre andam mal, aparece o temor de um levante mais violento que o anterior. É uma profecia apocalíptica e uma ameaça dissuasiva.
Na primeira, as armas palestinas eram pedras e paus, e a resposta israelense, pernas e braços quebrados. Na segunda, os palestinos usaram carros-bombas e comandos suicidas, e os israelenses responderam com aviões, tanques e mísseis que arrasaram as instalações da Autoridade Palestina e suas infraestruturas, e depois construíram um muro de separação. Na terceira, se isto é a terceira, jovens palestinos atacam o primeiro israelense que encontram com o que tiverem à mão, como facas, ou atropelando-os com seus automóveis, e os israelenses respondem a tiros.
As intifadas deixam balanços apavorantes de mortos e feridos, em proporção sempre desigual, e enchem as prisões de jovens palestinos; e esta, embora não seja exatamente uma intifada, não será exceção. Mesmo que não esteja claro se esta onda de facadas é realmente uma revolta organizada, é evidente a conexão ou pelo menos o mimetismo entre tantos comportamentos idênticos por parte de palestinos dos territórios ocupados, mas também de árabes de nacionalidade israelense.
A explicação do governo de Benjamin Netanyahu para tanta violência é a incitação ao ódio e ao antissemitismo por parte das organizações palestinas, seu sistema educacional e inclusive os responsáveis máximos da Autoridade Palestina. A explicação palestina, por sua vez, é que se trata de uma reação descontrolada diante do fracasso do processo de paz, da ocupação e das constantes humilhações que sofre a população palestina nos territórios ocupados.
Ambas as explicações têm seus fundamentos. A denúncia da ocupação muito facilmente recorre a argumentos antissemitas e antijudeus, especialmente utilizados pelo islamismo mais radical e violento. Sobre as condições da ocupação e seus efeitos sobre a população palestina não há testemunhos mais confiáveis do que os proporcionados por entidades israelenses como Peace Now, B'Tselem ou Breaking the Silence.
Esta última associação (Rompendo o Silêncio), formada por ex-soldados israelenses, publica os depoimentos de jovens israelenses que participaram da repressão aos palestinos nos territórios. Os ex-soldados afirmam que lhes atribuem missões destinadas a despossuir e anexar territórios mediante o medo e a intimidação da população palestina, tarefas para as quais as forças de segurança contam com a colaboração dos colonos israelenses, aos quais não tratam como cidadãos comuns sujeitos à mesma lei, e sim como parceiros na ocupação ("El libro negro de la ocupación. Testimonios de soldados israelíes en los territorios ocupados", ed. El Viejo Topo).
A atual intifada das facas começou, segundo os palestinos, como reação ao ataque com bombas incendiárias, no final de julho, a uma família palestina em sua casa perto de Nablus, em que um menino de 1 ano e meio morreu queimado vivo e seus pais morreram em consequência das queimaduras após algumas semanas, sem que se saiba nada até hoje sobre seus autores.
Segundo o governo israelense, por outro lado, a intifada das facas começou no dia seguinte à intervenção de Mahmud Abbas na ONU, em 30 de setembro, quando anunciou que os palestinos já não se sentiam obrigados pelos acordos de Oslo de 1993, nos quais se trocava a paz por territórios, devido à constante ocupação de terras por parte dos colonos israelenses.
O espírito da época também se manifesta nas intifadas, e nelas se forjam as gerações seguintes da resistência palestina. A primeira teve seu espelho na americana CNN, que havia lançado sua rede internacional apenas três anos antes. Na segunda, iniciada em setembro de 2000, foi a cadeia global do Qatar Al Jazeera que difundiu as imagens mais importantes. A revolta atual, em sintonia com a Primavera Árabe, tem nas redes sociais e nos telefones celulares o principal instrumento comunicativo e de difusão das imagens dos ataques.
A primeira intifada terminou desembocando nos acordos de Oslo e conduziu à instalação da Autoridade Palestina em Gaza e na Cisjordânia. A segunda situou a resistência palestina no Eixo do Mal dentro da guerra global contra o terror de Bush, dividiu os palestinos, arruinou sua autonomia e terminou finalmente com Arafat.
Agora, a figura do terrorista individual ou "lobo solitário" escapa à ideia de resistência política mais ou menos pacífica promovida pela Fatah e também à resistência armada do Hamas e se aproxima, em troca, do niilismo da mística jihadista, antiocidental e antissemita do Estado Islâmico (EI).
Vários vídeos divulgados por diversos ramos do EI apresentam os terroristas palestinos como "mujahidin da Casa Sagrada", isto é, guerrilheiros [jihadistas] de Jerusalém, e desqualificam a Fatah como agente do cristianismo e do sionismo e o Hamas como braço palestino do desviacionismo xiita e alauíta. Não sabemos até onde conduz a atual onda de violência, nem quem pode tirar proveito dela, mas nada seria pior do que pôr o conflito entre israelenses e palestinos ao alcance do califado do EI.
Tensão aumenta entre Israel e Palestina
16.out.2015 - Um palestino disfarçado de jornalista esfaqueou e deixou gravemente ferido nesta sexta-feira (16) um soldado perto da colônia de Kiryat Arba, na Cisjordânia ocupada, e foi morto pouco depois, informou o exército israelense - Jameel Salhab/Reuters
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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