sábado, 28 de novembro de 2015

Ataques em Paris fazem muitos na França quererem se juntar à luta
Liz Alderman - NYT
Sebastien Nogier/EFE
Os ataques por militantes do Estado Islâmico em Paris, há menos de duas semanas, despertaram um fervor patriótico não visto na França há décadas.
Milhares de pessoas se alistaram nas forças armadas. As polícias federal e locais estão repletas de candidatos. Até mesmo as vendas da bandeira francesa, que os franceses raramente exibem, foram às alturas desde os ataques, que deixaram 130 mortos.
"Nunca vi nada igual", disse o coronel Eric de Lapresle, um porta-voz do serviço de recrutamento do Exército francês. "As pessoas estão vindo e nos contatando em grande número pelas redes sociais, usando palavras como liberdade, defesa e luta contra o terror."
O aumento na França, onde não há mais serviço militar obrigatório, se assemelha ao que aconteceu nos Estados Unidos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Nos dois anos após aqueles ataques terroristas, o número de pessoas servindo nas forças armadas saltou de mais de 38 mil para 1,4 milhão. Os motivos para muitos desses jovens americanos terem se oferecido voluntariamente para servir são iguais aos de alguns de seus pares franceses hoje.
A poucos quilômetros de onde homens armados invadiram restaurantes e a casa noturna Bataclan em 13 de novembro, os recrutadores no Forte Neuf de Vincennes, no leste de Paris, foram inundados no dia seguinte por perguntas por jovens, ex-militares e até mesmo aposentados desejando saber se e quando poderiam pegar em armas.
Normalmente, cerca de 300 pessoas por dia buscam se alistar no Exército francês, disse De Lapresle. Desde os ataques, que o presidente François Hollande declarou serem um ato de guerra, os números quintuplicaram para cerca de 1.500 por dia, por meio de visitas aos centros de recrutamento e pelo portal na Internet sengager.fr.
Jeremy Moulin estava caminhando com amigos perto de Bois de Vincennes, em Paris, quando mensagens de texto sobre os ataques terroristas começaram a aparecer em seu celular. Na segunda-feira (23), 10 dias após o caos, ele foi ao Forte Neuf para perguntar quão rapidamente poderia estar em uma farda.
"Esses ataques me motivaram ainda mais a proteger meu país", disse Moulin, 23 anos, um ex-estagiário de direito que disse que sempre pensou em se juntar ao Exército, mas agora ganhou nova determinação. "Os terroristas atacaram o coração de Paris. Se não forem detidos, eles o farão de novo."
A Força Aérea francesa, cujos ataques aéreos em retaliação ao Estado Islâmico têm como alvo Raqqa, na Síria, e são vistos em imagens que se tornaram virais na internet, igualmente viu um aumento nos pedidos de alistamento, de cerca de 200 por dia para cerca de 800, disse um porta-voz da Força Aérea. E o site de recrutamento da polícia federal francesa foi visitado mais de 13.500 vezes por dia na semana passada, em comparação aos habituais 4.500, enquanto o número de candidatos saltou de 1.500 a 4.500.
"Os jovens em especial se identificam muito com o que aconteceu", disse De Lapresle. "Os alvos no Bataclan e em outros lugares eram jovens franceses, e os jovens estão dizendo que querem fazer algo."
O aumento do alistamento ocorre enquanto Hollande age rapidamente para elevar os gastos militares para combater o que citou ser uma crescente ameaça terrorista em solo francês e no exterior. Os responsáveis pelos atentados em Paris eram em grande parte cidadãos franceses residindo na França e Bélgica, em coordenação com o Estado Islâmico na Síria. Na sexta-feira, militantes ligados à Al Qaeda, que em janeiro mataram 16 pessoas em ataques ao jornal "Charlie Hebdo" e um supermercado judeu em Paris, realizaram um sítio mortal a um hotel em Bamaco, Mali, fazendo franceses e outros como reféns.
Hollande colocou 10 mil soldados nas ruas de Paris e de outras cidades um dia após os ataques. A força provavelmente crescerá enquanto o governo reverte um plano anterior de cortes orçamentários para redução das forças armadas nos próximos anos.
Os gastos militares franceses, que chegaram a 42 bilhões de euros no ano passado para operações militares, armas, redes de vigilância e apoio, crescerão em mais 600 milhões de euros no ano que vem, para financiar novos postos e equipamento necessário, disse o ministro das Finanças, Michel Sapin, na semana passada.
O Exército francês, atualmente o maior da Europa Ocidental, contará com 10 mil recrutas adicionais neste ano e mais 15 mil no ano que vem. A polícia federal francesa e a gendarmerie expandirão em cerca de 5.000 membros, juntamente com 1.000 novos fiscais aduaneiros e 2.500 no Ministério da Justiça francês.
As fileiras de reservistas também crescerão. Renan Massiaux, um bancário, disse em uma entrevista que ficou "ferido e furioso com os ataques". Aos 32 anos, ele é mais velho do que a idade limite de 29 anos para se tornar soldado, mas espera poder "proteger a França mesmo como reservista", ele disse.
Muitos franceses também buscaram se alistar após o ataque de janeiro ao "Charlie Hebdo" e ao supermercado Hyper Cacher. Pelo menos 30 mil pessoas se candidataram nos meses que se seguiram, apesar de algumas dessas sondagens terem sido por pessoas em busca de vingança –o que as forças armadas não desejam– ou, em alguns casos, por jovens radicalizados fazendo ameaças às forças armadas, disse De Lapresle.
"O ataque ao 'Charlie Hebdo' não necessariamente uniu as pessoas", ele disse, notando que as mortes foram de natureza política. "Mas depois do massacre no Bataclan, todos estão dizendo que desejam defender a liberdade e os valores da França."
Para Ercan Celic, um cidadão francês cujos pais turcos imigraram para a França há 30 anos, o chamado à ação foi estimulado por uma emoção ainda mais profunda.
"Os terroristas atacaram não apenas Paris, mas todo o país. Quando alegam estar agindo como muçulmanos, isso não é verdade –eles não compartilham nossos valores", disse Celic, que é um vendedor de carros que espera se tornar um bombeiro, para responder a futuras emergências, uma posição que exige passar por processo seletivo no Exército francês.
"Quero provar que pessoas como eu podem ser francesas e ter origens diferentes", ele prosseguiu. "Todos nós compartilhamos um desejo comum de proteger o país dessas pessoas."
Tradutor: George El Khouri Andolfato 

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