sábado, 28 de novembro de 2015

Mundo cultural aos poucos volta a se reerguer em Paris
Le Monde
Bertrand Guay/AFP Photo
A frequência a pontos culturais de Paris não voltou a seu nível anterior a 13 de novembroA frequência a pontos culturais de Paris não voltou a seu nível anterior a 13 de novembro
O mundo do entretenimento está ansioso. Dez dias após os atentados do dia 13 de novembro, o público parece estar aos poucos voltando para as salas de espetáculos. Os cinemas retomaram suas plateias, e grandes salas como a Filarmônica de Paris estão voltando a lotar desde que reabriram. Seja no teatro, na dança ou na música, após uma semana sombria marcada pelo medo e pelo luto, os números de espectadores voltaram a tranquilizar. No entanto, todos sabem que o equilíbrio é frágil e olham para o quadro de reservas de forma inquieta e atenta.
"Há possibilidade de crise e catástrofe na cultura", dizem alarmados representantes do Prodiss, o sindicato de empregadores do setor de espetáculos musicais da França, que registrou uma queda de 50% nas reservas no dia 23 de novembro (um avanço, comparado com os 80% de queda observados nos dias que se seguiram aos ataques terroristas); eles pedem por 50 milhões de euros (R$ 200 milhões) em auxílio para cobrir as somas que deixaram de ganhar e os deixaram no vermelho, e para a aumentar a segurança das salas.
Instauração de ingressos nominais que permitam a rastreabilidade, reforço nos controles na entrada, detectores de metais e rondas policiais... Os produtores de shows sabem bem que se quiserem voltar a operar no azul, terão de fazer as pessoas se sentir seguras. Os 4 milhões de euros anunciados há alguns dias pela ministra da Cultura não serão suficientes.
Tanto nos museus quanto nos teatros, o momento é de balanço. Embora os visitantes tenham começado a voltar ao Louvre (onde se viam somente grupos em visitas guiadas na semana passada), houve uma queda de 30% na frequência. O mesmo vale para os museus de arte moderna, como o Centre Pompidou: "Estamos sofrendo como todo mundo, com uma queda de público pela metade", confirma Benoît Parayre, diretor de comunicação do museu. "Para a exposição de Wifredo Lam estamos com 1.000 visitantes diários, contra os 2.000 anteriores." Se quarta-feira foi um bom dia, no fim de semana dos dias 21 e 22 de novembro o Beaubourg esteve vazio.

Diferentes cenários

A mesma preocupação se sente nas grandes casas de música clássica, que no início foram poupadas pelo refluxo. Na Maison de la Radio, embora tenha continuado com uma boa bilheteria, as vendas caíram 33% em relação ao normal. No Théâtre des Champs-Elysées, era possível observar um retorno à normalidade já no sábado (21) para as compras diretas, mas uma queda maciça entre os revendedores parceiros como a Fnac.
As cotas dadas por espetáculo (para um público essencialmente vindo do interior que não faz parte dos frequentadores assíduos) não têm mais procura. Já na Ópera de Paris, ainda que os parisienses e os franceses tenham expressado que continuarão a frequentá-la, foram registrados cerca de 150 cancelamentos para os próximos espetáculos, sendo mais de 80% por parte de estrangeiros (os japoneses foram os primeiros a cancelar).
Foi no teatro e na dança que o cenário mais surpreendeu. No Théâtre de la Colline, os espectadores estão voltando a reservar como de costume. No Odéon-Théâtre de l'Europe, não houve nenhuma desistência para as últimas apresentações de "Vu du pont", montagem de Ivo Van Hove, que terminaram no dia 21 de novembro. O mesmo vale para as que ainda estão sendo anunciadas, como a "Oresteia", de Romeo Castellucci. No Théâtre de la Commune d'Aubervilliers, as apresentações de "A Volúpia da Honra", de Pirandello, dirigida por Marie-José Malis, estão acontecendo normalmente. E, para o próximo espetáculo, "Europa: visita a domicílio", concebido pelo coletivo Rimini Protokoll, que será encenado em 28 apartamentos da cidade, um único habitante desistiu após os atentados.
Já o festival de outono está resistindo muito bem à pressão, tanto na música quanto no teatro e na dança, com mais de 84% dos ingressos vendidos. "Não podemos nos queixar de uma diminuição de público: aqueles que fizeram reservas têm aparecido nas apresentações e as reservas continuam no ritmo de sempre", contam.
Em compensação, a situação do teatro privado, que não conta com as assinaturas, é incomparavelmente mais difícil do que a do teatro subsidiado. Na semana passada, a queda no público foi impressionante: 35%, em mais da metade das salas de Paris, de um total de 57. Já as reservas caíram 55%, também em metade das salas e no mesmo período. Não se deve deduzir a partir disso que a queda real será dessa ordem, pois os espectadores podem voltar a fazer reservas. O sindicato nacional do teatro privado informa que "não estamos contando com um retorno à normalidade, mas esperamos uma melhora."

Ato de resistência

Em outros setores as situações variam bastante. Ao mesmo tempo em que o desempenho de Ambra Senatore, na sexta-feira (20), no Museu Picasso, e o festival Les Inaccoutumés na Ménagerie de Verre lotaram, no Palais de Chaillot registrou-se uma "diminuição nas reservas após o 13 de novembro. O fenômeno veio acompanhado de uma tendência bem forte de os espectadores detentores de ingressos não comparecerem às apresentações, com um índice de no-show de pouco mais de 10%, sendo que este costuma ser inferior a 5%." O mesmo vale para os cafés-teatros, o Palais des Glaces, a Comédie de Paris... O comediante Élie Semoun estava com lotação esgotada no Point Virgule, mas "quase 40% dos espectadores, que já haviam pago, não apareceram", constatou Antoinette Colin, diretora artística do local.
O que significam essas diferenças constatadas? Existiria ali um abismo entre um público de fãs parisienses fiéis a locais que lhe são familiares e onde ele encontra o conforto do coletivo em meio à adversidade, e um grande público mais família, mais preocupado, que prefere a segurança do lar? No cinema, os blockbusters anti-depressão que aparentemente resistiriam melhor do que os outros não escaparam do refluxo, ao passo que os filmes de arte logo voltaram a chamar seus espectadores. Prova disso é a boa bilheteria de "Out 1", de Jacques Rivette. Esse filme de 12 horas e meia, projetado em oito episódios, só no domingo (22) atraiu 760 espectadores ao Reflet Médicis.
Para muitos, sair é um ato de resistência. É o que dizia na segunda-feira (14), no livro de presença da exposição "Osíris, mistérios submersos do Egito" em cartaz no Instituto do Mundo Árabe (IMA): "Primeiro dia de abertura após os atentados. Hesitei bastante em vir, mas não me arrependi. Ficar trancado em casa é recusar-se a viver, e, portanto, recusar-se a lutar pelo que se ama."
"O público das exposições está voltando", afirma David Brucker, secretário-geral do IMA, que hoje registra 2.000 visitantes diários para a exposição "Osíris", ante os 2.500 de antes dos atentados. "As livrarias andam muito bem, sem sofrer da mesma erosão das exposições. As pessoas querem entender, e estão se concentrando nas obras que tratam dos assuntos da atualidade, nas obras a respeito do mundo árabe, nas grandes problemáticas geopolíticas, sociais".
Seguindo o modelo de "Todos para o bistrô!", as instituições musicais lançaram a campanha de mobilização "Todos para o concerto!", com estratégias de fidelização, como "Presenteie-se com um ano de liberdade e associe-se ao Centre Pompidou", e inciativas atraentes, como festas de dub, totalmente gratuitas no fim de semana passado... Ou ainda as 54 galerias parisienses que organizaram para os dias 28 e 29 de novembro a exposição de aristas que elas deveriam apresentar na feira Paris Photo, cancelada na ocasião dos atentados.
Mas é a ausência do público jovem que está sendo dolorosamente sentida hoje. A proibição de que os estudantes frequentem as salas causa um problema crucial aos teatros, tanto em termos de dinheiro, ainda que o Ministério da Cultura e da Comunicação tenha se comprometido a compensar as perdas, quanto de acesso à cultura. No Théâtre Gérard-Philipe de Saint-Denis, Jean Bellorini, o diretor, enviou uma carta aos professores para informar que tudo estava sendo feito para que os alunos pudessem vir individualmente (a 6 euros) ou junto com os pais (a 8 euros).

Espetáculo gratuito

Mas não foram somente as excursões escolares as responsáveis por essa perda de interesse. Com os pais preocupados com seus filhos, o público infantil praticamente sumiu, desde as oficinas pedagógicas da Filarmônica até os filmes de animação no cinema. Um blockbuster para adolescentes como "Jogos Vorazes, a Esperança - Parte 2", atraiu 300 mil espectadores a menos que a primeira parte, lançada há exatamente um ano. No Grande Halle de La Villette, para o espetáculo da companhia circense XY, que estreou no dia 18 de novembro, somente metade dos 950 lugares foram ocupados. A um mês dos grandes espetáculos de Natal para a família, essa constatação acaba preocupando os produtores.
No Théâtre des Dix Heures, o comediante de stand-up Yassine Bellatar mexeu em grande parte de seu show para falar sobre os atentados e suas consequências, "buscando em suas lágrimas para parar de chorar e para voltar a fazer as pessoas rirem", ele diz. "Escrevi motivado pela raiva, pois precisamos mais do que nunca de espetáculos engajados, para proteger a tolerância. Na condição de humorista, francês e muçulmano, tenho o dever de dizer que não temos nada a ver com isso." No próximo fim de semana, assim como foi no sábado passado, sua apresentação será gratuita: "Neste momento preciso ver gente, não dinheiro."

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