sábado, 28 de novembro de 2015

O jogo perigoso da Turquia e os riscos para a NATO
José Pedro Teixeira Fernandes - Público
2. O incidente na fronteira da Turquia com a Síria mostra os riscos. O abate do avião russo Su-24M, pela força aérea turca, é um passo numa escalada de confrontação. Foi a primeira destruição de um avião da Rússia, por um membro da NATO, desde os longínquos anos 1950. Mas isso eram os primórdios da Guerra-Fria. As versões sobre a entrada do avião russo no espaço aéreo da Turquia e os avisos que terão sido feitos, são contraditórios. Independentemente da forma exacta como ocorreu o incidente, a reacção turca parece excessiva. É conhecido que a Rússia estava a fazer bombardeamentos na Síria, não a atacar a Turquia. A Turquia sabia isso. Coincidência, ou não, o timing não podia ser melhor para por em causa uma embrionária grande coligação anti-Daesh (Estado Islâmico). François Hollande, que a tenta implementar depois do 13/N — e nessa altura se encontrava nos EUA para convencer Obama a integra-la junto com a Rússia —, viu os seus esforços destruídos à nascença. A Turquia tem a sua própria agenda na guerra da Síria. Nada tem a ver com democracia pluralista e direitos humanos, aliás, cada vez mais em causa, na própria Turquia governada pelo AKP de Erdogan. Nada tem também a ver com o interesse da União Europeia, que é de pacificar o mais rapidamente possível a região, até por causa do fluxo de refugiados. Vê a ex-província otomana como um território natural da sua influência. Provavelmente, ambiciona que a futura Síria seja uma espécie de protectorado seu. A entrada da Rússia na guerra frustrou largamente as expectativas turcas. Não por acaso, o incidente ocorreu na fronteira da Síria com a província turca do Hatay. O território foi anexado pela Turquia em 1938, quando a Síria estava sob o mandato francês da Sociedade das Nações. A anexação nunca foi reconhecida pela Síria independente desde 1945. Sempre foi um ponto de atrito entre os dois Estados. No cálculo de Erdogan para derrubar Assad está ter um governo sírio que aceite de iure a actual fronteira.
3. A Turquia sempre procurou no Ocidente — no passado na Grã-Bretanha, hoje nos EUA —, um contrapeso para a sua rivalidade com a Rússia dos czares/União Soviética/Federação Russa. É isso que explica a ambição de entrar na NATO, concretizada em 1952. Na altura, a União Soviética de Estaline reivindicava os territórios cedidos ao Império Otomano/Turquia, no Leste da Anatólia, pelo Tratado de Brest-Litovsk, em 1917. Esse foi o Tratado que permitiu a saída antecipada da Rússia da I Guerra Mundial, mas com substanciais perdas de território e população. Foi o preço que os revolucionários bolcheviques tiveram de pagar para consolidarem a revolução. A história e a política internacional estão cheias de cinismo e ironias. A Rússia revolucionária de 1917, mais tarde transformada em União Soviética, foi um decisivo aliado da nascente República Turquia. O contexto era o da guerra contra a Grécia e as potências aliadas da I Guerra Mundial, após a derrota do Império Otomano. O fornecimento de material militar e reabastecimento pela fronteira leste, vindo da Rússia bolchevique, foi decisivo para o movimento nacionalista de Mustafa Kemal Atatürk. Sem esse apoio provavelmente teria sido derrotado militarmente. A situação modificou-se no pós II Guerra Mundial, como a emergência de uma poderosa União Soviética. A Turquia de Inönü procurou a NATO. Receava a vontade de Estaline reverter o Tratado de Brest-Litovsk e a pressão soviética sobre os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo. Os EUA, viram uma oportunidade para consolidar a sua política de containment (contenção) da União Soviética, no Mediterrâneo oriental e Médio Oriente, cercando-a no seu flanco Sul.

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