Christophe Ayad - Le Monde
Lefteris Pitarakis/AP

Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia
A União Europeia enfrenta hoje dois grandes problemas: a ameaça de infiltrações e de ataques jihadistas, como Paris viveu no dia 13 de novembro, e a gestão, bem como a integração, de um fluxo sem precedente de refugiados vindos em sua maior parte de um Oriente Médio devastado pelos conflitos.
Há um país que está bem no cruzamento dessas duas crises, que se confundem uma com a outra e acabam alimentando as correntes populistas que defendem um desmantelamento da frágil e complexa construção europeia: trata-se da Turquia, essa potência que não é nem europeia, nem asiática (ou é ambas ao mesmo tempo), nem uma ditadura, nem uma democracia, nem realmente laica ou completamente islâmica, nem rica nem em desenvolvimento, e cujo principal combustível do momento é um nacionalismo exacerbado.
Desde os atentados de Paris, muitos colunistas dissertaram sobre o complicado papel exercido pela Arábia Saudita na difusão de uma ideologia sectária e intolerante que facilita o trabalho do salafismo jihadista, o qual a organização Estado Islâmico diz seguir. Nada disso é mentira, mas reformar a Arábia Saudita, o que ela mesma começou a fazer, não sem erros, levará décadas. Nesses tempos de urgência, se os europeus quiserem retomar o controle de seus destinos, eles precisarão antes de tudo decidir uma linha de conduta sobre a questão turca. A UE realizará no domingo (29) uma cúpula extraordinária com Ancara, em Bruxelas.
Espiral fatal
Só que enquanto a Turquia não cooperar de forma resoluta, nada será possível na Síria: nem o combate ao EI, nem uma gestão refletida da questão dos refugiados. Devido à sua posição geográfica e seus 900 km de fronteiras compartilhadas com a Síria, a Turquia ocupa uma posição estratégica na guerra civil síria. Ela ao mesmo tempo sofreu suas consequências, ao acolher 1,7 milhão de refugiados e vendo emergir uma entidade curda que ignora as fronteiras, como também jogou lenha na fogueira, deixando passar armas, petróleo e combatentes (incluindo jihadistas) de ambos os lados da fronteira.Alguns meses depois do início do levante sírio, na primavera de 2011, o dirigente turco Recep Tayyip Erdogan tomou partido contra seu ex-amigo e protegido sírio Bashar al-Assad, com o qual ele mantinha uma relação de amizade pessoal. Essa guinada se originou em uma mistura de despeito violento --Bashar se voltou contra o Irã e ignorou os conselhos de reforma dados generosamente por Erdogan-- com interesse político: a inevitável queda do dirigente alauíta abriria a porta para um poder sunita islamita, do qual Erdogan já se via como o "irmão mais velho", assim como em todo o resto do mundo árabe prometido no reinado radiante da Irmandade Muçulmana.
Não foi por amor à democracia que Erdogan apoiou os insurgentes sírios, mas sim por solidariedade religiosa e por vontade de hegemonia neo-otomana sobre o Oriente Médio. As pessoas se esquecem de que, no momento da revolução líbia, ele chegou a repassar informações sobre os futuros ataques da Otan a seu aliado líbio através dos oficiais turcos presentes no centro das estruturas da Aliança?
A aposta de Erdogan em uma queda rápida do regime sírio fracassou, assim como a de se tornar o sultão de um Oriente Médio dirigido pela Irmandade Muçulmana, após o golpe de Estado do Exército no Egito e da queda do Ennahda na Tunísia. Para se vingar da guinada turca, Bashar al-Assad deu toda a liberdade de ação aos milicianos do PYD, o partido curdo sírio gêmeo do PKK turco, inimigo jurado de Ancara. A espiral fatal continuou. Erdogan reagiu pondo um fim no processo de paz com o PKK e lançando-se em uma repressão interna que lembrou os piores anos da guerra civil. Com a ajuda de campanhas eleitorais irrestritas, o presidente Erdogan soltou os demônios de um ultranacionalismo turco.
Nessa guerra por procuração, Recep Tayyip Erdogan não teve medo de utilizar os movimentos jihadistas e as forças islamitas em seu benefício na Síria. Seria ele, como clamou Vladimir Putin depois que um de seus aviões foi abatido acima da fronteira síria por caças turcos, um "cúmplice dos terroristas"? Pode ter sido precipitado, mas o presidente russo soube, como de costume, colocar o dedo na ferida, para ganhar o apoio dos europeus, e em especial da França, a seus planos, tanto na Síria quanto na Crimeia, onde ele se encontra em um conflito latente com a Turquia.
De fato, a Turquia também vive sob a ameaça do EI, mas ela evita enfrentar o movimento jihadista muito abertamente uma vez que três atentados suicidas, cometidos em sua maior parte contra o público curdo, já ensanguentaram o país nos seis últimos meses.
Para convencer a Turquia a lutar de forma eficaz contra o EI e segurar os refugiados sírios, por ora complacentemente enviados para o vizinho (e inimigo) grego, os europeus terão de determinar o preço que estão dispostos a pagar. Os US$ 3 bilhões (cerca de R$ 11 bilhões) exigidos por Erdogan em dois anos certamente não serão suficientes. O verdadeiro preço corresponde aos objetivos de guerra da Turquia na Síria: a garantia de conter, à força se necessário, a expansão curda e/ou a cabeça de Bashar al-Assad. É muito, é demais e, sobretudo, está no extremo oposto da mudança de abordagem anunciada por François Hollande após os atentados do 13 de novembro.
O presidente francês optou por dar prioridade ao combate ao EI no lugar da saída de Bashar, e seu ministro da Defesa está tentado a contar com os curdos da Síria para combater os jihadistas em solo. Seus parceiros europeus por ora se sentem mais ameaçados pela crise dos refugiados do que pelos atentados, ainda que estejam enganados ao acharem que serão poupados. Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan, opostos em tudo neste momento, devem estar saboreando juntos o espetáculo oferecido pelos europeus, impotentes, desunidos e acuados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário