Falta prudência
São raros os
que se encontram em dúvida sobre a decisão a tomar, pois não há muito a
pensar nesse assunto. O crime de responsabilidade cometido pela
presidente Dilma está caracterizado, e não é possível relativizar essa
má conduta, a não ser para aqueles que consideram uma bobagem o
equilíbrio fiscal.
Além do mais, diante do descalabro do país,
não há nada que indique que o retorno da presidente afastada vá trazer
algum tipo de mudança na sua visão de mundo ou na sua maneira de
governar. Portanto, além do fato criminoso passível de impeachment em
si, há o conjunto da obra que, se não pode ser imputado oficialmente,
influencia naturalmente a decisão dos senadores.
E seria uma
grande irresponsabilidade trazer de volta ao governo aquela que foi
afastada num longo processo decisório que não recebeu nenhum fato novo
que possa modificá-lo. Nem mesmo os críticos do início do governo Temer
têm razão suficiente para preferir Dilma a ele, a não ser os ideológicos
ou os que têm, por razões específicas, simpatia pela presidente
afastada.
Esse grupo anda fazendo muito alarde, mas creio que os
petistas mais conseqüentes sabem que é impossível a Dilma recuperar a
capacidade de governar que nunca teve. Tanto que o melhor que podem
oferecer em troca do apoio é a garantia de que ela renunciará ao mandato
e convocará novas eleições.
Ora, se é para tal, porque não faz
isso agora mesmo, abrindo caminho para que o governo Temer
estabilize-se? Claro que o que move a presidente afastada e seus poucos
seguidores (?) é um espírito de vingança contra o vice que consideram
traidor. Mas em política esse sentimento de revanche tende a não ser
duradouro, e para o PT o melhor mesmo é se livrar do fardo que Dilma
Rousseff representa e recomeçar seu posicionamento na oposição, torcendo
para que Temer erre bastante nesses pouco mais de dois anos.
Nesse
intervalo, alguns senadores buscam se posicionar para troca de favores,
de um lado ou de outro. Não parece, no entanto, que existam razões
realmente ponderáveis para fazer o cenário político retroceder. Mesmo as
críticas ao governo interino têm que ter o sentido de mantê-lo
caminhando para frente, evitando novos erros.
O processo de
escolha dos assessores mais diretos continua ignorando regras básicas de
prudência, quando não descuida da ética pura e simplesmente. Essa nova
secretária para política das mulheres, ex-deputada Fátima Palaes, já
causara estranhamento ao ser escolhida, pelo posicionamento contrário ao
aborto mesmo em caso de estupro.
Não bastasse isso, no entanto,
ela é acusada pelo Ministério Público de ter desviado dinheiro de
emendas parlamentares para empresas fantasmas, e ficado com parte dele.
Mesmo que possa ser uma acusação ainda não comprovada, e fruto de uma
disputa política como alega, não é saudável para um governo interino
arriscar sua reputação com uma nomeação polêmica como essa.
Também
o advogado Torquato Jardim, colocado por Temer no ministério da
Transparência em substituição a um nada transparente assessor de Renan
Calheiros, deu entrevista recente com comentários céticos em relação à
Lava-Jato e com críticas pesadas à classe política. Não parece uma
figura que pacifique o cenário do governo interino.
Estranhamente, anda faltando prudência ao presidente Temer, tido e havido como uma politico cauteloso e experiente.
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