Referendo autorrevogatório
As condições para tanto estarão
fixadas previamente em lei, e, como agora na Venezuela, um referendo
revogatório pode definir a saída do presidente Nicolas Maduro. Não há
razão, portanto, para que se estranhe a retirada de cena da presidente
Dilma Rousseff por uma questão fiscal que pode ser considerada
equivocadamente menor, mas prevista na Constituição.
Mais importante,
porém, é verificar que a manipulação dos controles fiscais deve ser
punida fortemente porque pode levar, como levou, o país à falência, com
toda a série de conseqüências sociais que estamos assistindo. É preciso
viver em outro mundo, ou não ligar lé com cré, para não entender que
colocar uma Nação em recessão por dois ou três anos seguidos pelo mau
uso das verbas publicas, especialmente com interesses eleitoreiros, é um
crime de lesa pátria que merece o repúdio dos verdadeiros patriotas.
É
preciso ser muito cínico para sair pelo país gritando contra um suposto
golpe e não dizer uma palavra sequer contra a espoliação da Petrobras,
um símbolo nacional que simplesmente foi dilapidado com objetivos
eleitoreiros, e deixou muita gente rica no rastro da destruição. Assim
como a Eletrobrás, os fundos de pensão, e assim por diante.
A razão
para o pedido de impeachment é meramente técnica por culpa de uma
legislação antiquada de 1950 que ignora a implantação da reeleição no
país a partir de 1998. Se tivesse sido atualizada, como tantas outras
leis que se ressentem disso, a do impedimento presidencial não separaria
os mandatos do político reeleito, deixando de dar-lhe um cheque em
branco do primeiro para o segundo mandato.
Ao interpretar a lei em
vigor com olhar anacrônico, os juristas fazem um mal ao país, pois não
permitem que prevaleça o bom-senso na execução das normas legais. Os
crimes diversos de que a presidente afastada está sendo acusada nas
várias delações premiadas mostram uma governante muito menos imaculada
do que o marketing político quer fazer crer, e reforçam a idéia de que o
conjunto a obra é de tal modo avassalador que não há razão para que
políticos de boa-fé fiquem em dúvida sobre a necessidade de mantê-la
longe do Palácio do Planalto.
É possível não simpatizar com o
presidente interino Michel Temer, até mesmo lamentar que o poder tenha
caído no colo do PMDB, um partido que paga a conta de seu passado
fisiológico com a permanente ameaça de ser atingido por investigações da
Lava-Jato. Mas não é possível aceitar a tese de que Temer não pode
assumir a presidência, mesmo que esteja a merecer críticas vigorosas, ou
venha a merecê-las.
Nesse caso, vale a mesma lógica abordada no
início do texto: um mau governo não é razão para o impedimento do
presidente. Seria mais uma jaboticaba política, aquela que não se
encontra em nenhum outro país do mundo, a coroar a verdadeira pantomima
em que se transformou esse período de exílio que separa a declaração da
Câmara da definição do Senado sobre o impeachment.
Fica a presidente
afastada a perambular pelo país às nossas custas, como um Napoleão de
hospício a dizer “a presidente sou eu”, quando ela mesma sabe que
presidente não tem condições de ser.
Tem razão o presidente do
Senado, Renan Calheiros, quando diz que não há solução fora do que prevê
a Constituição, referindo-se a essa estapafúrdia idéia de levar de
volta ao governo a presidente Dilma Rousseff para que ela convoque um
referendo revogatório contra si mesma.
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