As razões de Pequim para votar com Moscou no Conselho de Segurança da ONU
Minxin Pei - Herald Tribune
De muitas maneiras, a decisão da China de se unir à Rússia para vetar a resolução sobre a Síria no Conselho de Segurança da ONU parece uma aberração. O veto não apenas descarrilou a última tentativa de pressionar o regime Assad a encerrar sua repressão sangrenta, como também prejudicou as relações da China com o Ocidente e com a Liga Árabe, que patrocinou a resolução.
Na verdade, o fator mais importante na decisão da China teve pouco a ver com os laços Pequim-Damasco, e tudo a ver com sua cooperação diplomática com Moscou.
Desde que voltou à ONU em 1971, a China foi parcimoniosa no uso do veto no Conselho de Segurança. Muitas vezes preferiu abster-se em votações que não apoiava. Sempre que usou o veto - foram oito vezes - as questões eram geralmente de importância para seus interesses nacionais.
Em agosto de 1972, por exemplo, a China bloqueou a admissão de Bangladesh na ONU em apoio ao Paquistão, do qual Bangladesh acabara de conquistar a independência e que era aliado de Pequim. Em janeiro de 2007 a China, juntamente com a Rússia, vetou uma medida que impunha sanções a Mianmar (antiga Birmânia), um Estado cliente da China na época. Em julho de 2008, a China aderiu à Rússia para eliminar uma resolução que punia o regime Mugabe do Zimbábue, outro aliado de Pequim.
A Síria, entretanto, parece um caso estranho para a China gastar seu valioso veto. A China tem poucos interesses estratégicos ou econômicos no país. Mesmo assim, dos oito vetos que ela impôs ao Conselho de Segurança, dois já envolveram a Síria. O primeiro foi em outubro do ano passado, quando a China se uniu à Rússia para bloquear uma resolução com sanções apoiadas pela Europa.
Aos olhos dos chineses pragmáticos, o regime Assad não vale um veto. Mas os russos, motivados por seus interesses econômicos e de segurança na Síria, se opõem à resolução. E a China, aparentemente, decidiu que era melhor não ameaçar as relações com os russos para não correr o risco de perder apoio quando precisar, no futuro.
O eixo de obstrução Rússia-China no Conselho de Segurança agora se tornou uma variável crítica no processo de tomada de decisões do conselho. Os dois países parecem ter alcançado um entendimento estratégico: eles atuarão para desafiar o Ocidente juntos, de modo que nenhum pareça isolado. A China vai apoiar a Rússia em questões mais críticas para Moscou (como a Síria), enquanto a Rússia fará o mesmo em questões que importam à China (como Zimbábue ou Mianmar).
Assim, para aprovar resoluções o Ocidente geralmente precisa convencer um dos dois (na maioria das vezes a Rússia) a abandonar suas objeções, geralmente atenuando as sanções propostas. A Rússia é geralmente mais confrontadora que a China, que prefere deixar a primeira fazer a maior parte do trabalho para frustrar os EUA e a Europa no conselho. É por isso que em questões relacionadas ao Irã o Ocidente constantemente se concentrou em conquistar a Rússia.
Outro fator que aparentemente inclinou a balança em Pequim a favor de usar o veto é a hostilidade ideológica do Partido Comunista Chinês pelas transições democráticas.
Desde que a Primavera Árabe derrubou antigas ditaduras no Oriente Médio, a máquina de propaganda do partido não poupou esforços para retratar os acontecimentos na região sob a luz mais negativa. Temendo uma rebelião semelhante na China, o partido endureceu a censura e intensificou a perseguição aos dissidentes. A derrubada do regime Assad, especialmente se acontecer em consequência de um ato do Conselho de Segurança, intensificaria a oposição pró-democracia – em Pequim e em Moscou.
Os líderes chineses compreenderam que seu veto prejudica os laços com o Ocidente. Mas parecem acreditar que não teriam ganhado muito se tivessem se abstido ou votado sim. Um destacado especialista em política externa chinesa, Yan Xuetong, da Universidade Tsinghua, escreveu em seu blog que a China, que tem uma imagem negativa no Ocidente por causa de seu pobre histórico de direitos humanos, não teria recebido qualquer crédito ou uma repercussão melhor na imprensa se tivesse cooperado com o Ocidente sobre a Síria.
Isso talvez seja verdade. Mas os líderes chineses verão que seu veto não foi livre de custos. Seus esforços extensos para polir sua imagem no Ocidente, que hoje consistem em campanhas luxuosas de relações públicas e uma nova rede de notícias em inglês, deverão ser minados por essas ações.
E se uma "Primavera Russa" conseguir remover Vladimir Putin em algum momento, Pequim poderia se tornar a única grande potência autocrática no Conselho de Segurança.
Minxin Pei é professor de governo no Claremont McKenna College em Claremont, Califórnia
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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