segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CULPAR ALEMÃES NÃO É A SOLUÇÃO PARA A GRÉCIA

Antigermanismo cresce na Grécia
Johannes Korge e Ferry Batzoglou - Der Spiegel
Não é raro ver atualmente bandeiras nazistas em manifestações gregas. E comentários antigermânicos no horário da televisão grega também se tornaram comuns. Na Grécia tem aumentado o consenso em relação a quem dever ser responsabilizado pelos problemas econômicos do país. E estereótipos antigos estão na moda.
Georgios Trangas perdeu-se novamente em uma crítica furiosa. Ele pareceu ter se esquecido completamente dos quatro convidados no seu estúdio. Trangas olhou fixamente para a câmera e abordou o seu assunto favorito: os alemães, e como estes estão empurrando a sangue frio a Grécia para o abismo. “A Alemanha não se importa com o fato de três milhões de aposentados estarem morrendo aqui”, disparou ele.
E essa sentença foi uma das afirmações menos agressivas em programa exibido na semana passada. Mas artilharias verbais desse tipo estão longe do incomum na rede de televisão de "Atenas Extra 33", um canal repleto de críticas furiosas aos “ocupantes alemães”.
O programa se chama “Choris Anästhetiko”, e ele faz jus ao nome, cuja tradução é “Sem Anestesia”. As boas maneiras são um conceito desconhecido no programa, que oferece análises rudes da crise econômica e da dívida que flagela a Grécia. Os especialistas convidados a expor as suas opiniões no programa fazem pouco mais do que proporcionar ao moderador desculpas adicionais para que este se lance em monólogos agressivos.
“São medidas bárbaras”, disparou Trangas, referindo-se às demandas de austeridade feitas pela chamada troica, formada pela União Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional. Segundo ele, quem controla tudo é na verdade Berlim.
Figura Cult
O problema, é claro, é que Trangas não está simplesmente manifestando os seus pontos de vista sobre a crise em uma mesa de bar. Ele ocupa o horário nobre da televisão grega. Além disso, ele tem um programa de rádio matinal, escreve colunas para jornais e é dono de uma revista. Trangas é uma figura cult. O que ele fala tem um certo peso na Grécia. Ele reduz rapidamente problemas complexos a simples slogans, e com a mesma rapidez identifica quem seria o responsável. E os responsáveis apontados por ele raramente podem ser encontrados no país.
Se o rumo da conversa voltar-se para a chanceler alemã Angela Merkel, ou se Trangas forçar este assunto, ele perde totalmente o controle. “Ela age como se fosse honesta. Mas, na verdade, companhias alemãs estão pagando propinas na Grécia há anos e elas fazem empréstimos de risco”, acusa ele. “Angela Merkel está mentindo quando diz que nada sabia sobre isso. Mas agora ela está fazendo o papel de guardiã fiscal”. Os ataques continuam por vários minutos. Trangas menciona estatísticas misturadas a referências aleatórias ao regime nazista. Até mesmo os convidados para a entrevista começam a abaixar a cabeça passivamente.
Na parede atrás de Trangas há um monitor de televisão. Nesta noite, a imagem na tela continua neutra. Mas isso nem sempre ocorre. Em certas ocasiões, Trangas gosta de mostrar imagens de Angela Merkel intercaladas com as de soldados alemães da Segunda Guerra Mundial marchando.
Apenas alguns minutos após o término do programa, um Trangas amigável está relaxado no seu escritório. Ele pede ao seu guarda-costas que traga uma bebida para o seu convidado da Alemanha, antes de afirmar: “Eu na verdade não tenho nada contra os alemães”. Mas Trangas frisa que detesta aquilo que Angela Merkel e a troica que ela supostamente lidera estão fazendo com a Grécia.
A seguir, ele toma fôlego e faz uma repetição quase que literal das acusações que acabou de fazer na televisão. Meia hora depois, até mesmo Trangas acha que já deu sermões demais para esta noite. Ele deseja uma boa estada em Atenas ao convidado alemão, veste o seu casaco com o auxílio de um segundo guarda-costas e desaparece na noite dentro do seu veículo utilitário esportivo. O automóvel é alemão.
Sentimento venenoso
Trangas é um mestre da hipérbole, e conquistou muitos telespectadores com os seus ataques. Mas muita gente na Grécia concorda com a mensagem central dele. Ver a União Europeia como o “Quarto Reich Alemão” não é nenhuma novidade no país, e aqui tem-se a sensação de que o sentimento antigermânico fica mais venenoso a cada dia.
Realmente, na semana passada as associações que representam médicos, advogados e engenheiros estruturais se reuniram em Atenas e concordaram em implementar um boicote unificado a produtos da Alemanha. Ninguém sabe ao certo como o boicote será colocado em prática. Mas isso poderia se constituir no início de um movimento antigermânico de dimensões mais amplas. A queima de bandeiras alemãs e a exibição de suásticas já se tornaram episódios comuns nas manifestações populares contra a austeridade econômica imposta à Grécia.
Stathis Stavropoulos conhece bem os símbolos do Terceiro Reich. Ele está sentado, fumando um cigarro atrás do outro, diante de uma mesa de um escritório espartano do jornal “Eleftherotypia”, localizado a uns poucos quilômetros dos estúdios da "Extra 33". O jornal está em greve há meses, as salas estão escuras e sem aquecimento. Enquanto isso, Stavropoulos encontrou um emprego em um outro jornal, mas mesmo assim ele decidiu receber o seu interlocutor alemão aqui nos escritórios do “Eleftherotypia”. Pouca gente na Grécia sabe qual é a aparência física de Stavropoulos. Mas todos conhecem os seus desenhos. Stavropoulos é o mais conhecido caricaturista do país – e ele também se concentra em um único assunto desde o início da crise: os alemães.
As caricaturas dele são vistas todas as semanas por bem mais de 100 mil leitores. Até mesmo o “New York Times” publicou recentemente uma das suas caricaturas, conta ele com orgulho. Não importa se a autoridade retratada seja Angela Merkel, Nicola Sarkozy, o diretor da Força Tarefa da União Europeia para a Grécia ou os líderes do governo grego, Stavropoulos veste todos eles com uniformes alemães da Segunda Guerra Mundial e os retrata cometendo abusos contra os gregos.
Ele tem um estilo que nada tem a ver com os ataques descontrolados de Trangas. Stavropoulos prefere um tipo de provocação mais sofisticado. “É claro que o meu objetivo é chocar as pessoas com os meus desenhos”, diz ele. “Mas a agitação inicial deve ser seguida pela reflexão. É isso pelo menos o que eu espero”, explica Stavropoulos, enquanto pega o próximo cigarro.
Stavropoulos diz estar consciente do perigo de que o uso que ele faz dos símbolos da Segunda Guerra Mundial possa alimentar ainda mais ressentimentos entre a população grega. Mas ele insiste que vale a pena quebrar alguns tabus em nome do debate. E ele diz também que a sua crítica se concentra nos líderes políticos alemães e nos lacaios gregos destes, e jamais no povo alemão como um todo.
E será que os seus leitores são capazes de perceber essa diferença sutil? O cartunista diz que não tem muita certeza quanto a isso.
Tradutor: UOL

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