Não humilhem os gregos
Alexis Papahelas - Herald Tribune
No último domingo (12), enquanto o Parlamento grego adotava as mais recentes reformas e medidas de austeridade, incendiários encapuzados atacavam o centro de Atenas e batalhões de choque da polícia dispersavam os manifestantes com gás lacrimogêneo.
As medidas eram tão severas que mais de 20 parlamentares de cada um dos dois partidos da coalizão de governo se rebelaram e votaram contra elas.
Todavia, os políticos que têm se mantido firmes na implantação das reformas nos últimos dois anos tomaram as decisões difíceis que foram exigidas a eles, enfrentando a ira de uma população enfurecida e exausta pelo quinto ano de recessão, queda da renda, impostos mais altos, colapso dos serviços, 20% de desemprego e nenhum fim aparente para as dificuldades.
Seria de se esperar que os parceiros da Grécia na União Europeia e seus credores no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Central Europeu (BCE) atuariam rapidamente para fortalecer a posição dos reformistas sitiados do país e de seu líder, o primeiro-ministro Lucas Papademos, um ex-vice-presidente respeitado do BCE.
Em vez disso, a votação foi recebida com mais ceticismo, mais exigências e declarações vistas como uma interferência direta na política da Grécia, minando a autoridade para implantação das reformas do governo centrista pró-UE diante da oposição virulenta da esquerda e da direita.
É compreensível que alguns parceiros da Grécia tenham perdido a paciência com a liderança política do país, que tem fracassado repetidamente em cumprir as promessas de reformas em troca de empréstimos.
Mas as pessoas estão cada vez mais desesperadas. Nosso futuro depende de nossas próprias decisões, mas a menos que o restante da Europa apresente um modo mais construtivo de engajar o povo grego, a situação poderá sair de controle. Não apenas a Grécia seria forçada a deixar a zona do euro, como também poderia facilmente se transformar em um Estado fracassado.
A Grécia precisa de um pouco de crédito e compreensão. Por meio de cortes severos de gastos e aumentos de impostos, o déficit orçamentário primário caiu de 24,7 bilhões de euros para apenas 5,2 bilhões de euros. Infelizmente, os estereótipos de gregos preguiçosos e improdutivos tomou conta do discurso público na Europa.
Isso é injusto para com os milhões de gregos que pagam seus impostos, trabalham duro e acreditam que a Grécia precisa mudar. Nossos políticos, ou pelo menos boa parte deles, parecem dispostos a fazer o sacrifício e implantar plenamente o compromisso do país com seus parceiros estrangeiros e credores.
Mas até mesmo os gregos que reconhecem a necessidade de sacrifício e decisões difíceis agora estão se tornando céticos sobre se isso levará ao crescimento ou se os esforços de consolidação fiscal estão sendo engolidos pela recessão. A fadiga de reforma agora está ameaçando a estabilidade política e fortalecendo os populistas e eurocéticos, cuja retórica ganha credibilidade quando alguns de nossos parceiros se comportam como déspotas medievais.
Vamos colocar de outra forma: a Grécia perdeu a guerra da sobrevivência econômica e agora depende de empréstimos e ajuda financeira de seus parceiros. A maioria dos gregos sabe que o país não terá acesso aos mercados internacionais por muitos anos e apreciam a ajuda em um momento de necessidade. Eles também entendem que essa ajuda vem com uma camisa de força financeira que não desaparecerá tão cedo.
O que eles não conseguem engolir é o tipo de imposição autoritária que parece vir da Alemanha e de alguns de seus parceiros do norte da Europa. Isso fere o orgulho de toda a nação e impossibilita para as forças da reforma convencer as pessoas sobre a necessidade de mudança.
Nós sabemos o que imposições autoritárias à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial causaram. A Grécia está à beira de um colapso semelhante. Os extremistas, tanto de esquerda quanto de direita, estão em ascensão e a violência política está se espalhando. Eu posso ver a chegada de um período de Weimar na Grécia, com gangues começando a destruir escritórios políticos diariamente e extremistas de direita ganhando popularidade entre os menos privilegiados.
Alguns de nossos parceiros parecem estar se concentrando mais em formas de humilhar nossos líderes políticos ou o grego comum do que em fazer com que o trabalho seja feito. Se de alguma forma acreditam que forçarão uma mudança da cultura política ou de pessoal por meio de intimidação, eles estão extremamente errados. Nenhum país pode ser liderado sob tamanha pressão sem algum encorajamento e incentivo.
Nós não queremos que a Grécia receba um passe livre: nós temos que mudar, reformar nossa economia e o serviço público, assegurar que todos paguem seus impostos, etc. Nossos políticos parecem prontos para implantar reformas profundamente impopulares. Um governo de coalizão foi formado para esse fim e provavelmente continuará de outra forma após a próxima eleição.
Este é um momento para prazos e pressão. Mas não é um momento para imposições autoritárias. A Alemanha deveria ter aprendido com a forma como foi tratada depois da Segunda Guerra Mundial: houve pressão para mudança e reforma, mas sem a humilhação que ocorreu após a Primeira Guerra Mundial.
Eu presumo que nem a Alemanha e nem qualquer outra grande potência ocidental queira que a Grécia se torne um Estado fracassado em um bairro bastante instável e imprevisível. Eu rezo para que este seja o caso e para que nossos parceiros exercitem a prudência e um pouco de paciência com um país que está lutando para permanecer em pé.
Nós conseguimos nos reerguer muitas vezes no passado, às vezes após desastres nacionais autoinfligidos. Nós o faremos de novo. Mas precisamos de encorajamento e liderança esclarecida por parte de nossos parceiros, não de torcer de braços ou de mais humilhação.
A União Europeia foi fundada em um equilíbrio saudável de responsabilidade nacional e solidariedade europeia; nós precisamos redescobrir isso.
(Alexis Papahelas é o editor-executivo do jornal grego “Kathimerini”.)
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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