Herói das reformas ataca a corrupção em cidade grega
Julia Amalia Heyer - Der Spiegel
Autoridades da União Europeia não têm poupado elogios ao prefeito da cidade grega de Tessalônica. Yiannis Boutaris tem implementado reformas amplas a fim de acabar com os abusos cometidos pelos seus predecessores, e ele já reduziu os gastos da prefeitura em 30%. Para melhor administrar os problemas, Boutaris está até pedindo conselhos aos alemães.
O prefeito da cidade grega de Tessalônica, no norte do país, estava sentado em uma sala enorme no distrito de Tempelhof, em Berlim. Ele não suavizou as palavras. “A sua cidade está limpa, enquanto a nossa está suja”, disse Yiannis Boutaris, falando com uma voz profunda e grave. “Aquilo que funciona na sua cidade não funciona na nossa”. Ele veio a Berlim para aprender como modificar essa situação deplorável. E ele deseja fazer isso o mais rapidamente possível.
Boutaris, 69, é um homem magro e vigoroso, que usa óculos de metal dourado e um brinco de ouro na orelha, e que tem cabelos grisalhos meio arrepiados. Ele e a sua delegação estão visitando a sede da companhia de lixo de Berlim BSR. Na parede atrás dele há um projetor. Boutaris acabou de assistir a uma apresentação em PowerPoint sobre a forma como Berlim pratica a “reciclagem de lixo biogênico para utilizar resíduos orgânicos provenientes do lixo residencial”. Ele sabe que a capital alemã gera 1,3 milhão de toneladas de lixo anualmente, e que os 200 mil cães da cidade representam um dos maiores obstáculos para manter as ruas limpas.
Mas os cães são o menor dos problemas em Tessalônica, uma cidade na qual o sistema inteiro de coleta e processamento de lixo não funciona. Boutaris ergue as mãos e diz: “Nós precisamos da ajuda de vocês”.
O fato de o prefeito da segunda maior cidade da Grécia estar fazendo esse pedido já é, por si só, notável. Todos os dias os jornais gregos falam sobre os supostos paralelos entre a atual situação do país e a ocupação nazista. E agora um político grego está pedindo conselho aos alemães sobre como limpar a sua cidade?
Dizer que as relações entre os gregos e os alemães não andam boas seria minimizar os fatos. Os gregos detestam ainda mais a chanceler alemã Angela Merkel do que os seus próprios políticos, que não ousam mais sair às ruas. Os gregos acreditam que as medidas de austeridade que Angela Merkel está exigindo deles estão tornando a vida dos gregos cada vez mais impossível.
Boutaris é o político mais incomum da Grécia, apesar da sua insistência em afirmar que não é na verdade um político. Ele afirma ser o oposto de um político. Boutaris garante ser apenas um empresário que dedica-se a um novo projeto: administrar a cidade de Tessalônica, da qual ele é prefeito há quase exatamente um ano.
É relativamente incomum que os observadores internacionais que trabalham para a chamada troica, formada pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Central Europeu e pela União Europeia, em Atenas, digam algo de positivo sobre um político grego. E praticamente nunca ninguém os viu elogiar um grego por apreciar reformas, conforme eles estão fazendo em relação a Boutaris. As autoridades da troica dizem nos seus relatórios, que, desde que Boutaris assumiu a prefeitura, Tessalônica tem sido uma “ilha de esperança” e um “modelo para toda a Grécia”. Um membro da equipe da Comissão Europeia em Atenas afirma: “Boutaris é a exceção. Um raio de luz. Todos tem algo a aprender com ele”.
Esse político altamente elogiado é vinicultor. Os seus vinhos Xinomavro, Syrah e Merlot ganharam medalhas de ouro em competições internacionais. Ele passou a responsabilidade pela sua vinícola para os três filhos quando decidiu, alguns anos atrás, dedicar a atenção integral à cidade.
Há sete anos ele criou a “Iniciativa para Tessalônica”, uma espécie de associação de cidadãos. Ele passou a circular de bicicleta pela cidade como parte de uma campanha por mais transporte público e melhor manutenção dos espaços públicos. Boutaris assumiu o cargo de prefeito em janeiro de 2011, e ele não é filiado a nenhum partido, embora o Movimento Socialista Pan-helênico, um partido de centro esquerda, tenha apoiado a sua eleição.
“Demorou um pouco, mas atualmente eu sei como as coisas funcionam aqui”, diz Boutaris, com um sorriso na face enrugada. Ele está de pé em frente a um painel no seu gabinete na prefeitura, um prédio que é um feio bloco de concreto. São cerca de 12h de um dia de fevereiro. A voz rouca de Janis Joplin é reproduzida por um aparelho de som. Afixado ao painel atrás do prefeito está um pedaço de papel branco no qual está escrita a mensagem em inglês: “We're going to believe in honest things again" (“Nós voltaremos a acreditar em coisas honestas”).
“O fato positivo em relação a esta crise”, diz Boutaris, “é que os gregos estão sendo obrigados a mudar a maneira de pensar, e que chegaram ao fim as promessas vazias e as ações irresponsáveis dos políticos. Não sobrou dinheiro algum para comprar eleitores. Como resultado disso, os políticos estão tendo que fazer alguma coisa de fato”.
Pouco após tomar posse como prefeito, Boutaris viajou para Istambul a fim de dar início a uma campanha para convencer os turcos, inimigos tradicionais dos gregos, a fazer uma visita à “nossa antiga cidade” (Tessalônica fez parte do Império Otomano até 1912). Após a viagem de Boutaris a Istambul, a Turkish Airlines voltou a fazer voos diretos entre as duas cidades, e o número de turistas turcos dobrou no ano passado.
O turismo é uma importante fonte de recursos para Tessalônica, onde o índice de desemprego é de 25%. Mas Boutaris pode se gabar de que os seus maiores sucessos dizem respeito à reorganização da administração da cidade. Boutaris está fazendo voluntariamente aquilo que os europeus vêm exigindo que o resto da Grécia faça nos últimos dois anos com cada novo empréstimo, e aquilo que atualmente deveria estar sendo implementado por meio da assistência internacional: ele está tentando fazer com que a sua cidade funcione de forma mais eficiente.
Durante a sua primeira semana com prefeito, Boutaris contratou um auditor. Isso foi uma novidade, e não apenas para Tessalônica. “Agora nós sabemos exatamente quem são os pobres”, diz ele. A cidade conta com um orçamento e um sistema contábil, e todos os gastos são cuidadosamente monitorados – algo que não é exatamente automático na Grécia.
O vice-prefeito de Tessalônica, Spiros Pengas, 43, está sentado em um café no Museu de Cultura Bizantina, próximo à prefeitura. “Se a crise não tivesse ocorrido, nós não teríamos sobrevivido”, afirma ele. “A cidade estava podre”.
Tessalônica sempre foi vista como um reduto de conservadores e nacionalistas. A helenização foi buscada com particular intensidade nesta região, que é considerada a “porta de entrada para os Bálcãs”, e que já abrigou vários grupos étnicos diferentes, que nem sempre se entendiam entre si. O conservador Partido Nova Democracia controlou a prefeitura durante 24 anos, fazendo com que a cidade se tornasse refém dos seus cleptocratas.
Durante a campanha eleitoral, o arcebispo local recusou-se a permitir que Boutaris beijasse a cruz durante a missa, e chegou até a aplicar uma espécie de excomunhão ao candidato: “Enquanto eu estiver no cargo, você não verá o interior da prefeitura”. Uma equipe de televisão registrou o incidente, e quando as imagens foram transmitidas, até mesmo cidadãos conservadores ficaram indignados com a audácia do arcebispo. “As pessoas querem mudanças. Elas perceberam que a situação não pode continuar desse jeito', diz Pengas. Sob o governo do predecessor de Boutaris, uma quantia de 51,4 milhões (US$ 68,4 milhões) desapareceu súbita e inexplicavelmente do orçamento da prefeitura. Ninguém sabe o que aconteceu com o dinheiro. Atualmente um ex-prefeito está sendo investigado pela polícia.
Pengas, que estudou ciência política em Munique, também nunca teve a intenção de ser político: “Eu sentia que havia uma diferença muito grande entre a teoria alemã e a prática grega”, explica ele. Boutaris o convenceu a mudar de ideia e a entrar para a política. A equipe dele inclui muitos indivíduos como Pengas. Eles são jovens, em sua maioria com a metade da idade de Boutaris, e as suas raízes não são políticas. Um dos membros da equipe de Boutaris era analista do Banco da Grécia, e um outro trabalhava para um firma de consultoria de gerenciamento.
Boutaris contrasta fortemente com os seus antecessores. Isso se deve em parte ao fato de ele não esconder que a sua vida nem sempre foi perfeita. Boutaris é um alcoólatra confesso, que tornou-se abstêmio após beber muito durante dez anos. Todos os anos, além do seu aniversário, ele comemora a data em que parou de beber. Ele não bebe álcool há 21 anos. Boutaris esteve divorciado durante sete anos, e depois casou-se novamente com a ex-mulher.
Para a Grécia ortodoxa, essa experiência de vida que é revelada por ele é incomum. Quando a mulher dele morreu em 2007, ele fez uma tatuagem de um unicórnio no antebraço, em memória ao “espírito notável” dela. Quando decidiu que chegara a hora de acabar com o luto pela mulher falecida, ele fez uma tatuagem de um lagarto na parte anterior da mão. Segundo ele, o lagarto é uma criatura cujo hábito de trocar de pele é um lembrete de que a mudança faz parte da natureza das coisas.
Talvez seja a imagem constante do lagarto na sua mão que o motive a enfrentar problemas que, não faz muito tempo, outros consideravam insolúveis.
Por exemplo, Boutaris contratou um gerente pessoal para avaliar os funcionários públicos e o trabalho feito por eles. Especialistas franceses em administração, que trabalham para a Força Tarefa da União Europeia na Grécia, estão tentando implementar o princípio do trabalho orientado para o desempenho no setor público da Grécia. Eles estão fazendo poucos progressos diante da resistência considerável.
Em Tessalônica, Vassilis Kappas, 42, lida com a questão das reformas no governo municipal. Ele diz: “Nós temos quase 50 mil funcionários na prefeitura, mas precisamos de apenas 3.000”. Segundo Kappas, muitos jamais aprenderam a trabalhar. Antigamente, votar no candidato certo era o suficiente para que uma pessoa recebesse um emprego para a vida toda como funcionário público. O clientelismo impediu o sistema público de tornar-se eficiente. Kappas elaborou um plano que reduz o número de diretorias na prefeitura de 32 para 20. A câmara municipal deverá submeter em breve essa proposta a votação.
“Coisas malucas estavam ocorrendo aqui, como por exemplo um sistema fictício de horas extras”, diz Kappas. A maioria dos funcionários municipais havia acumulado centenas de horas extras, mas não tinham nada documentado. Agora há um limite para a quantidade de horas extras e para as remunerações adicionais que um funcionário pode receber por elas. O sucesso das novas regras reflete-se nos gastos da prefeitura, que tiveram uma redução de 30% em 2011. O déficit do orçamento, que normalmente dobrava a cada ano, teve pela primeira vez uma redução – de 7,5%.
Os oponentes do prefeito na câmara municipal o atacaram devido à viagem que ele fez à Alemanha, enquanto que o jornal de Atenas “Kathimerini” questionou a sua sanidade por ter pedido conselhos logo aos alemães.
Mas Boutaris pretende também perguntar a autoridades de outros países como elas processam o seu lixo e administram os seus portos. “Ninguém pode consertar ou aperfeiçoar um sistema falido”, diz ele. “Tal sistema tem que ser descartado, e algo de diferente tem que ocupar o lugar dele”.
Ele dá uma tragada no seu cigarro sem filtro. Falando com uma voz tão rouca quanto a de Janis Joplin, ele diz que todo mundo precisa entender esse fato, tanto os cidadãos de Tessalônica quanto todos os demais gregos.
Tradutor: UOL
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